Carta a uma amiga

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Lucélia,

Foi tão bom conversar com você hoje, tão bom saber que eu não sou a única a sentir essas coisas: sentir medo de não encontrar alguém ou de terminar sozinha. Resolvi escrever porque enquanto estava no ônibus, ouvi uma garota dizer: “nos já nascemos completos, o outro só vem para acrescentar”. Já tinha escutado isso antes, inúmeras vezes aliás, mas agora parece que o efeito foi diferente, mais profundo sabe? E enquanto percorria o caminho da faculdade ao estágio, só conseguia pensar: essa sensação que nos temos é universal.

Todo mundo (nem que seja lá no fundo) tem medo de terminar sozinho.

Todo mundo em algum momento da vida precisa de afeto, de atenção.

Quando conversávamos eu te disse: “Somos novas demais para sentir isso” – acho que me enganei. Talvez seja a época certa de sentir isso. Nossa inexperiência nos dá direito de trazer no coração algumas aflições do mundo, de nos jogar de cabeça em um sentimento, de nos entregar. Se isso é bom ou ruim, aí eu já não sei. Mas não dá pra passar a vida inteira se privando, tendo medo de viver um relacionamento (ou de não vivê-lo. Porque afinal, a vida se faz disso também: de ausência).

Nos temos direito sim de esperar por um príncipe encantado num cavalo branco (e continuaremos tendo direito daqui há vinte, trinta anos).

E se vamos quebrar a cara? É claro que vamos. Pensando bem, a vida não teria graça se tudo desse certo, se tudo estivesse em seu lugar. O que seria da emoção? E se desistimos fácil, se temos vergonha: que seja, o mundo é que se exploda. “Vamos viver tudo que há pra viver” sem “apressar o rio, que corre sozinho”. Desculpe Lucélia, já estou falando da vida, como se soubesse de tudo. A verdade: é que não sei nada – Graças a Deus!

 

Thais dos Reis