Amor em dois níveis

Por dezoito reais (em um bazar da PUC) comprei o livro “Cartas” organizado por Ítalo Moriconi com uma seleção de mensagens enviadas por Caio Fernando Abreu a parentes e amigos íntimos. Com uma sensibilidade inquestionável, o autor relata fatos curiosos sobre seus namorados (inclusive sobre o relacionamento com Cazuza) e suas viagens, além de uma descrição profunda sobre a dura realidade que enfrentou nos últimos anos de vida, quando foi diagnosticado com aids.

Em cerca de 532 páginas, me deparei com inúmeras reflexões sobre a vida, sobre o amor, morte, dor e solidão (aliás, Caio F. me pareceu uma pessoa muito só, ele relata de maneira dolorida o quando sofria quando chorava sozinho nas escadas de casa por sentir uma falta sufocante: “falta de gente”).

Uma das reflexões de Caio F. me tocou profundamente, é sobre um sentimento de vastidão incalculável, o amor. Ele questiona a Maria Adelaide Amaral (a qual carinhosamente apelidou de “Levíssima”, que pesava 42 quilos) se o amor se passa em dois níveis: o do lúdico e o do real. 

Será que isso que a gente chama de amor se passa sempre fatalmente em dois níveis? O da fantasia, da emoção real e poética – e o da realidade que descamba para a agressividade, para a dureza?  Ou só existe o permanecer de braços abertos, como no sonho de Luísa (esse sonho podia ser perfeitamente meu), pronto(a) a receber alguém, no plano real, toma forma, a gente imediatamente projeta toda aquela emoção presa na garganta do sonho. E fatalmente se fode, porque está tentando adequar/ajustar um arquétipo, uma imagem de toda a nossa infinita carência, nossa assustadora sede, a uma realidadezinha infinitamente inferior. (Carta a Maria Adelaide Amaral, 26 de Outubro de 1984).

E a resposta me pareceu tão clara, “é isso mesmo Caio”, pensei com meus botões.  Mas me restou uma dúvida: Por quê esperamos tanto que o outro se torne tudo aquilo que desejamos?  Por quê é tão difícil reconhecer no outro a inevitável imperfeição (que também nos aprisiona)? Parece mais fácil, talvez, fugir através da agressividade ou do silêncio, da perda.  E é o que de fato o que acontece, nos esquecemos por instantes dos momentos bons e as situações que não corresponderam nossas expectativas se parecem ainda mais dolorosas. Bom… a resposta veio do próprio Caio:

“É coisa do humano. Descobri que somos muitíssimo capazes de suportar a dor do que suportarmos” (Carta a Maria Augusta Antoun, 01 de dezembro de 1995)


6 thoughts on “Amor em dois níveis

  1. Lucélia Ribeiro diz:

    As vezes ficamos condicionados a um amor que só existe na nossa cabeça. Nunca conseguirei compreender o porque de não aceitarmos o real. Falo isso por mim também. Nós mulheres não conseguimos sequer suportar o defeito do outro e já o deixamos, muitas vezes, chego a conclusão que não sabemos amar e que TODOS os dias nos desviamos da nossa meta maior que é encontrar alguém que nos ame sem defeitos, da forma como nos encontra, ou seja, que nos ame por INTEIRO. No entanto, JAMAIS somos capazes de amar uma pessoa assim! O amor é ambíguo, complexo, desmotivador, dolorido e fere mais do que qualquer adaga, mas sem ele não conseguimos viver. Sem AMOR sentimos uma dor lascitante no peito que parece que irá nos matar. Contudo morremos por amor, por amor ao outro, por amor a nós mesmos, por amor do amor que mata, fere e despedaça.

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