Monstros

FREAKS

Na última sexta-feira tive a felicidade de assistir no Cine Humberto Mauro “Os Monstros”, dirigido por Tod Browning em 1932. Nutria uma curiosidade antiga pelo filme que conta a história de um circo em que as atrações principais são aberrações (daí o nome “Freaks”). Hans (interpretado por Harry Earles) é um anão que se apaixona pela trapezista mais bela do circo: Cleópatra. O anão tenta agradá-la de todas as maneiras, comprando presentes caros e se submete a terríveis humilhações. Cleópatra, por outro lado, é uma mulher gananciosa que só aceita se casar com Hans porque descobre que ele é herdeiro de uma grande fortuna. Mas assim como Hans, as outras aberrações do circo são honestos e leais. Percebendo as maldades de Cleópatra, se juntam e tramam uma vingança.

O filme ficou esquecido por muitos anos e foi censurado até a década de 60. Enquanto esteve em cartaz, causou repulsa e indignação dos espectadores e deu um prejuízo de 164 mil dólares a MGM. Mulheres grávidas foram proibidas de assisti-lo porque acreditavam que o filme poderia causar abortos. Algumas pessoas sofreram infarto durante a exibição, outras fizeram protestos para que parasse de ser transmitido. Todo esse rebuliço é muito curioso quando se pensa que as aberrações eram pessoas com alguma deficiência ou deformação física. A imagem de pessoas sem braços, sem pernas ou com algum problema de fala, não correspondia a estética americana e estavam muito distante do que hoje entendemos como politicamente correto. Aliás, o politicamente correto não existia

freaks

Os atores com deficiência, ou “as aberrações” também chocavam a equipe de produção e o elenco “normal”, que se sentiam incomodados por terem que atuar com pessoas que chamavam de retardadas. Não há muitas informações sobre os bastidores, mas o que se sabe e que Tod Browning enfrentou inúmeras dificuldades para sustentar as produções e manter a equipe em harmonia. O que se compreende hoje é que o filme foi de tamanha inovação e coragem inclusive porque o próprio cinema falado estava engatinhando

Os críticos classificaram o filme como uma produção sensacionalista e de mau gosto. Curiosamente, Browning trabalhou em um circo durante a sua juventude e presenciava diariamente as humilhações que os verdadeiros “freaks” sofriam. A grande ironia é na concepção de Browning,os monstros eram Cleópatra e seu amante Hércules, pessoas detestáveis e de caráter duvidoso. Depois que Cleópatra casa com Hans, ela se une ao amante para pensar em uma forma de matar o marido. O filme propõe uma reflexão de contraponto entre a moral e estética, aspectos fundamentais da sociedade pós-moderna.

freakskTomo a liberdade de reproduzir aqui uma parte do texto de Bernard Herzogenrath escrito no livro ‘1001 filmes para ver antes de morrer’ da editora Sextante: ‘Desde sua concepção original como um filme de terror que superasse todas as expectativas, algo mais perturbador do que qualquer coisa jamais vista (quando Dwain Esper o explorou sob titulos vagos e enganosos, como Amor proibido, Show de monstros e Erros da natureza), até seu renascimento como filme de vanguarda na tradição de Luis Buñuel e Alain Robbe-Grillet, Monstros, de Tod Browning, englobou os gêneros terror, filme de arte e documentário – este último, por conta de seu realismo, a partir do uso de ‘aberrações reais’. Não obstant, apesar da originalidade em termos de concepção e estética – e da surpreendente capacidade de ao mesmo tempo comover e chocar plateias – Monstros continua sendo, até hoje, uma obra subestimada. (…) Uma mera sinopse não pode fazer justiça a este filme assustador porém profundo, o qual é preciso de fato ver para ‘crer’. Uma suprema bizarra (aberração?) do cinema mundial, considerada por muitos o mais extraordinário filme da carreira de um diretor cuja filmografia inclui a versão original de Drácula (1931)”

One thought on “Monstros

  1. jc diz:

    É um filme admirável. E ainda hoje inovador no tema e estética. Ainda hoje é quase impensável no cinema americano usar pessoas “diferentes” como actores. Aliás, além desse filme, a única vez que vi uma na tv pessoa com microcelafia (o que os norte-americanos chamam pinhead) foi recentemente no American Horror Story, de que sei que também és fã.

    Abraço.

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