Essa chuva que não para, esse calor infernal: dois motivos interessantes que não me permitem esquecer as coisas que você disse. Eu fui a sua casa, engoli todos os meus medos, minhas vergonhas e pedi para você voltar. Ficamos horas na porta.  Enquanto meu coração batia fortemente, seus olhos reviravam de preguiça. Eu não queria sair dali sem você, não podia. Falávamos do passado, de um possível futuro e você, insistia em se desculpar por não ter atendido minhas expectativas.

Eu queria sim: me casar, ter filhos, dividir as contas, discutir política e fazer amor. Teria dado certo, se você fizesse apenas uma coisa: me desse mais uma chance: será que não significa nada? Foram dois meses, eu sei. Mas dois meses intensos, meu Deus! Como você é arrogante!

Não bastasse, disse que desejava o meu bem, disse que queria que eu encontrasse um amor, alguém bem bonito, que chamasse atenção. Ora! Se me amasse mesmo, desejaria que ninguém mais passasse na minha vida, desejaria me ver sozinho, no limbo, morta – mas não com outra pessoa. E aquele suspiro! O que foi aquilo? Suspiro de “ai que porre”.

Quem é você? Onde estão as promessas que me fez? De que morreríamos juntos! Você me deixou morrer sozinha, você me deixou.

Ética, estética e Cinema

reflexão rápida, porque ninguém é de ferro.

A produção cinematográfica, assim como tantas outras produções artísticas, ocupa um papel importante na compreensão e valorização da subjetividade humana. Não sendo considerada apenas uma “forma de fazer arte”, o cinema quando realizado com um compromisso ético, cumpre a função de retratar a realidade. Em outros casos (ou, porque não dizer: quase sempre), é possível que o cineasta deixe de ser um observador para expressar os seus pontos de vista.

A narrativa do espaço fílmico assume perante os espectadores e perante os personagens, uma relação importante que propicia comportamentos e emoções. No âmbito da ética, vários aspectos precisam ser observados como: filmar só quem autoriza ser filmado, linguagem, contraste, sombras, sons, campos e cortes.

O cinema (seja na construção de documentários ou películas de entretenimento) trabalha com a interioridade das personagens (tanto nos gestos quanto na própria palavra dita) e depende também do ambiente, valoriza a história e determina como os fatos deverão ser narrados. Algumas situações, por exemplo, são menos filmadas por serem menos filmáveis (locais com espaço reduzido, pouca luz). Como reflexão sobre essas premissas, temos ainda que salientar a importância dos créditos e dos roteiros.

As discussões disponíveis neste blog não possuem o intuito de ensinar ou analisar a estética das obras audiovisuais. O texto acima, que ajuda a apresentar o tema é apenas o início de reflexões sobre a abordagem e o papel do cinema. Como proposto no post anterior, a pergunta “é possível dar conta da produção cultural das grandes cidades sem ser injusto?”

Nem gravata, nem honra

Cunha, pequena cidade situada na divisa entre o Rio de Janeiro e São Paulo é o cenário do documentário “Nem Gravata, nem honra” de Marcelo Masagão, que propõe a determinados moradores, interessantes questionamentos sobre as diferenças entre os sexos. De forma ilustrativa e divertida, o diretor permite que os personagens assistam a gravação de suas entrevistas após um ano e pede que comentem sobre elas.

Em uma das entrevistas, realizada em uma escola, uma criança (menina) diz que os homens sentem-se envergonhados de se aproximar dos filhos e conclui que justamente por serem homens, devem se portar de maneira mais fria. Por outro lado, em sua visão, a mulher possui a figura da doçura materna, é aquela em que os filhos podem confiar e descarregar seus problemas emocionais. Para reforçar essa idéia o diretor se utiliza de exemplos que enriquecem ainda mais a trama.

 Um deles é o da professora que antes de se dedicar a profissão, ficava em casa cuidando dos filhos enquanto seu marido (publicitário) saia para trabalhar e assumia as despesas da casa. O prefeito de Cunha confessa que não tinha uma relação próxima com seu pai e que também é distante dos filhos, mas de acordo com a sua concepção, é algo que contribui para a educação deles. Não muito distante, há uma frase muito repetida da qual me recordo ouvir na infância: “Os filhos são da mãe e não do pai”.

A professora, de início, só se sentiu motivada a tirar carteira, estudar e começar a trabalhar, quando viu seu marido oferecendo carona para a vizinha. Depois que venceu seus próprios preconceitos, também se viu obrigada a responder questionamentos de outras pessoas, como os da sogra, que lhe questionava se a educação dos filhos estaria em jogo em conseqüência de tal emancipação.

Neste contexto, assim como exemplifica Laraia em sua obra “Cultura, um conceito antropológico”, existem mulheres que em outros países e distintas sociedades, desempenham atividades que na nossa cultura, podem ser considerados trabalhos específicos de homens.

Por que há quem acredite que a mulher não tem condições para desempenhar a função de pedreiro, se por outro lado, em bairros mais pobres (ou sem água), carregam baldes pesados, lavam, passam e cozinham para toda a família? Tanto o livro de Laraia quanto o documentário, são obras importantes pra desmistificar o determinismo biológico, que em resumo, estabelece diferenças entre os homens tendo como base o gênero ou as raças.

O homem de um dos casais entrevistados, afirma que afigura masculina possui mais “moral”, é ele que representa a moral da família, de forma paternalista, é quem manda na casa e nos morados que nela se encontram. Mas essa moral é questionada com outro exemplo. Quando outro casal é entrevistado, o espectador se depara com uma situação incomoda.

A mulher foi traída, aceita o homem de volta e sente-se culpada por estar envelhecendo. Durante o documentário, ainda ressaltam que a mulher cede à entrevista na cozinha e o homem, na sala, delimitando o lugar a que cada um “realmente” pertence.

O determinismo geográfico considera que as diferenças do ambiente físico condicionam a diversidade cultural. Tendo como base esse conceito, podemos ter um dos entrevistados como exemplo que afirma que a homossexualidade é “coisa” de latino americano. Mas essa influencia geográfica, como contrapõe Laraia, também é falsa afinal, será mesmo que se uma criança recém nascida (por exemplo) for retira da França e for criada no Brasil, terá características e uma cultura muito distinta da nossa?

Dogma 95

O filme dinamarquês “Festa de Família” foi o primeiro a receber o certificado de obediência ao Dogma 95. A narrativa explora a história de Helge (interpretado por Henning Moritzen) que ao completar sessenta anos, decide reunir a família para uma comemoração. A festa transcorre sem incidentes maiores até que o seu filho mais velho diz que seu pai o estuprava (junto a sua falecida irmã gêmea) com o consentimento da mãe.

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O diretor Thomas Vinterberg, contrapondo às regras do convencionalismo, utilizou uma câmera de mão (semelhante à imagem de registro caseiro em VHS) que sempre em movimento, tornou-se uma complementação à subjetividade dos personagens envolvidos na trama. Além da luz natural, é possível perceber a reprodução dos sons do ambiente.

Em 1998, Lars Von Trier surpreendeu o público com seu filme “Os Idiotas”, sua única obra totalmente fiel ao movimento Dogma 95. Em busca da essência do cinema, o diretor realizou o filme em locações (e não em estúdios), sem efeitos especiais, iluminações ou trilhas sonoras. Assim como em “Festa de Família” a câmera ficava na mão do cinegrafista. O filme conta a história de uma mulher deprimida e solitária que se agrega a um grupo de pessoas normais que para chocar a sociedade e desestabilizar costumes, se passam por portadores de doenças mentais.

No mesmo ano, Søren Kragh-Jacobsen recebe o Urso de Prata no Festival de Berlim por seu filme “Mifune – Dogma 3”. Ao contrário dos dois filmes anteriores, a câmera não treme e a imagem é nítida. Mesmo na busca pela “inocência perdida” do cinema, o diretor realiza uma das obras mais líricas do movimento.

 A obra conta a história de Kresten que se casa com a filha do patrão e que tem a lua-de-mel interrompida pela morte de seu pai. O personagem se vê obrigado a partir para a fazenda da família para tomar decisões sobre o enterro e resolver o que fazer com seu irmão que é portador de deficiência mental. Com dificuldades para cuidar do seu irmão, coloca um anúncio no jornal e quem responde é Lívia, uma prostituta por quem Kresten se apaixona.

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Já em 2000, Kristian Levring adere ao movimento e lança o seu filme “O Rei está vivo – Dogma 4”. Nele, um grupo de pessoas (de diferentes idades, etnias, sexo e crenças) fica isolado em um deserto da Namíbia. Diante do desconforto, do calor e da fome, surgem sentimentos, frustrações e conflitos de valores.  Até que em um momento, um dos personagens, sugere a encenação de uma obra Shakespeariana, “O Rei Lear”.

O Dogma 95, com suas restrições e como voto de castidade, propõe adequar o cinema na representação da verdade. Atualmente, cerca de 80 filmes, produzidos em diversos países (como Itália, EUA, México, Canadá) já receberam o certificado.