Nonsense

A única coisa que queria fazer, assim que chegasse em casa era dormir e se possível, só acordar depois que tudo isso passasse. O elevador demorou a chegar, moro no último apartamento, no último andar. Coloquei as sacolas na cozinha, joguei a bolsa no chão da sala, tirei os sapatos. Deixei que meus pés descalços sentissem a temperatura fria do chão. Como era de costume, eu estava sozinha naquela casa enorme. Reparei que o copo de água estava na cabeceira da cama há dias. Tirei a blusa, coloquei uma roupa mais leve e senti um alívio em ver que as cortinas já estavam fechadas. Encostei a cabeça no travesseiro, cobri meu corpo com a coberta pesada, aquela que ganhei de presente de casamento. Foi uma das únicas coisas que deixei aqui depois que ele se foi. Deixei as fotos também, porque quero que nosso filho saiba da nossa história. Das felizes e das tristes. O único barulho que ouvi foram os pingos da pia do banheiro. Quando fechei meus olhos concluí mais uma vez que aquele dia não tinha nada de especial, assim como todos os outros. Minto, só tive um dia especial na minha vida: o nascimento do meu filho, que é uma das únicas coisas de que eu não me arrependo de ter feito. Pena que ele se saiu ao pai, sempre me deixando só. E eu, que queria dormir, não conseguia pregar os olhos. Resolvi há uma semana que era hora de parar com os calmantes, era um vício que além do cigarro, acabavam comigo. Coloquei um mão sobre a outra – pude sentir as veias saltadas, sinais claros de velhice.

No escuro e no silêncio, ali estava eu , mais uma vez: pensando na vida. “Já estou cansada de levantar cedo, de ter que ir as ruas e fingir ser alguém que não sou. Simplesmente isso: eu não sou, ou melhor: alguém que fui – que deixei de ser.” Meus pés começaram a ficar gelados, devia ser o vento que entrava pela porta. De repente comecei a me lembrar de quando era pequena, de quando eu não gostava de dormir com as meias que minha mãe me obrigava a usar. Eu nem sei porque eu pensava nisso, só queria estar em outro lugar, num lugar bem longe dali. Levantei, ascendi a luz, peguei meus chinelos. Me sentei no parapeito da janela. La de cima vi o campinho de futebol que o vizinho o 7º andar amava. Olha, eu não pensei em pular, longe de mim – eu só precisava de um ar. Quando me virei para voltar ao quarto, meu pé perdeu o equilíbrio. Foi isso, eu juro – eu não me joguei, eu caí. E enquanto caía, pensava: espero que tenha deixado a porta aberta para o meu filho. Depois não senti mais nada, eu já não sentia muito quando estava viva. Eu nem sei se estava viva mesmo, de que adianta estar vivo e sentir quase nada? Só sei que AGORA, agora, estou me sentindo tão bem, tão viva. Você me entende? Já não devo nada a ninguém, nem a mim mesma e essa sensação é tão boa, que eu só consigo pensar: deveria ter pulado antes.

(nota do autor: é que eu estou sem sono e sem senso)

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