.Xmas.

CAM00133Há duas semanas eu conheci o Papai Noel. Ele estava sentado em um dos bancos da praça principal de Nova Lima, usava chinelos e levava uma sacola plástica cheia de latinhas. Achei estranho ele puxar papo, estava sentado ao meu lado há uns quinze minutos, observando o pisca-pisca que enfeitava o poste e de repente, me disse:

– Eu gosto muito de crianças, mas nunca tive filhos, eu acho.

– Você acha? Não tem certeza? (perguntei).

-Pelo menos nenhuma mulher apareceu com filho meu.

Ele se aproximou um pouco mais e disse:

– Eu sou o Papai Noel. Meu pai era o Papai Noel também antes de morrer. Mas agora eu não dou presente para as crianças, não tenho dinheiro. O problema é que eu tenho medo de Papai Noel, até rezo quando passo por um. Eu já passei necessidade sabia? Agora não, sempre ganho alguma coisa, roupas ou comida. Hoje mesmo uma mulher me pagou um cachorro-quente, e eu estava com tanta fome. Mas foi Deus, porque eu tinha acabado de sair da Igreja Universal. Vou muito à igreja e ao CAPS também, conhece?

– Conheço ( CAPS significa  Centros de Atenção Psicossocial).

– Eles me dão remédio quando vou lá. Minha mãe também tinha problemas de CAM00139cabeça igual eu tenho.  Mas a minha só piorou depois que levei um tombo e bati a cabeça no chão. Antes disso eu era normal. Eu trabalhava em um escritório, junto com o meu irmão. Eu fui contabilista, fui motorista. Já trabalhei muito. E você, o que faz?

– Sou estudante de jornalismo

– Eu também já fui repórter. Escrevia muito, trabalhava no rádio, escrevia para o jornal. Já contei que dirigia caminhão? Dirigia ônibus também. É muito fácil, é só controlar a embreagem. Mas agora eu cato latinhas, ganho 35 reais. Lá em Belo Horizonte eles pagam melhor.

– Parece que tem alguma formatura na igreja hoje.

– É.  Bonito mesmo são as luzes que estão enfeitando. Sabe, eu tenho 49 anos, mas dizem que pareço ter 32. Não acha?

– Acho.

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Pra ser sincera, eu diria que ele tinha uns 54 anos, mas não queria contrariá-lo, o papo estava bom. Ele repetiu o nome pra mim umas cinco vezes, mas não consegui gravar, era um nome difícil. Enquanto conversava com ele eu fotografava a praça. Minha vontade mesmo era de fotografá-lo, mas não queria deixá-lo desconfortável. A conversa foi rápida, eu tinha que ir à Auto-Escola. Quando saí prometi que escreveria sobre ele, que escreveria uma história para ele. Mas  não consegui pensar em nada, em nenhum história bonita. Por desencargo de consciência e como forma de agradecimento pela companhia, aí está o texto que consegui escrever para o homem que conheci: Papai Noel.

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3 thoughts on “.Xmas.

      • cristina ferreira diz:

        So agora no ultimo dia do ano li este seu relato sobre papai noel,fico emocionada com sua capacidade de colocar um sensibilidade superior em um fato simples ,como uma conversa em um banco de praça.São detalhes tão significativos do cotidiano que nos faz refletir em que mundo vivemos o que somos e o que queremos ,so tenho a agradecer pois vejo que devemos sim valorizar as pessoas como elas são na sua integridade fisica e mental parabéns pela capacidade de nos emocionar sempre

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