Niobe

Me lembro exatamente do dia em que minha avó precisou passar por uma séria cirurgia cardíaca. Ela não estava se sentindo bem e a encontramos no quarto, com feições estranhas. Lembro de três homens entrando no seu quarto (acho que eram vizinhos).Cada um pegou uma perna, um deles segurava o tronco do corpo. Se eu fechasse os meus olhos agora, conseguiria me lembrar daquele dia, sem nenhum esforço. Minha avó estava assustada, com os olhos arregalados. Havia um traço de vômito do lado esquerdo da boca. Ela vestia um pijama amarelo, que parecia de algodão. Eles a carregaram e tiveram muita dificuldade de passá-la pela porta. A casa estava cheia, na hora do susto, cada um chamou alguém que acreditava que poderia ajudar. Como sempre, minha mãe tomou a iniciativa e entrou no carro para levá-la ao hospital. O carro, na verdade, era do vizinho. Foi ele, que também mais uma vez, nos deu carona. Aliás, nunca tivemos um carro. Minha mãe tem um dificuldade visual que a deixa temerosa de dirigir. Minhas outras tias também não tiveram a iniciativa. Ironicamente, fui eu a primeira a tirar carteira.

Não sei exatamente o que aconteceu em seguida. Depois daquele momento, minha avó passou por uma cirurgia cardíaca e o médico disse que ela viveria por mais dez anos. Quando ela voltou para casa, não conseguíamos dormir direito. Ela estava completamente confusa e durante a madrugada dizia que “queria ir para casa”. Minha mãe dormiu no sofá da sala durante semanas (ou meses). Estava ali de prontidão para o que minha avó precisasse. Recordo de vê-la muito magra, sentada em um sofá (que nem existe mais) tomando água numa garrafinha de Sprite. No final do ano, lembro de vê-la chorar a transmissão da “virada” pela TV. Sempre passávamos o “Ano Novo” na rua, comemorando com os vizinhos, dessa vez ninguém queria sair de casa.

Nessa época, quando não sabíamos direito se teríamos a minha avó por mais tempo, eu vivia chorando. Sempre fui muito chorona (e minha mãe dizia: “a gente só chora quando cai ou quando alguém morre”). Então eu chorava escondido, com medo de perdê-la. Um dia entrei no quarto dela, sentei-me para rezar em voz alta e a minha prima mais velha, não sei como, entrou debaixo da cama e ficou me observando. Quando saí ela ria e me dizia que eu era idiota. Senti uma vergonha extrema de não ser forte como ela, ou como os meus outros primos. Mesmo assim, depois daquela época difícil, aprendi a rezar antes de dormir. Desde então, em todas as noites da minha vida, agradeço a Deus por ter me dado uma avó maravilhosa, peço para que a proteja e lhe dê mais tempo de vida.

Minha avó nunca foi de muitos carinhos. Um dia desses, não sei como nem porque, começamos a discutir na cozinha. Como resposta ela me disse: “Então vá procurar a sua outra avó!”. Foi a única vez que ela disse aquilo e eu não consegui esquecer. Não guardei aquele comentário como algo “maldoso”, mas como “lembre-se disso quando”. Enquanto a minha avó paterna nunca se preocupou comigo, ou em saber quem eu sou, minha “Vó” me acolheu em sua casa, me levou na escola, arrumou meu cabelo, fez meu almoço, lavou minhas roupas e foi a minha segunda mãe.

Por quê estou escrevendo isso tudo?

Já se passaram treze anos da primeira cirurgia cardíaca dela. Depois disso, minha avó passou por outras intervenções médicas e as coisas mudaram. Já não tenho mais nove anos e ela já não tem mais sessenta e seis. Está mais velha, mais fraca (e igualmente lúcida). Acontece que ontem, eu estava deitada no meu quarto, assistindo um filme qualquer, quando de repente, minha tia me chama e pede por ajuda. Quando fomos ver, o nariz da minha avó não parava de sangrar. Era tanto sangue que ela conseguiu sujar duas toalhas. Eu pulei da cama, não sei onde foi para o controle ou o travesseiro. Quando cheguei no banheiro e vi todo aquele sangue, tive vontade de chorar.

Minha avó se sentou no sofá da sala. Eu a vi com os olhos arregalados, tremendo (de susto) e aquela sensação que eu tive, aos nove anos, voltou. Surpreendentemente, é como se eu tivesse voltado no tempo e estivesse totalmente encurralada.O sangue não parava de sair. Ligamos para minha mãe e ela, também assustada do lado de lá, dizia para colocar uma bolsa de gelo e esperar um pouco. Minha tia a acompanhou até o hospital. Eu fiquei em casa, limpando os traços de sangue. O cheiro era tão vivo, tão forte, que contribuía para aumentar aquela horrível sensação. Minha mãe saiu do trabalho e foi encontrá-la no Hospital. Tudo ocorreu bem, os médicos disseram que minha avó estava com a pressão muito alta e provavelmente um vaso rompeu. Eles ainda disseram que tínhamos que agradecer a Deus, porque não foi uma hemorragia interna.

E quando ela voltou para casa foi tão bom. Tivemos uma sensação tão maravilhosa de tê-la aqui. E ela voltou sorridente, fazendo as mesmas brincadeiras, como se nada tivesse acontecido, entende? Eu fui até o seu quarto para perguntar como ela estava. E ela segurou a minha mão e pela primeira vez, pensei na sua fragilidade. Nessa inversão de posições, ela que sempre me protegeu, que sempre me pareceu tão forte, agora tão … Eu não consigo achar uma palavra para definir.E toda vez que eu a vejo, toda vez que vejo o esforço da minha mãe para estar ao seu lado, para arrumar todos os seus medicamentos e os melhores hospitais aqui da região. Só consigo pensar no quanto a amo, no quanto nos a amamos. E NO QUANTO É BOM TÊ-LA EM CASA!

 

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2 thoughts on “Niobe

  1. Ana Karine diz:

    Thaís, Não conheço sua avó, mas gostaria. Ver sua mãe falar dela é muito gostoso. Contar das serenata na madrugada no dia do aniversário, das lamparinas e principalmente do amor por vocês.
    Um abraço

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