Leve-me para sair

“Leve-me para sair”, curta dirigido por José Agripino e que tem uma temática super importante sobre homossexualidade, preconceito e dramas pessoais. Foi realizado em São Paulo com jovens entre 16 e 18 anos.  O filme ganhou prêmios importantes no cenário nacional, entre eles o 4º Close – Festival Nacional de Cinema da Diversidade Sexual ; E  Melhor Curta Nacional – 20º Mix Brasil.

Minha doce Geisha

 Doce geisha

Eu nunca fui fã de comédias românticas, mas esse filme em especial me agradou muito. Resolvi escrever sobre ele porque encontrei críticas bem negativas que o classificavam como uma comédia intencionalmente boba e inverossímil. De fato, o roteiro é extremamente leve e descompromissado, mas há aspectos igualmente importantes que devem ser levados em conta. “Minha doce Geisha” é um filme de 1962 dirigido por Jack Cardiff e roteirizado por Norman Krasna. O filme traz a belíssima Shirley MacLaine no papel de Lucy Dell, uma atriz hollywoodiana casada com um diretor europeu Paul Robaix (interpretado pelo excelente Yves Montand, que dentre outros sucessos, traz no currículo “Adorável Pecadora”).

Lucy e Paul fizeram grandes sucessos juntos, mas dessa vez Paul resolveu ir sozinho ao Japão para realizar uma versão de Madame Butterfly para o cinema. Lucy tenta convencê-lo de que pode interpretar o papel, mas Paul insiste que aqueles cabelos ruivos e olhos azuis definitivamente não serviriam para uma geisha.  Sem deixar o marido desconfiar, Lucy vai para o Japão e se submete a uma transformação para conseguir o papel. Aprende a falar e a se portar como uma geisha, coloca lentes pretas nos olhos e usa peruca. O grande problema é que Paul se apaixona pela geisha, deixando Lucy numa situação complicada.

O filme caiu no “popularesco” e agradou ao público. Uma das coisas que eu gosto é o trabalho visual e o cuidado que Cardiff teve nas primeiras cenas em que Shirley Maclaine aparece como geisha. Inicialmente ela sempre está ofuscada por uma sombra (quando não é o seu rosto são seus olhos), esse artifício propõe uma dupla interpretação. A sombra ofusca Lucy do marido, mas também do espectador que vai conhecendo a geisha aos poucos.  A sombra também está presente no momento em que Paul invade o quarto da geisha e implora por um beijo.

Minha doce geishaa

O falso sotaque da Shirley poderia parecer pedante, como aquela cena em que ela diz que nunca beijou um homem. Porém MacLaine é extremamente cativante e você se diverte imensamente com ela.  É muito claro que todo aquele disfarce é difícil de não ser notado, mas Yves Montand te convence que o marido não sabe de nada. É, como eu disse anteriormente, uma comédia descompromissada, divertida… vale muito a pena!

Shirley Maclaine, minha doce geisha

SPOILER:  Não há como não se apaixonar pelo fim do filme, quando descobre-se que Paul sabia o segredo de Lucy, que ela era sua doce geisha.  

“Don’t be sympathy to anybody but me, my geisha”

Abril Despedaçado

Abril-Despedaçado

Abril Despedaçado, filme dirigido por Walter Sales (importante diretor que traz no currículo filmes como Central do Brasil e Terra Estrangeira) é antes de tudo, uma obra que fortalece a identidade do cinema brasileiro e evidencia uma linguagem característica e bastante enraizada da nossa cultura: a do nordeste. Por isso é também importante dar a devida atenção ao roteiro de Karim Aïnouz (cineasta brasileiro que trabalhou em grandes obras como O céu de Sueli e Viajo porque preciso, volto porque te amo).

A partir de um cenário árido e cheio de simbolismo, acompanhamos a trajetória de Tonho (Rodrigo Santoro) que é atormentado por um questionamento: vingar ou não a morte do seu irmão mais velho, assassinado pela família rival. A luta teve início em décadas anteriores, quando o avô de Tonho, resolveu reivindicar os direitos pela terra que lhe foram tomadas pela família Ferreira. Desde então há um enfrentamento de várias gerações que por uma questão de honra, alimentam um ciclo de vingança e violência.

abril

Abril

A narrativa, baseada no romance do albanês Ismail kadaré, é ambientada no sertão nordestino de 1910 e consegue de forma sensível (e muito bela), tratar de temas cruéis que envolvem não só os valores humanos, mas também as relações sócias: uma delas, muito presente no filme: o patriarcado.  A figura masculina na obra possui um papel fundamental e está representada na ideia de força e seriedade que se concentra no pai. É ele o responsável pela continuidade das atividades produtivas que sustentam a família e é justamente ele, que alimenta (quase que de forma obrigatória) a vingança dos Breves.

abril-despedacado3A presença da morte na vida dos personagens é acentuada pela estagnação. Muito bem metaforizada na figura dos bois que ficam rondando na mesma direção e de maneira automatizada, sem sair do lugar. A bolandeira é a própria vida no sertão, onde não acontece nada e os personagens vivem a repetição das mesmas atividades, dos mesmos valores, do mesmo desejo de vingança e não saem do lugar. Mas essa rotina é quebrada pelo “menino” (Ravi Ramos Lacerda), irmão mais novo de Tonho e que narra todos os acontecimentos da trama. Apesar de se encontrar imerso nesse mundo paralisado, “menino” demonstra esperança, jovialidade e alimenta um questionamento sobre a necessidade de vingança.

Seu questionamento fica ainda mais forte com a chegada de Clara e Salustiano, um casal que está de passagem pelo local e que de alguma forma, trazem mudanças para a vida do personagem. Essas mudanças podem ser dividas em três etapas, igualmente importantes: 1ª) Clara presenteia o “menino” com um livro e alimenta sua imaginação quanto ao mundo e quanto ao mar. 2ª) “Menino” recebe um nome de Salustiano: Pacu, o que auxilia na criação da identidade do personagem, 3ª) Clara se envolve com Tonho e abandona o parceiro. Coincidentemente (ou não!) é nesse momento que os bois começam a se movimentar sozinhos na bolandeira (de tão automatizados) e Tonho se dá conta que alguma coisa precisa mudar (e inconscientemente, essa também é uma decisão de Pacu).

Niobe

Me lembro exatamente do dia em que minha avó precisou passar por uma séria cirurgia cardíaca. Ela não estava se sentindo bem e a encontramos no quarto, com feições estranhas. Lembro de três homens entrando no seu quarto (acho que eram vizinhos).Cada um pegou uma perna, um deles segurava o tronco do corpo. Se eu fechasse os meus olhos agora, conseguiria me lembrar daquele dia, sem nenhum esforço. Minha avó estava assustada, com os olhos arregalados. Havia um traço de vômito do lado esquerdo da boca. Ela vestia um pijama amarelo, que parecia de algodão. Eles a carregaram e tiveram muita dificuldade de passá-la pela porta. A casa estava cheia, na hora do susto, cada um chamou alguém que acreditava que poderia ajudar. Como sempre, minha mãe tomou a iniciativa e entrou no carro para levá-la ao hospital. O carro, na verdade, era do vizinho. Foi ele, que também mais uma vez, nos deu carona. Aliás, nunca tivemos um carro. Minha mãe tem um dificuldade visual que a deixa temerosa de dirigir. Minhas outras tias também não tiveram a iniciativa. Ironicamente, fui eu a primeira a tirar carteira.

Não sei exatamente o que aconteceu em seguida. Depois daquele momento, minha avó passou por uma cirurgia cardíaca e o médico disse que ela viveria por mais dez anos. Quando ela voltou para casa, não conseguíamos dormir direito. Ela estava completamente confusa e durante a madrugada dizia que “queria ir para casa”. Minha mãe dormiu no sofá da sala durante semanas (ou meses). Estava ali de prontidão para o que minha avó precisasse. Recordo de vê-la muito magra, sentada em um sofá (que nem existe mais) tomando água numa garrafinha de Sprite. No final do ano, lembro de vê-la chorar a transmissão da “virada” pela TV. Sempre passávamos o “Ano Novo” na rua, comemorando com os vizinhos, dessa vez ninguém queria sair de casa.

Nessa época, quando não sabíamos direito se teríamos a minha avó por mais tempo, eu vivia chorando. Sempre fui muito chorona (e minha mãe dizia: “a gente só chora quando cai ou quando alguém morre”). Então eu chorava escondido, com medo de perdê-la. Um dia entrei no quarto dela, sentei-me para rezar em voz alta e a minha prima mais velha, não sei como, entrou debaixo da cama e ficou me observando. Quando saí ela ria e me dizia que eu era idiota. Senti uma vergonha extrema de não ser forte como ela, ou como os meus outros primos. Mesmo assim, depois daquela época difícil, aprendi a rezar antes de dormir. Desde então, em todas as noites da minha vida, agradeço a Deus por ter me dado uma avó maravilhosa, peço para que a proteja e lhe dê mais tempo de vida.

Minha avó nunca foi de muitos carinhos. Um dia desses, não sei como nem porque, começamos a discutir na cozinha. Como resposta ela me disse: “Então vá procurar a sua outra avó!”. Foi a única vez que ela disse aquilo e eu não consegui esquecer. Não guardei aquele comentário como algo “maldoso”, mas como “lembre-se disso quando”. Enquanto a minha avó paterna nunca se preocupou comigo, ou em saber quem eu sou, minha “Vó” me acolheu em sua casa, me levou na escola, arrumou meu cabelo, fez meu almoço, lavou minhas roupas e foi a minha segunda mãe.

Por quê estou escrevendo isso tudo?

Já se passaram treze anos da primeira cirurgia cardíaca dela. Depois disso, minha avó passou por outras intervenções médicas e as coisas mudaram. Já não tenho mais nove anos e ela já não tem mais sessenta e seis. Está mais velha, mais fraca (e igualmente lúcida). Acontece que ontem, eu estava deitada no meu quarto, assistindo um filme qualquer, quando de repente, minha tia me chama e pede por ajuda. Quando fomos ver, o nariz da minha avó não parava de sangrar. Era tanto sangue que ela conseguiu sujar duas toalhas. Eu pulei da cama, não sei onde foi para o controle ou o travesseiro. Quando cheguei no banheiro e vi todo aquele sangue, tive vontade de chorar.

Minha avó se sentou no sofá da sala. Eu a vi com os olhos arregalados, tremendo (de susto) e aquela sensação que eu tive, aos nove anos, voltou. Surpreendentemente, é como se eu tivesse voltado no tempo e estivesse totalmente encurralada.O sangue não parava de sair. Ligamos para minha mãe e ela, também assustada do lado de lá, dizia para colocar uma bolsa de gelo e esperar um pouco. Minha tia a acompanhou até o hospital. Eu fiquei em casa, limpando os traços de sangue. O cheiro era tão vivo, tão forte, que contribuía para aumentar aquela horrível sensação. Minha mãe saiu do trabalho e foi encontrá-la no Hospital. Tudo ocorreu bem, os médicos disseram que minha avó estava com a pressão muito alta e provavelmente um vaso rompeu. Eles ainda disseram que tínhamos que agradecer a Deus, porque não foi uma hemorragia interna.

E quando ela voltou para casa foi tão bom. Tivemos uma sensação tão maravilhosa de tê-la aqui. E ela voltou sorridente, fazendo as mesmas brincadeiras, como se nada tivesse acontecido, entende? Eu fui até o seu quarto para perguntar como ela estava. E ela segurou a minha mão e pela primeira vez, pensei na sua fragilidade. Nessa inversão de posições, ela que sempre me protegeu, que sempre me pareceu tão forte, agora tão … Eu não consigo achar uma palavra para definir.E toda vez que eu a vejo, toda vez que vejo o esforço da minha mãe para estar ao seu lado, para arrumar todos os seus medicamentos e os melhores hospitais aqui da região. Só consigo pensar no quanto a amo, no quanto nos a amamos. E NO QUANTO É BOM TÊ-LA EM CASA!

 

A Dama Enjaulada

Imagem

O que poderia acontecer quando os humanos se encontram enjaulados e os animais ficam soltos?

Há algumas semanas estou comentando no Twitter sobre esse filme. É que de repente tive uma vontade absurda de assistir de novo. Quem ainda relaciona a imagem da Olivia de Havilland à “boazinha de Hollywood”, sem dúvidas, deveria vê-la interpretando Mrs. Cornelia Hilyard.  “A Dama Enjaulada” é um filme inquietante e continua provocando angustia em muita gente. Não há dúvidas de que foi um estrondo na década de 60, que chocou os críticos e o público com diálogos carregados de sensualidade e violência. Para além da violência, o roteiro de Luther Davis traz também uma pitada de sadismo.

Havilland interpreta uma senhora que acidentalmente fica presa no elevador de casa. Sozinha (em um dia de muito calor), encontra-se totalmente desprotegida quando um bando de vagabundos invadem sua residência para roubá-la. A situação fica ainda pior quando os invasores começam a brincar e torturar a mulher que não tem para onde correr.  Há ainda um agravante, Cornélia recebe a notícia de que seu único filho foi em embora e ao que tudo indica, cometeu suicídio.

Provavelmente os produtores queriam fazer com que Havilland parecesse mais velha, mas o fato é que ela tinha apenas 48 anos quando atuou em “A Dama Enjaulada” e estava em ótima forma. Essa caracterização de envelhecimento (de bengala e roupas fechadas) é uma das justificativas para o uso do elevador em casa. Para acentuar essa necessidade, a personagem ainda explica que recentemente sofreu um acidente que dificultou sua locomoção.

Quando fica presa no elevador, em uma altura assustadora, Cornélia tenta desesperadamente conseguir ajuda. O barulho que provoca, acaba chamando atenção de um bêbado que curiosamente entra pela cozinha e não se mostra interessado em ajudá-la. É justamente ele que comete o primeiro crime: leva peças preciosas da casa para um avaliador. Nesse mesmo ambiente, há um grupo de três bandidos que resolvem seguir o bêbado para descobrir onde ele conseguiu todo aquele material.

Depois que os bandidos entram na casa, Mrs. Cornelia Hilyard. fica sujeita a todo tipo de terror psicológico. Os bandidos tentam fazer de tudo para conseguir encontrar um “possível” cofre, nem que para isso, tenham que brigar uns com os outros. Mas o bando possui um líder e ele é quem mais aterroriza a dona da casa. James Caan está sensacional como o “mandante” do bando. Nesse filme ele me lembra o Stanley de “Uma Rua Chamada Pecado”. Sempre rindo alto e exalando masculinidade, tem cenas riquíssimas acentuadas por um roteiro ousado.

A dama Enjaulada

Quando seu personagem se junta a Cornelia Hilyard há uma tensão sexual que Waltger Grauman sustenta muito bem, sem permitir que o filme seja absorvido pelo “mau gosto”. O contato sexual é um dos clímax da trama, onde o “animal” se une ao humano. Onde o humano precisa ser “animal” para só assim conseguir sobreviver.

O filme sugere inúmeras interpretações. Uma delas, de Giuliano Francesco é que há uma metáfora sobre a falência do capitalismo: “cujo sistema estrutural é literalmente invadido e “destruído” pelas classes menos favorecidas. Assim, a opulenta Mrs. Hillyard, enquanto assiste impotente à devastação de sua propriedade por um bando de arruaceiros, representa toda uma classe dominante, literalmente engaiolada e indefesa diante da revolta dos bárbaros historicamente subjugados.”

[Tenho que fazer uma observação: A abertura é sensacional. Logo no inicio as imagens e os créditos se misturam entre barras animadas que formam grades e nos remetem ao elevador em que a personagem principal se encontra presa. São imagens fortes que dão dicas aos espectadores do que os aguarda.]

Ficha Técnica:

Ano: 1964

Direção Walter Grauman

Roteiro: Luther Davis

Gênero: Drama, Terror