Grey Gardens

Estou encantada com a perfeição em detalhes de ”Grey Gardens”, filme produzido pela HBO em 2009, com Jessica Lange e Drew Barrymore. Não posso omitir que tinha esse filme gravado em DVD há mais de dois anos e só peguei pra ver motivada pela protagonista de American Horror Story. No entanto, já no final, corri para o computador para entender a história dessas duas mulheres excêntricas que viveram os “dois lados da moeda” da sociedade.

O fenômeno começou em 1975, com um documentário realizado por Albert e David Maysles sobre a vida de Edith Bouvier Beale (Little Edie) e sua mãe Edith Ewing Bouvier (Big Edie). Duas mulheres que freqüentaram a alta sociedade nova-iorquina e terminaram a vida em uma casa caindo aos pedaços, repleta de bichos e lixo. A situação doentia em que viviam provocou uma restrição judicial: o mau cheiro da residência começou a incomodar os vizinhos.

A grande sacada dos irmãos Maysles é que as duas eram respectivamente prima e tia de primeiro grau de Jackie Kennedy. Maysles que pretendiam rodar um filme sobre a irmã de Jackie descobriram naquele caso, uma degradação física e psíquica que chamou atenção da imprensa. Sem interferir no cotidiano das duas (e depois de conquistar a confiança delas), os irmãos registraram recortes históricos sobre a vida das Edie’s e sobre suas fantasias: que estavam sempre muito claras em suas falas.

Logo, as duas – através das suas memórias: “contam o que queriam contar” ou, no que acreditam convencer e agradar. O documentário conquistou fãs, inspirou uma seqüência de obras teatrais (inclusive um musical de 2006, estrelado por Christine Ebersole), pinturas e o filme produzido pela HBO.

Grey Gardens, por: Steve Motzenbecker

Eu estou encantada pelo filme, pela delicadeza da produção, pelo capricho com as roupas e pelo detalhismo da maquiagem. Então, vi o documentário e li várias passagens. O que mais me agradou foi o que a Drew Barrymore disse em uma entrevista: “Esse filme não se trata de uma história de amor entre um homem e uma mulher e sim, entre uma mãe e uma filha”.

E realmente, a história se concentra toda nessa relação tumultuosa de amor, raiva e  ressentimento que as duas alimentaram por tanto tempo: confinadas naquela casa. A passagem que li em um desses blogs (me desculpem por não lembrar o nome) é perfeita: Eles dizem que o ressentimento que uma sente pela outra é tão grande, que não cabe naquela mansão de 14 quartos. Enquanto uma culpa a mãe pelo insucesso na carreira, a outra culpa a filha por ofuscar o seu brilho.

O filme da HBO tem esse diferencial, retrata o que o documentário somente sugere através da fala das personagens. A primeira cena se passa em uma festa oferecida pela Big Eddie em homenagem ao debute da filha. A menina que está acostumada com uma boa vida precisa escolher um marido para sustentar e dar continuidade a seu luxo. No entanto, não é o que ela quer. Seu desejo é se mudar para Nova York e se tornar uma atriz famosa.

a “Pequena Edie” na vida real, segurando uma foto da mãe, quando jovem.

Enquanto todos a esperam, a “Pequena Edie” foge da casa até ser alcançada pela mãe. A jovem quer sair e conhecer o mundo e diz a frase marcante (proferida outras vezes no filme e no documentário):

-Não se pode ter o bolo e comê-lo ao mesmo tempo.

Mas a mãe insiste, que sim: que é possível (se casar, ser uma estrela, ser feliz e ter uma vida perfeita). As duas voltam para o baile, e assim começa a história.

Na verdade, estou citando essa passagem pelo seguinte: a Pequena Edie nutre o todo o tempo (inclusive já mais velha) o sonho de ser famosa. E a mãe cumpre o papel de puxá-la para dentro, de pedir que o sonho fique para depois (sem lhe dizer que ela não irá se realizar). A discussão chave do longa é justamente essa.

Quando a jovem Edie vai para Nova York tentar seu sonho, a mãe a impede e a faz voltar para casa. Edie guarda um ressentimento muito grande em relação a ela. No entanto, fica muito claro que: a mãe nunca obrigou Eddie a voltar, nunca a obrigou ou a prendeu naquela casa, ela permaneceu porque quis, ou porque tinha medo. Tentou sair inúmeras vezes, mas voltou – guiando os próprios pés.

A atuação de Barrymore e Lange é impecável. Mas li uma coisa interessante: Lange chega muito perto do que a imagem da Big Edie transmite (principalmente quando canta Tear for Two, com uma entonação diferente – com voz de velha mesmo – muito próxima ao que a Big Edie verdadeira fez no documentário). Mas os rastros claros da cirurgia plástica da atriz fazem com que sua emoção se torne vaga (e isso se repete em American Horror Story).

A grande lição que as duas deixam é simples e muito bonita: Big Edie diz para a filha: “sim, nos temos ressentimentos, e está muito tarde para nos arrependermos”. Em outra passagem (já no final) a filha diz: “Não se pode ter o bolo e comê-lo ao mesmo tempo.” E mãe responde: “Mas eu tive, mastiguei e masquei o bolo e fui muito feliz.”

 

 

Um Certo Olhar

Às vezes eu fico encabulada com as traduções brasileiras para os títulos dos filmes. Sempre me lembro de uma das conversas que tive com as meninas da faculdade que disseram

– É a forma que eles encontram para tornar o filme mais vendável.

– Ótimo, peçam para colocar uma legenda de IDIOTA na nossa testa também.

Mas enfim: Há algum tempo estou com este filme gravado em DVD e essa é a terceira vez que sento para vê-lo. Como o início é muito lento, não tinha paciência para chegar aos finalmente, até que hoje: feriado e sem internet, decidi ver tudo até o final. E acreditem: o filme conseguiu minhas lágrimas (o que não é tão difícil, mas).

A história é muito interessante: “Alex (Alan Rickman) é um inglês que está no Canadá para se encontrar com a mãe do seu falecido filho. No caminho, conhece Vivienne (Emily Hampshire) e lhe dá uma carona. No caminho um acidente com um caminhão provoca a morte de Vivienne. Então, Alex decide procurar a mãe da jovem: Linda (Sigourney Weaver). Alex descobre que Linda é autista e quando conversam sobre o acidente, percebe que ela não teve qualquer reação ao saber do acidente da filha. Assim, decide (e de certa forma é impelido por Linda) a ficar até o funeral. Alex conhece Maggie (Carrie-Anne Moss), a vizinha de Linda, com quem acaba tendo um relacionamento”.

“Um certo olhar” é  um filme que levanta questionamentos sobre perda, sobre sofrimento. Quando Alex e Linda são visitados pelo motorista do caminhão que matou Vivienne, Alex fica nervoso – pede para que ele saia. E Linda diz algo interessante: “Eu não vou ter Vivienne de volta, nem você, nem ele.” O que a cena sugere é: porque prolongar a dor? “Vivienne morreu, mas nós estamos vivos”.

Além da fotografia linda, temos um presente: a atuação brilhante de Sigourney Weaver é de contagiar qualquer um. Ela consegue fazer com que as “manias” chatas de Linda, se tornem cativantes. É como se entrássemos na cabeça do personagem para entender que um tapete fora do lugar, ou uma manchinha no sofá representam um real sofrimento, algo tão grande que a impede até de levantar da cama. Aquele é o universo dela, da autista, e precisa ser respeitado. Ah, e quanto ao nome do filme: Assistam para descobrir por que Snow Cake, ou: “Torta de Gelo”

Ficha Técnica:

Duração: 1h 52min

Dirigido por: Marc Evans

Gênero: Drama

Nacionalidade: Reino Unido, Canadá

Com: Alan Rickman, Carrie-Anne Moss e Sigourney Weaver