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Dias melhores virão

24 Mai

dias-melhores-virao-291Infelizmente não estou familiarizada com produções nacionais da década de 80. Há aspectos técnicos e contextuais que desconheço. Ainda assim, gostaria de comentar um pouco sobre o filme que revi na noite passada e que como sei, foi importante para o fortalecimento da identidade do cinema brasileiro.

“Dias melhores virão”, de 1989, é um filme dirigido por Cacá Dieguez e que traz Marília Pêra, José Wilker, Lília Cabral, Zezé Motta, Rita Lee e Paulo José no elenco. Na história, acompanhamos o cotidiano de Marynalva Matos (Pêra), uma dubladora que sonha em ser atriz de Hollywood. Apesar dos figurinos vibrantes e de uma aparente alegria, Marynalva ou Mary, como prefere ser chamada, é uma mulher marcada por uma vida solitária e infeliz.

Mary transfere seus profundos desejos (e fantasias) para os personagens e para as histórias dos filmes americanos que dubla. Como cortina, conhecemos os pequenos dramas dos colegas (também dubladores) que trabalham com Marinalva, entre eles Dalila (Zezé Motta), uma mulher negra que mora um senhor de idade maluco e que, ao contrário da personagem principal, é extremamente realística.

País vagabundo, povo fodido:

Dias melhores virãoPeço desculpas pelo subtítulo, mas é que não consegui pensar em outro mais adequado. “Dias melhores virão”, apesar de ser extremamente caricato, carrega consigo o que o brasileiro sentia no início dos anos 90 (e que de alguma forma, ainda sente). Marynalva é pobre, vive no subúrbio, toma sua cervejinha no final de semana e vive como amante de um homem, que nunca abandonará a mulher para ficar com ela. Para Marynalva, não há nada mais bonito do que a língua inglesa e seu sonho, é igualar-se à estrelas do cinema americano. Aliás, Marynalva não é nome de estrela, por isso, ela troca decide mudá-lo para Mary Matos.

Sua vizinha Dalila é negra, pobre e trabalha duro para conseguir sobreviver (ela brinca várias vezes que não pode ser vista pela polícia conversando com um branco porque será confundida com bandido). Sua outra colega trabalha vendendo rendas para ter umDias melhores virão Rita Lee dinheiro extra no final do mês. Pompeu (Paulo José) é um cineasta sem sucesso que nunca conseguiu verba para realizar um filme.

Como todo mundo sabe, a autoestima do brasileiro estava baixa, não tinha dinheiro, nem confiança e tudo que era vinha do estrangeiro, era melhor. O próprio titulo do longa é muito sugestivo: ‘Dias melhores virão’, uma síntese do próprio país (um país do futuro, uma promessa – que nunca se concretiza).

A trama inicia-se com a chegada de um rolo de filme americano muito aguardado pelos personagens. Através de um flashback, entendemos porque aquele filme é tão esperado. Voltamos então no tempo e conhecemos a história de Marynalva que já no primeiro dia de trabalho, mostra-se encantada com o seriado pelo qual foi contratada para dublar. Na tela, uma Rita Lee quase irreconhecível, falando em inglês é apresentada como uma atriz que estrela uma série americana (ao estilo I Love Lucy).

Gosto especialmente da interpretação de Zezé Motta, que me passa uma honestidade muito grande e que se contrapõe a excentricidade de Marília Pêra. (não que essa excentricidade seja ruim). Na trama, Dalila recebe inúmeras cartas de um gringo que se apaixonou por ela quando esteve no Brasil durante o carnaval. Ele a pede em casamento e sugere que ela vá morar com ele no México. Como Dalila não fala inglês é Marynalva que traduz todas as suas cartas. A decepção de Marynalva a ver o sucesso da vida amorosa da amiga é evidente (e paradoxalmente engraçada).

A vida amorosa de Marynalva foi um desastre desde muito cedo. A personagem vive assombrada pela imagem de Gabriel, seu primeiro namorado. Ela conta a história que quando tinha dezesseis anos, os dois saíram de um baile e após uma boa transa, Gabriel queria se exibir para ela em sua moto. O rapaz não viu o caminhão de lixo se aproximar, sofreu um acidente e morreu na hora.  Marynalva se afogou em um mundo depressivo e decidiu não sair mais do apartamento, vivia lendo revistas e vendo TV.

Pompeu se apaixona imediatamente por Marynalva e divide com ela todos os seus sonhos. Ironicamente, Marynalva não nutre o mesmo amor por ele e o usa para espionar o amante.

Deboche e Plasticidade:

Há uma cena muito divertida em que Mary chega em casa, depois de um dia de trabalho, liga a TV e começa a assistir uma entrevista do Daniel Filho, falando sobre a situação do cinema brasileiro. A personagem observa um pouco a tela e depois faz uma careta, debochando das nossas produções. E não é que somos nós? De alguma forma, descrentes no cinema nacional?

Marilia pERAO longa é todo muito plastificado o que evidencia uma intencionalidade, exemplo é que quando Mary caminha para chegar em casa, é usual o surgimento de um morador de rua ou de um bandido (todos, negros mas pouco convencionais). Outra coisa interessante é que apenas Mary usa perucas, roupas exageradas e de cores fortes, portanto é o quesito identificador de sua excentricidade, afinal, diferente dos outros, Mary é um personagem absolutamente lúdico.

Mary é uma doce referencia a Carmen Miranda, uma atriz/cantora que conseguiu fazer sucesso em Hollywood. E qual é vantagem? ‘Ela ganha em dólar, responderia um dos personagens. Mas também tem que fazer todas as vontades do estudo. –E daí, se ganha em dólar? (*Marynalva consegue chegar nos EUA e fazer sucesso, mas sua personagem é uma empregada, porque é esse o lugar que Hollywood nos reserva).

Aurora: Aurora Miranda aparece pouco no filme, mas não passa despercebida. Aquela participação na trama, uma sutil homenagem a sua carreira e a carreira da irmã, Carmen Miranda é também um trabalho metalinguístico. O personagem é bastante caricato, não se sabe muito bem o que ela faz ali, às vezes ela aparece cantando, outras, dublando. Independentemente, a história de Aurora se Aurora Miranda em Dias Melhores Virão mistura com a de Carmen, com a de Marynalva e com a de tantas outras mulheres que um dia nutriram o sonho de ir para Hollywood. Como se sabe, Aurora também foi cantora e ao lado da irmã, gravou inúmeros sucessos. Pouco tempo depois que Carmen foi para Hollywood, Aurora seguiu seu passos. Moraram juntas em uma mansão em Beverly Hills. Enquanto a carreira de Carmen decolava, a de Aurora afundava. Ela decidiu se dedicar inteiramente a família e aos filhos e parou de cantar ou gravar discos. Ruy Castro conta na biografia de Carmen, que Aurora não se dava muito bem com David Sebastian (marido de Carmen) e por isso, decidiu voltar ao Brasil com os filhos. Quando chegou, teve um choque cultural grande, estava acostumada com as ruas limpas da América, com a beleza e com a vida boa. Quis voltar, mas já não tinha jeito. Aurora também tentou recomeçar a cantar no Brasil, mas suas músicas já tinham ‘saído de moda.

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