Ensaios sobre a Cegueira, um olhar sobre a vergonha

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Escrevi este texto no primeiro período de faculdade, muitas coisas mudaram desde que me formei, mas uma delas continua: o meu respeito e a minha admiração por José Saramago, do qual li pela primeira vez ainda com 14 anos…

A cegueira inicia-se em apenas um homem e repentinamente alastra-se a outras pessoas de maneira inexplicável. Assim o filme “Ensaio sobre a cegueira”, baseado na obra do escritor português José Saramago, aborda a história de uma epidemia que se distingue da cegueira usual, uma vez que ao invés da escuridão, os cegos possuem a percepção de uma “cegueira branca”. Os contaminados são enviados a um manicômio, e passam a viver de forma animalesca, relegados à própria sorte. Somente uma mulher consegue enxergar, e dessa forma, acaba se tornando a única testemunha ocular de tal degradação.

A obra ilustra a fragilidade das relações humanas, das imposições morais, dos preconceitos.  A cegueira (também passível de outras interpretações) pode ser entendida como uma imperfeição ética, que se encontra no âmbito das escolhas pessoais ou coletivas comuns no cotidiano.

Os artigos “Culpa e vergonha”, “Privilegiados sem Vergonha”, “Dois tipos de vergonha” e “ A vergonha de ser pobre”, do psicanalista Contardo Calligaris, também ilustram outra característica importante dos costumes ocidentais e consequentemente brasileiros; a vergonha. Assim, como os personagens do filme, que não enxergam  e não respeitam as regras básicas de convivência, tornou-se comum agir por impulso. A vergonha não é pelo ato, e sim, para o que ele possa representar na sociedade. A preocupação é pela reputação.

As identidades deixam de se basear no que se é, para se basear no que se tem. No filme, um dos grandes problemas é que as pessoas não podem ser identificadas pela aparência ou pelo nome, a falta de visão, obriga-os a se conhecerem melhor. Não distante disso, em nossa realidade, o que se percebe é a existência de relações supérfluas, criadas por interesse, pela necessidade de ostentação. Exemplo disso, são os neoprivilegiados descritos por Calligaris, que “sobrevoam a Ilha Grande em vôo rasante”.

Por fim, a relação conflitante entre dominantes e dominados, resultado não só da violência, mas também de humilhações causadas aos menos favorecidos, torna-se algo recorrente, retratada de diversas formas pela mídia e compreendida pela população como algo banal.

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