Sinédoque, Nova York

synecdoche new yorkOntem de madrugada me peguei chorando por um filme sem pé nem cabeça. Hoje de manhã fiz a mesmíssima coisa. Como disse num post anterior, desde que vi “A Estranha vida de Timothy Green” senti uma vontade incontrolável de assistir os filmes da Dianne Wiest. “Sinédoque, Nova York” entrou na lista. Já tinha visto ao trailer e já li inúmeras críticas. Porém o filme foi uma surpresa boa, boa até demais. Me atrevo a dizer que é um dos melhores filmes que eu já vi na vida. Pensei muito sobre o que escreveria sobre ele. Não há uma receita pronta, uma sinopse simples e fechada. Não há uma interpretação exata, uma formula. No grupo de cinema que participo, disseram que Charlie Kaufman fez um filme que te dá sensações diferentes a cada vez que for revisto. Se você o assistir daqui há dois anos, terá uma ideia diferente da mensagem final.

Kaufman é conhecido pelos seus roteiros absurdos e viajados como “Adaptação” e “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”. Mas esse é o primeiro em que trabalha como diretor. Não fica atrás dos outros. Existe uma polêmica muito grande sobre o longa: no mesmo ano, por exemplo, ganhou o prêmio de melhor e de pior filme. Alguns dizem que é inexpressivo, exagerado. Outros (dos quais eu faço parte), dizem que é uma obra prima. Acontece que o filme tem um forte tom fatalista e Kaufman não economiza nas metáforas (tanto dramáticas, quanto plásticas e ideológicas). Além disso, o roteiro não é linear (na trama se passam quarenta anos e você quase não percebe).  Esse “no-continuum” deixou muitos espectadores perdidos por aí. Eu fui um deles. Me perdi e me encontrei diversas vezes enquanto assistia.

Quero muito falar sobre as impressões que tive sobre o filme, mas antes de tudo, tenho que admitir uma gafe. Quando vi o título, pensei que Sinédoque se referia a uma cidade ou a um estado. Após uma rápida pesquisa, descobri que sinédoque (ou synecdoche, em inglês) é uma figura de linguagem muito parecida com a metonímia. É quando a parte refere-se ao todo. Um exemplo seria: “eu não tenho um teto para dormir”, o teto refere-se à casa. Talvez a sinédoque do filme trata-se justamente da peça de teatro que o personagem principal passa a vida tentando concluir. Talvez a palavra nos impulsione a refletir que aquele mundo ficcional criado pelo personagem é a sinédoque de NY, ou do mundo, ou da vida. Pode ser isso. Pode não ser nada disso.

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Sinédoque, Nova York conta a história de Caden (Philip Seymour Hoffman ) um dramaturgo hipocondríaco casado com a pintora Adele(Catherine Keener) com quem tem uma filha de quatro anos, Olive. Desde o inicio da trama temos indícios de que o casamento não vai bem. Adele aparenta um aspecto cansado e desinteressado diante aos problemas do marido. O cenário (uma casa pequena e escura), ajuda a acentuar o clima de desconforto dos personagens. No dia da estreia da peça de Caden, Adele diz que precisa ficar em casa para terminar suas pinturas. Quando ele chega em casa, entusiasmado com o sucesso de crítica, encontra a mulher e a amiga, Maria, em pleno êxtase após usarem drogas. Os dois visitam uma terapeuta e em uma de suas confissões, Adele afirma que queria que o marido morresse, para que assim pudesse recomeçar a vida,sem se sentir culpada.

Caden é uma figura simpática e é muito claro a sua predisposição em tentar compreender a esposa. No entanto, Adele, totalmente angustiada, decide viajar por uma semana para a Alemanha, levando junto a amiga Maria e a pequena Olive. Inicia-se na trama uma narrativa desconexa. As doenças de Caden começam a sobressair em sua pele, o tempo parece não ser mais o mesmo. Em um dos ensaios da peça, Caden recebe uma “cantada” de Hazel (Samantha Morton), a garota da bilheteria. Apesar das investidas, Caden afirma que é um homem casado e que sua mulher está há uma semana na Alemanha. Ela por sua vez, responde: “preciso lhe comprar um calendário já que ela está na Alemanha há um ano”.

synecdoche_new_york12Caden tenta inúmeras vezes falar com a mulher. Em uma dessas, por telefone, Adele o chama de “Ellen” e por fim, afirma que ficou famosa. Ele então recebe uma inesperada notícia: ganhou um grande prêmio que irá financiar sua próxima obra, não importa o quanto for gasto. Caden encontra um enorme galpão, onde reproduz Nova York e contrata milhares de atores para encenar a peça. Como ele mesmo diz, a peça será sobre morte, sobre a vida, sobre os encontros e sobre os sentimentos. Quanto mais vai produzindo, mais vai sendo imergido por uma tristeza inigualável.

Com um impecável trabalho metalinguístico, Caden contrata atores para encenar figuras do seu cotidiano. Atrás de uma perfeição inatingível, o dramaturgo perde anos de sua vida, tentando montar uma peça que provavelmente não será encenada. Para cada personagem, ele escreve todos os dias, um bilhetinho, onde determina o que deve ser feito. Essa precisão detalhada, confunde-se com seu cotidiano perturbado e infeliz. Ele anda, anda, mas não consegue sair do lugar. Nesse meio tempo, Caden casa-se com Claire (Michelle Williams), uma das atrizes da peça. Desolada, Hazel (a garota da bilheteria) decide abandonar o projeto e se casar com outro homem. O tempo passa, Caden tem outra filha, mas não consegue deixar de se perturbar sobre o paradeiro de Olive.

Caden aguarda o atendimento médico no hospital e folheando umasynecdoche revista, vê uma foto da filha Olive (agora com onze anos) com os braços e grande parte do corpo tatuado de enormes flores vermelhas. Desolado, Caden vai à Alemanha para entender o que está acontecendo com a filha e consegue descobrir qual é o apartamento da ex-mulher.  Ele bate na porta, mas ninguém o atende, até que uma senhora (já muito velhinha) pergunta se ele se chama Helen. Caden responde que sim. A mulher então lhe entrega a chave e diz que Adele pediu que ele (ou ela?) fizesse toda a limpeza.  Caden passa a frequentar a casa e sempre encontra as mesmas condições: o chuveiro ligado, lençóis desarrumados e um vaso sanitário para limpar. Ele também encontra cartas de Adele direcionadas a Helen, onde ela vai lhe contando sobre a vida.

Ao mesmo tempo, o dramaturgo tenta continuar com o seu trabalho e todos os dias vai ao galpão para organizar os ensaios. Desolada, sua atual mulher: Lucy resolve abandoná-lo e passa a namorar com outro homem (um ator que conheceu quando decidiu largar a peça do marido). Ironicamente, Hazel (a garota da bilheteria) que também se casou, teve filhos e se distanciou de Caden, pede para voltar a trabalhar com ele, já que está desempregada. Nesse meio tempo, Caden encontra Olive, sua filha. Olive está morrendo, as tatuagens (feitas por Maria) provocaram sérias infecções em seu corpo. Em uma cena dramática, Olive pede que Caden lhe peça desculpas por tê-la abandonado. Ele diz que nunca a abandonou, quando na verdade, sua mãe, fugiu com Maria para a Alemanha. Ainda assim, Olive insiste que Caden repita a frase: “Me desculpe por abandonar você para manter uma relação homossexual com Eric”. Olive morre e não perdoa o pai.

Hazel passa a atuar como a secretária de Caden. Ela o ajuda a contratar um ator para interpretá-lo e dentre outros personagens, também o ajuda a encontrar uma atriz para interpretar Helen (a mulher da limpeza). Mas o tempo está visivelmente passando para o produtor e para os atores. Mesmo assim, Caden não sabe o que fazer com a peça. Muitos atores morrem, outros abandonam o espetáculo. A própria Hazel acaba falecendo pouco tempo depois, intoxicada pela fumaça da casa onde morava. Caden está definhando, já está velho, cansado, sem cabelos e sem saúde. A atriz que interpreta Helen então sugere: vemos trocar de lugar: eu interpreto Caden e vou dirigindo você, enquanto você interpreta Helen.

Metáforas:

Todo o filme, como disse anteriormente é muito subjetivo. As metáforas, portanto, estão sujeitas a diversas interpretações e pontos de vista. A mais interessante delas é a casa que pega fogo. Ao que tudo indica, Kaufman queria evidenciar que sempre sofremos as consequências dos nossos atos, todas as nossas escolhas condicionam o nosso futuro. Quando Hazel decide morar em uma casa que pega fogo ela sabe que pode morrer intoxicada (e é justamente o que acontece). A metáfora também pode estar ligada ao discurso do padre:” Há um milhão de pequenos textos… anexados a cada escolha que você faz. Você pode destruir sua vida, cada vez que você escolher”

Outro belo momento acontece quando Caden vê a caixa que deu de presente para Olive no lixo e como não consegue lacrimejar, usa um colírio para tentar ilustrar sua dor. Kaufman ironiza a artificialidade do cotidiano, a banalidade com que tratamos nossas dores e decepções mais profundas. Aliás, me lembrei de outra cena interessante: Quando Caden visita Olive (que está morrendo no hospital) ela o obriga a dizer que a abandonou para viver um caso homossexual com um homem chamado ‘Erick’. No final do filme, vemos a empregada Ellen com o marido e dizer que ‘Erick’ a odeia.

Frases Marcantes:

 – Mas enquanto está vivo, você espera em vão, desperdiçando anos por um telefonema ou uma carta ou um olhar de alguém ou alguma coisa para fazer tudo certo. E isso nunca vem… ou parece vir mas não vem realmente. Então você passa seu tempo em vago arrependimento… ou vaga esperança que alguma coisa boa virá adiante. Algo para fazer você se sentir conectado. Algo para fazer você se sentir inteiro. Algo para fazer você se sentir amado. E a verdade é… eu sinto tanta raiva! E a verdade é… eu sinto tanta porra de tristeza! E a verdade é… eu tenho me sentido tão magoado por muito tempo. E por muito tempo eu venho fingindo que estou bem apenas para seguir adiante, apenas para… Eu não sei por quê. Talvez porquê ninguém queira ouvir sobre meu sofrimento… porquê eles tenham os seus próprios. Foda-se todo mundo. Amém.”

– “O que esteve antes com você, um excitante e misterioso futuro está agora atrás de você. Vivido, entendido, decepcionante. Você percebeu que não era especial. Você tem lutado em sua existência e agora está deslizando silenciosamente para fora dela. Esta é a experiência de cada um. De cada um. Os detalhes dificilmente importam. Cada um é cada um. Assim, você é Adele, Olive, Hazel, Claire. Você é Ellen. Toda a miserável tristeza dela é sua. Toda a solidão dela. O cabelo cinza, como palha. As mãos dela, feridas e vermelhas. São suas. É tempo de você entender isso. (Ande). Como as pessoas que adoram você e param de lhe adorar. Como se morressem, como se seguissem em frente… Como se você as tirasse, como você tirou sua beleza, sua juventude. Como se o mundo esquecesse de você, como você identificasse sua transitoriedade. Como se você começasse a perder suas características, uma por uma. Como se aprendesse que não há ninguém olhando você, e nunca houve. Você pensa apenas em dirigir, não vindo de algum lugar, não chegando em algum lugar: apenas dirigir. Contando o tempo. Agora você está aqui. São 7:43. Agora você está aqui. São 7:44. Agora você está… chegando. ‘

-“Talvez um novo titulo.’Doenças infecciosas em bovinos’. O título significa muitas coisas.Você verá,significa muito.” / A Obscura Lua, Iluminando um Obscuro Mundo”

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