Fragmentos

Hilda Hilst

(Hilda Hilst)

Muros castos e tristes
Cativos de si mesmos

Como criaturas que envelhecem
Sem conhecer a boca
De homens e mulheres.

Muros Escuros, tímidos:
Escorpiões de seda
No acanhado da pedra.

Há alturas soberbas
Danosas, se tocadas.
Como a tua própria boca, amor,
Quando me toca…

Epifanias em Vermelho

epifanias em vermelho

Ironicamente e apesar de tudo, eu não consigo entender o que sinto sobre nos dois. Demorei muito tempo para perceber que eu sou melhor sozinha e que hoje em dia não abro mão disso. Ainda assim, eu poderia passar a eternidade ao seu lado. Só porque eu acho que você sente as mesmas coisas que eu sinto. Acontece que a sua presença traz recordações “non gratas”. Sempre há rodeios sobre acontecimentos que eu resolvi deixar fora da minha vida. Como se isso fosse possível. Sabe, tudo me parece tão mascarado, tão interpretado que no final das contas soamos ridículos. Ando me perguntando se conseguiria viver com alguém mais covarde do que eu. Pouco provável. Eu só aguento a minha película fina de obscuridade porque não posso me livrar dela. Eu queria que você estivesse aqui, dentro de mim. Que você soubesse dos meus desejos e que pudesse satisfazê-los. Eu queria estar dentro de você, só para saber seus desejos e satisfazê-los. Seria bom se não soasse tão pedante. Essa história de transparecer força e frieza me recorda do que somos. Já pensou que tanta seriedade pode ser uma desculpa? Estou tendendo a acreditar que estamos fadados a viver nesse ciclo de distanciamento, nessa intertextualidade entre dor, culpa, desejo e prazer. Há que se ter (há que se arrumar) um motivo. Há que se fingir e isso é muito triste. É uma pena que precisamos de pretextos para estar juntos. É uma pena que você se envergonhe disso. É uma pena que eu me envergonhe também. Ao mesmo tempo penso que estão certos os que dizem que a vida é muito rápida. Eu não quero passar pela juventude sem ter vivido meus desejos, com medo de tentar algo novo, me responsabilizando pelos outros, sacrificando o presente por um futuro que eu nem sei no que vai dar. Eu queria amar loucamente, queria ver a vida sangrar. Vê-la escorrer em vermelho pelos olhos, pelas roupas, pela carne. Prazer e dor andam de mãos dadas. Queria me embriagar e não voltar pra casa (se possível por uns dias). Queria esquecer das limitações, os medos, os anseios. Não queria pensar em nada nem imaginar se estaríamos juntos no futuro, queria viver o presente e nada mais. Mas quem não quer? Estamos todos enclausurados na “maldição tantas vezes repetida”. Estou triste por nos dois. Estou triste por não conseguirmos ser mais do que essa mísera repetição.

Normal

Amor, Casamento, Aceitação, Sexo, Mudança
Amor, Casamento, Aceitação, Sexo, Mudança

Quando achei que a Jessica Lange não podia me surpreender mais, encontro disponível na internet “Normal”, longa produzido em 2003 pela HBO. Com muita delicadeza, o filme dirigido por Jane Anderson (e que traz Tom Wilkinson e Richard Bull no elenco) explora uma discussão antiga e complexa: a transexualidade. Apesar do assunto não ser uma novidade, a troca de sexos continua sendo motivo de grandes discussões políticas e representações cinematográficas. No filme “A Lei do Desejo” (de 1987), Carmen Maura interpretava Tina, um homem que mudou de sexo para manter um caso incestuoso com o pai. Também não muito distante Felicity Huffman protagonizou em 2005 “Transamérica”, longa em aparecia como um transexual que lutava para realizar a cirurgia de troca de sexo.

Mas, diferente das bizarrices de Almodóvar ou da abordagem quase visceral de Duncan Tucker, “Normal” é extremamente leve. Vemos Roy Applewood, um senhor casado e com filhos que decide assumir a transexualidade. Ele cria um embate com a conservadora cidade onde mora e passa a conviver com a hipocrisia, com o preconceito dos colegas do trabalho e com a incompreensão da família. A imagem de Tom Wilkinson, vestido de mulher me lembrou muito o cartunista brasileiro Laerte Coutinho. Para quem nunca viu, há uma entrevista maravilhosa que Coutinho cedeu a Marília Gabriela onde fala do seu trabalho e de suas experiências como transexual. Recentemente, Laerte tomou uma atitude polêmica: entrou na justiça para ter o direito de usar o banheiro feminino.

{A revelação}

Logo no início do filme, o casal Roy e Irma Applewood (que comemoram 25 anos de casados) reúnem-se com o padre da igreja para conversar sobre a relação. Após uma benção, o padre questiona se está tudo bem ou se há alguma coisa interferindo na vida sexual dos dois. Inesperadamente, Roy (um senhor na casa dos cinquenta anos) não consegue segurar as lágrimas e confessa: “Sou uma mulher presa no corpo de um homem e quero fazer uma cirurgia para trocar de sexo”.

Em princípio, tanto o padre quanto a Irma não acreditam naquela conversa. Porém, quando cai na real de que tudo aquilo é verdade e de que o marido está decidido a fazer a cirurgia, Irma abandona a sala e termina a reunião. Já em casa e incrédula começa a confrontar o marido com perguntas duras e diretas: “Quando você transava comigo, era um homem ou uma mulher?” De maneira sincera e compreensível, Roy responde que em várias vezes, durante o sexo, se sentia como mulher.

- Eu não quero desculpas, eu quero o meu marido de volta!-Você não pode tê-lo de volta.
– Eu não quero desculpas, eu quero o meu marido de volta!
-Você não pode tê-lo de volta.

Ironicamente, a filha do casal (interpretada por Hayden Panettiere, ainda bem novinha) possui trejeitos masculinizados, não gosta de usar roupas de meninas e não tem paciência quanto à menstruação. Irma faz de tudo para que ela não saiba do que acontece com o pai, mas há situações que não podem ser evitadas. Sem delongas, Irma manda Roy para fora de casa e implora para que ele repense suas “escolhas”. Acontece que Roy chegou ao ponto de não conseguir negar-se mais, chegou ao fundo do poço, estava com algo entalado na garganta e aquele era o momento de se libertar.

tumblr_mr2qlcMNku1qbj4zeo1_500

{Transformação}

Roy conversa o chefe para informá-lo que daquele dia em diante, passaria a se vestir como mulher. O chefe lentamente entende que Roy está falando a verdade e apesar de incompreender a situação, decide mantê-lo no cargo. O chefe vai até a casa de Irma para perguntar se aquilo está realmente acontecendo. Após uma conversa familiar, os dois trocam olhares e surpreendentemente, se beijam. Logo se separam e brincam: “Não daria certo” – o que não é verdade já que os dois passam a ter um caso. Brilhantemente, o filme explora não só a sexualidade de Roy, mas também a sexualidade de Irma. Depois de assumir-se transexual, Roy deixa claro para a mulher que o sexo é uma necessidade natural do ser humano, portanto, ela tem o direito de transar com outros homens (já que ele vai realizar a cirurgia).

Roy passa a tomar hormônios, fica mais sensível, os seios crescem, assim como os cabelos. Nesse meio tempo Irma entra na menopausa e os dois enfrentam juntos, as mudanças corporais. Em uma cena divertida e ao mesmo tempo bela, Roy ouve som no carro e tenta cantar com voz de mulher. No dia seguinte, quando chega de brincos no serviço, um de seus colegas o obriga a tirá-los. Entre socos e pontapés, Roy impõe-se e mostra que a partir daquele momento, teria que ser tratado com respeito.

{Aceitação}

O filme, na verdade, não explora o que aconteceu com Roy antes da “revelação”. Há poucos lampejos e referências a uma infância em que ele, ainda menino, pegava as roupas da mãe para se transvestir. O enfrentamento com o pai, em uma festa de família tornou-se o ponto alto da representação de seu sofrimento. Durante os parabéns, o patriarca da família relembra o quanto Roy era diferente dos outros. Humilha-o diante dos irmãos, da filha e da mulher. Roy esquiva-se da sala. Tempos depois, Irma o encontra no celeiro, com uma espingarda apontada para o pescoço.  Diante do êxtase emocional percebe que não conseguiria perder o marido, não conseguiria vê-lo morrer.

Irma Jessica Lange

Após a possibilidade da perda, Irma permite a volta do marido a casa e passa a conviver pacificamente com a mudança.  Em uma cena belíssima, Irma opina sobre as escolhas de roupa do Roy. Ele, já vestido de mulher, agradece o apoio. E ela responde: “Você faria o mesmo”. Os diálogos são uma lição de amor e cumplicidade, de que o amor (o verdadeiro) vence as dificuldades do dia-dia.

Pouco tempo depois Roy e a família vão à missa. Os integrantes passam a encará-lo e ele, respeitosamente se ausenta da Igreja. Com certeza, esse é um dos pontos positivos do filme: a diretora trata com compreensão a incompreensão das pessoas diante a transexualidade. Sem julgamentos, AndersonRoy Tom Wilkinson mostra que nem todo mundo entende o que acontece com um transexual e que esse é um processo dificílimo. De alguma forma, a cena da igreja me fez lembrar uma conhecida que dizia que se estivesse com a filha na rua e visse dois homens (ou duas mulheres) se beijando, chamaria a polícia. Levei essa discussão para a aula de Política e um dos meus colegas disse uma coisa interessante: “às vezes o pré-conceito está intrínseco, a pessoa não percebe quanta maldade um ato desses representa. Em um país sério, se ela chamasse a polícia seria ela que iria presa”.

 Por último, há outra cena que me deixou emocionadíssima. A família recebe o filho mais velho. Quando ele encontra o pai (sua referencia de masculinidade) vestido de mulher, começa a julgá-lo. Os dois se esmurram pela casa até que o pai consegue convencê-lo de que o respeito mútuo é indispensável. Os dois, em lágrimas, abraçam-se na escada sala. Quando as coisas voltam ao Normal, Irma e Roy fazem sexo como homem e mulher, pela última vez.

Bloco do Eu Sozinha

Nova Lima - Estrada

Sempre gostei muito de carnaval. Trabalhar nesse feriado só reforçou a idéia do quanto eu gosto de ouvir a banda e ver os blocos de rua. Ficar presa numa redação foi a pior das torturas. Eu entrava na sala, ligava a TV para assistir o compacto das escolas de samba e enquanto isso recebia vídeos das TVs do interior que traziam as atualizações das festas na cidade. Nesse meio tempo, acompanhei os inúmeros acidentes que aconteceram pelas estradas mineiras e li algumas coisas sobre a renúncia do Papa Bento XVI.

Ainda bem que meu carnaval não passou em branco. No domingo pude aproveitar o melhor do Bloco dos Sujos e os desfiles das tradicionais escolas da minha cidade, Nova Lima. Segui a banda o quanto pude. Na verdade fiquei incomodada com uma coisa: as pessoas que acompanhavam (principalmente os mais jovens, é claro), não sabiam cantar as marchinhas. Era palavrão pra cá, ‘canoa virar pra lá” e só. Uma pena, afinal as letras são tão bonitas e o legal é cantar junto. Além das figurinhas repetidas e dos moços de cabelo pintado de amarelo, senti uma nostalgia incrível quando vi uma menina vestida de mulher gato. Era uma fantasia que eu usei inúmeras vezes (e eu amava!). E a minha mãe, sem duvidas, foi a minha melhor companheira nessas festas.

No centro eu vi famílias inteiras fantasiadas. Aliás, tive uma discussão acalorada com as colegas do serviço outro dia. Elas diziam que o carnaval só serve pra se fazer filho e “pegar doença”. Em contrapartida, eu batia o pé e dizia: o carnaval é um fenômeno fantástico. As pessoas saem à rua, dançam, se abraçam, se beijam. Elas se fantasiam e por poucos dias tem a liberdade de agir de uma maneira que não podem durante o resto do ano. No carnaval você vê pais de família, homens sérios, vestidos de bailarina. Você canta as músicas que seus pais e seus avos cantavam, saudando o país, o amor e a liberdade. É uma das festas mais bem humoradas que existem (e politicamente incorretas também).

sujos

Jony’s Mary!
Jony’s Mary!

E porque não, uma festa de lembranças também. No salão que eu costumo freqüentar, as meninas comentavam que o carnaval só ia até a meia noite de terça feira. Diziam que quem ficasse na rua depois disso, iria ver a Mula sem cabeça. E elas ficavam com medo, corriam para casa o quanto antes. Na quarta, falava-se baixo, não se varria a casa. Tudo em sinal de respeito. A quarta-feira de cinzas era um dia silencioso, carregado. Era um dia de penitências. Minha avó dizia que adorava ver o desfile das escolas de samba, mas a mãe dela sempre a impedia de ver a ala das mulheres, que eram ‘prostitutas (?). Se não tinha serpentina, jogavam papel higiênico mesmo.

E então, com a impossibilidade de pular o carnaval do jeito que eu gosto. Na terça-feira, último dia de festa, fui tirando fotos pelo caminho. Mudei o trajeto. Passei por ruas em que brinquei quando era pequena. Revi a minha antiga escola. Enquanto caminhava, percebi que em diversas casas ouviam-se marchinhas de carnaval. O clima de festa também estava dentro das casas. Passei pelo beco. Uma rua estreitinha, cheia de arames (que não sei por que, me remeteu a Auschwitz).

Nova Lima

Beco Nova Lima

Nova Lima

Passei pelo centro, vi o Bloco dos Sujos descer de relance. Deu vontade de acompanhar, mas segui o meu caminho. Vi (e fotografei) Jony’s Mary (um senhor que incrivelmente, só encontro no carnaval – Ele se tornou uma figura conhecida em Nova Lima porque além de fazer as próprias fantasias, sempre se destaca dançando pelas ruas). Do ônibus, tirei fotos da paisagem que vejo TODOS os dias antes de chegar a Belo Horizonte. A mata, o céu, tudo tão bonito.

Então, nessa terça feira de carnaval, andando pelas ruas, acabei criando, sem querer o meu bloco: o bloco do eu sozinha.

BH NOVA LIMA

dfffgfhg

Estrada Nova Lima

Luz

Conheci Samira em Agosto do ano passado. Estávamos na Praça da Estação e íamos participar da Marcha Nacional Contra a Mídia Machista. Samira tinha acabado de se unir ao grupo e me perguntou, um pouco envergonhada, se eu conhecia uma menina chamada Bárbara. Elas tinham marcado de se encontrar, mas a menina acabou não aparecendo.

- Marcha Nacional contra a Mídia Machista, agosto de 2012
– Marcha Nacional contra a Mídia Machista, agosto de 2012

Enquanto a Marcha não saía, conversamos sobre diversos assuntos. Samira me contou que há anos se interessava pelo feminismo e que essa era a sua primeira marcha. Disse que fazia psicologia e que tinha algumas ideias para intervenções. Lembro que me pediu o óculos escuro emprestado, ela estava sem lentes e olhos doíam na claridade. Seguimos até a Praça da Liberdade, entoando gritos feministas e dividindo olhares de cumplicidade. Não só eu e a Samira, todos que estavam participando da Marcha tinham os mesmos olhares, a mesma ideologia. Na despedida, trocamos e-mails, telefone e prometemos uma a outra, que não iríamos perder contato.

Passamos a nos encontrar frequentemente na faculdade, tínhamos diversos planos. Aos poucos, Samira foi se tornando uma amiga. Dividíamos segredos, trocávamos indicações de livros, íamos ao cinema, a museus. – Samira Luz, era assim que ela gostava de ser chamada. Se não me engano, foi em outubro que aconteceu a Noite Branca em Belo Horizonte. Ficamos até as quatro horas da manhã no Parque Municipal admirando as obras de arte, brincando no gramado e discutindo feminismo. Samira tinha queda por assuntos que envolviam “religião”. Além das teorias, sempre indicava um artigo ou livro sobre o papel das mulheres na história religiosa. Ela tinha uma fome de conhecimento insaciável. Dizia que acreditava em um Deus de amor e de justiça.

Em uma quarta-feira qualquer eu saí do serviço e fui encontrá-la  a noite. Eu, ela e uma outra amiga, a Anna Bella, tínhamos combinado de ir a um barzinho juntas. Não me recordo porque, mas a Anna não pode ir. Então, ficamos eu e Samira, tomando refrigerante e dividindo histórias. Lembro que ela me disse que desde pequena, sentia-se feminista. Era uma aluna aplicada, que sentava-se na primeira carteira e fazia redações sobre as condições das mulheres. Eu não sei se era apenas uma divagação, mas ela falava com muita certeza. Achei graça quando ela sugeriu que ficássemos, por uma semana, fazendo movimentos em Belo Horizonte. Ela queria montar barracas de orientações, apresentar peças e vídeos. No íntimo, eu pensava: “ não temos estrutura para isso”.

Não tínhamos mesmo. Mesmo assim, colocou a ideia no papel, dividiu no grupo do Facebook. Samira era assim. Ela não queria atingir poucas pessoas, ela queria atingir todo mundo, entende? Acho que esse é um frescor da juventude, essa inocência de achar que pode mudar as coisas. Participamos de outras marchas juntas. Na última, Samira observava algumas pessoas, me chamava no canto e dizia: “olha só que semblante sério” ou então “olha que pessoa ensopada”. Ensopada ou carregada de sentimentos.

Vivíamos conversando pelo Facebook ou por telefone. Um dia ela me ligou e contou sobre uma convenção que acontecerá em Julho para discutir a participação das mulheres na religião. A conversa ia muito além da pergunta que eu sempre fazia: “Porque uma mulher não pode comandar uma missa?”. Samira sempre me dizia que essa discussão é mais profunda e que envolve aspectos antropológicos e éticos. Ela estava muito feliz. Foi convidada a ser uma das representantes do movimento aqui em BH e eu lembro que disse que iria em cada reunião para apoiá-la. Aliás, Samira sempre me apoiou muito, tanto nas discussões como nas brincadeiras. De fato… éramos cumplices.

Combinamos de ir a uma boate. Iríamos na sexta-feira. Mas a alguns minutos antes de encontrá-la, Samira me ligou, com uma voz desanimada, dizendo que não poderia sair mais. Não entrou em detalhes, mas disse exatamente essas palavras: “A carga está pesada”. Eu não quis insistir muito, combinamos de sair na semana seguinte. Minutos depois ela me ligou novamente, perguntando se eu estava chateada. Eu disse que não estava. Ela reforçou o convite: “Vamos sair na próxima semana e qualquer coisa, você e a Anna dormem aqui em casa”.

Três ou quatro dias depois, Anna Bella me liga perguntando: “O que aconteceu com a Samira?” Eu não fazia ideia. Entrei no seu perfil no Facebook e me deparei com inúmeras mensagens de despedidas. Samira faleceu.

– Já se passaram duas semanas e a ficha ainda não caiu. Não sei como, nem porque mas Samira morreu aos 20 anos. Foi por isso que resolvi escrever esse texto, para lembrá-la (ou melhor), não deixar que a esqueçam (apesar de acreditar que isso é impossível). Samira fez muitos amigos e passou muita energia positiva. Eu não a via sempre, não conversávamos todos os dias, mas estávamos presente uma na vida da outra.

Quando acontece uma coisa assim, parece que tomamos consciência da nossa fragilidade. É como se o destino viesse te dar um soco, dizendo: “Olha só, aproveita porque não será pra sempre”.  Aí dá um aperto no coração e você pensa: poderia ser comigo. E se fosse comigo? Como a minha mãe ficaria? Como a mãe de Samira está? Aí comentei com a minha mãe da frase que ouvi em AHS:

Um dos vários confortos em se ter filhos é saber que a sua juventude não se foi, mas foi meramente passada para uma nova geração. Dizem que quando um pai morre, a criança sente sua própria mortalidade… mas quando uma criança morre, é a imortalidade que um pai perde.