Três filmes do cinema brasileiro, difíceis de engolir.

Tenho andado com muito azar quando se trata de cinema brasileiro. ´Os últimos três filmes que vi são de um desastre tão grande que fiquei me perguntando por que eu fui perder meu tempo. Já me meti em inúmeras discussões com pessoas que adoram afirmar que o cinema nacional é ruim e que só tem putaria. É assim mesmo que muitos pensam, não adianta. Mas como explicar esse sucesso de público? De alguma forma os brasileiros querem se ver retratados na telona. Não como personagens caricatos (nem do jeito que o cinema hollywoodiano injustamente insiste em fazer). O brasileiro vai a sala de cinema para ver sua cultura, seus problemas, sua realidade. Ele quer ver na telona uma representação da sua sociedade, da sua língua, afinal o cinema é também instrumento de identificação cultural, por isso tão importante.

As ultimas três produções que vi são bastante questionáveis (uma delas, inclusive, recebeu grande aceitação do público). São filmes que de alguma forma, cedem aos padrões estéticos americanos e fortalecem antigas estigmas que taxam o brasileiro. Todos os três estão fora do circuito alternativo, são produções popularescas e bastante enganadores (principalmente porque são muito convidativas). Mas isso não importa, comédia boa (sendo alternativa ou não) é aquela que te faz rir, que abusa da ironia e do sarcasmo sem perder a mão.

grazi massaferaO primeiro dos três filmes que vi foi Billi Pig, produção de 2012, dirigida por José Eduardo Belmonte. Billi Pig já engana pelo elenco (Selton Mello, Cássia Kiss, Milton Gonçalves e Zezé Barbosa) logo depois, te decepciona pela construção do roteiro e pela sequência duvidosa. Classificado como uma chanchada misturada com screwball comedy, a produção conta a história de Wanderley, um corretor de seguros falido que tenta ajudar sua mulher Marivalda(Grazi Massafera) a realizar o seu sonho de ser atriz. Não fosse só por isso, Marivalda possui um porquinho de pelúcia que cria vida e começa a interferir no cotidiano dos dois. Contexto completamente desconexo, diálogos sem graça, falhas de continuidade. Enfim, um filme triste de assistir.

Logo a primeira cena é bastante confusa: Marivalda aparece com um falso Oscar na mão, cercada de índios macumbeiros que a induzem a sacrificar o pequeno porco falante. Trata-se do sonho da personagem que vive uma perseguição insana pela fama. Ela e o marido se juntam a um falso padre e tentam ajudar a filha de um traficante poderoso. Grazi Massafera aparece com um sotaque terrível e Selton Mello com frases previsíveis e repetitivas.Perde-se muito tempo com histórias paralelas e há um dificil desenvolvimento da história (com vários personagens desaproveitados e sem ligação com a idéia central).

Totalmente Inocentes , filme de 2012 e dirigido por Rodrigo Bittencourt é também um daqueles que promete mas não cumpre. A intenção é boa, a concepção é interessante, mas na prática não dá certo. O enredo conta a história de três garotos (Bracinho, Torrado e Da Fé) que querem dominar o morro para impressionar a menina mais bonita da favela: Gildinha (Mariana Rios). O problema é que o lugar já é liderado por ‘Do Morro (Fábio Porchat) que também está interessado por ela. Ainda na trama, acompanhamos a história do jornalista Wanderlely (Fábio Assunção), um homem atrapalhado que corre o risco de perder o emprego se não conseguir um furo.

totalmente inocentesPercebe-se desde o início que o filme não tem grandes pretensões É uma comédia leve com poucos diálogos interessantes e com bons atores. Mas é um filme sem foco, que se perde diversas vezes e que peca por reunir tantos personagens estereotipados de uma vez só. Uma moça honesta e bonita que mora na favela, um traficante mau com uma história triste, uma lésbica extremamente masculinizada, um dono de uma pastelaria mão de vaca, um jornalista de má índole (e por aí vai). Sem contar que ainda temos a irritante presença de Filipe Neto, totalmente deslocado e inconveniente. (Gosto do Filipe Neto, mas ele foi mal aproveitado. Neto aparece com um narrador que reforça repetidas vezes o que o espectador já viu e compreendeu).

Totalmente Inocente é uma paródia do Tropa de Elite e do filme Cidade de Deus e, de alguma forma é uma homenagem aos ‘favelas movies. O destaque vai para Kiko Mascarenhas no papel da Diaba Loura, engraçado e totalmente transvestido, ele faz o filme valer a pena. Porchat também está muito bom, mas não em seu melhor momento: Porta dos Fundos é a comprovaçã básica de que ele sabe fazer humor de uma forma melhor (beeeem melhor).

vai-que-da-certo-460O terceiro filme tem um ‘mérito’ que os outros não tem: é um sucesso de publico e de crítica. Vai que dá certo, produção de 2013, dirigido por Maurício Farias, tem a cara da Globo, aliás, é uma produção da Globo Filmes (e talvez por isso, carregue a mesma plasticidade da TV). A história: Cinco amigos de adolescência se reencontram e percebem que não alcançaram o sucesso planejado, então decidem assaltar uma transportadora de valores. O elenco é bom (Bruno Mazzeo, Danton Mello, Fábio Porchat, Felipe Abib, Gregório Duvivier, Lúcio Mauro Filho e Natália Lage), a história é interessante, mas o filme fica no meio caminho entre o ‘mais ou menos’ e o razoável.

Fico decepcionada quando bons atores não podem aproveitar seu potencial. Exemplo disso é Gregório Duvivier que no filme, interpreta um rapaz bobo, que só se interessa por videogame. Ironicamente, ele é um dos personagens mais engraçados do filme, graças é claro, a Duvivier. A trama tem várias reviravoltas mas te deixa desestimulado. Esse é um filme para passar o tempo e para ver uma só vez.

Com uma forte publicidade e distribuição, Vai que dá certo insipira-se em um sucesso americano: Se beber não case. A produção foi contextualizada para o Brasil, mas os mesmos dispositivos narrativos podem ser encontrados. O personagem de Duvivier, por exemplo, assemelha-se muito ao que Zach Galifianankis faz com o personagem Alan: se envolve em problemas que atrapalham os planos dos amigos.

Personagens superficiais, produção comercial escancarada. Aliás, os atores do Porta dos Fundos é um chamativo. Na trama, os dois possuem papéis pequenos e apesar de coadjuvantes, roubam a cena.

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