In Treatment: Paul e Gina

pAUL E GINA

Paul e Gina, 2ª Temporada: Na segunda temporada, o surgimento de Paul no escritório de Gina é tão inesperado quanto na primeira. Mas dessa vez, o enfoque da relação dos dois está ainda mais interessante. Paul surge pedindo que Gina aceite depor em seu favor. Um de seus pacientes cometeu suicídio e ele foi processado por negligência. Na verdade, o processo é um grande risco para Paul: caso seja julgado como culpado precisará pagar uma fortuna e ainda, perde a licença. Ele afirma diversas vezes que está cansado dos pacientes e que não quer continuar com o trabalho. Seus questionamentos são diretamente jogados sobre Gina, como se ele buscasse nela, a solução para os seus problemas. Os diálogos, como na primeira temporada, são carregados de um coloquialismo muito interessante que reforça a ideia de familiaridade entre os dois. Além disso, o clima fica ainda mais empolgante com o encontro de Paul com Tammy Kent. (Tammy foi uma antiga namorada de Paul e “coincidentemente” é paciente de Gina).

O livro de Gina foi um sucesso de crítica, mas Paul afirma que ainda não está preparado para lê-lo. O primeiro encontro dos dois é apenas amigável e mesmo assim, Paul volta a questiona-la sobre a psicologia. “Você não se cansa de escutar as pessoas?” Sua presença naquela sala, como diria momentos depois continua sendo um pedido de ajuda (ainda que repleto de arrogância). Paul revela que sua vida é um grande caos (está se separando da mulher, tem problemas com os pais e quer largar à carreira). Há uma extensa reflexão sobre a temporada anterior: Paul afirma que não entende como se deixou cegar de amor por uma paciente (Laura) e de alguma forma, se permitiu ultrapassar as barreira éticas da profissão (o que Gina ‘religiosamente’ chamava de essência).

A segunda temporada expõe discussões muito mais interessantes e é impossível não prender a atenção em cada episódio. Um conhecido meu, que inclusive indicou a série, disse uma coisa certíssima: os diálogos são à base da produção inteira e talvez, por isso, temos a impressão de ser um programa lento. Na verdade, In Treatment não é uma série pra qualquer um: as cenas são carregadas de diálogos e reflexões complexas sobre a vida, sobre a família, sobre a morte, etc…

Em um dos episódios, Paul está completamente desnorteado porque não sabe o que fazer com o pai doente. Suas lembranças o fazem recordar das diversas crises nervosas da mãe, que era bipolar. Enquanto Paul via sua mãe definhar emocionalmente, seu pai (que era médico) se encontrava com outras mulheres.  A dor reprimida pelo personagem quase transborda em seus diálogos. Ele se nega a visitar o pai, com medo de ser rejeitado novamente. Gina percebe claramente que Paul transfere esse medo para os filhos: ele teme não ser um bom pai.

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Paul: Eu sinto ódio dele.
Gina: O seu ódio nasceu para você se proteger da rejeição. Você não tinha escolha, ele era o único que tinha escolha dentro daquela casa.
 

O pai de Paul falece e todo o sentimento sobre o passado vem à tona. Com muita raiva, Paul se lembra de sua ausência e de seu descomprometimento com a família. Ele começa a se questionar se o amor que o pai tinha por ele era verdadeiro. Sabiamente, Gina o faz pensar sobre o outro lado da moeda. Um médico que não consegue curar a própria mulher percebe seu fracasso e acaba refugiando-se em outras coisas. “A morte deixa muitas perguntas sem respostas, ninguém nasceu pronto para ser pai”. Paul começa a destruir o muro sobre seus sentimentos, confessa que pediu perdão ao pai antes de vê-lo morrer. Gina então tem uma reflexão belíssima. Ela afirma: “Uma das coisas mais confusas em problemas emocionais em uma família é que pode parecer injusta e aleatória. Como um acidente em uma estrada. Todos estão no carro, mas você foi o único que atravessou o vidro”.

 Meu pai me amava, então ele fez o que pode?
-Não, seu pai te amava e ele fez o que fez… E você o amou e o odiou porque ele te ignorou. Não se pode racionalizar o amor.
 
ginapaul
 

Na segunda temporada há também um momento marcante. Apesar das inúmeras ofensas que escuta de Paul, Gina sempre se porta com elegância e paciência. Só há um momento em que ela não consegue se segurar e acaba discutindo com ele. Paul volta a repetir que Gina é uma mulher fria, que não se preocupa com os pacientes e que não dá a mínima para o que eles estão sentindo. Ele a acusa de ser uma psicoterapeuta ortodoxa que julga seus pacientes ao invés de ajudá-los. Gina não aguenta a pressão e finalmente diz o que realmente acha de Paul. Depois de chama-lo de idiota e de “pé-no-saco”, Gina revela que a terapia dele avançou muito pouco e que seu trabalho tem interferido no seu comportamento. Por fim, conclui que Paul quer que Gina faça o papel de pai (autoritária), que Gina o rejeite para que ele possa se sentir inocente e que ela diga quem ele é e o que fazer. “Você vem aqui toda semana e despeja em mim as mesmas porcarias de sempre.’

O último encontro do dois é de uma sutileza muito grande. O episódio inicia-se com Gina lendo uma carta onde Paul renuncia a profissão e assume sua responsabilidade sobre a morte do paciente. Ela guarda a carta na gaveta e tranca como garantia de que aquelas afirmações nunca sejam publicadas. No encontro, Paul relembra os tempos de faculdade, quando ele e os colegas estavam apaixonados por Gina. Eles queriam saber onde ela morava, se era casada e se tinha filhos. Um dia, Paul encontrou Gina e seu marido em um restaurante e ficou se perguntando porque ela estava casada com ele.  Os dois se lembram de como brigavam na sala de aula. “Você discutia sobre tudo o que eu falava”, “Sim, mas você nos fazia discutir, essa era a sua técnica”. Depois de insistir muito, Paul descobre que Gina tem um encontro, que ela está tentando recomeçar.

 
Paul: Você é uma excelente terapeuta Gina, eu não sobreviveria sem você.
Gina: Obrigada. Paul, esta seria a hora em que eu deveria dizer: ‘A minha porta está sempre aberta’, mas eu não vou dizer isso.
Paul: Eu entendo…
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