Enquanto Petrônio morre

Encontrei o livro ”Enquantenquanto-petronio-morreo Petrônio morre” na Fnac outro dia por R$4,90 e fiquei presa nele até a última página. O livro é um bom passatempo, tem uma narrativa simples, direta e uma temática deliciosa. Escrito por Flávio Braga (romancista paulistano), é o terceiro volume da coleção placere da editora Best Seller e conta a historia (em primeira pessoa) do aventureiro Percênio.

Na narrativa, Percênio (mais conhecido como Heliodoro) foi um soldado que, ao lado do amigo Júlio, se prostituía em troca de dinheiro. Os dois foram presos, mas conseguiram se livrar da morte e fugir para Roma. Após vários dias de fuga, foram recebidos por um velho senhor e passam a morar em sua casa por alguns dias.  Ironicamente, os dois se apaixonaram pela escrava Apícula (que era uma negra linda, mas que não falava sua língua).

Depois de transarem com o velho senhor e enganá-lo, os dois roubaram Apícula e passaram a frequentar casas de banho (onde ofereciam seus ‘serviços sexuais’). Heliodoro percebe um romance entre Júlio e Apícula e com ciúmes, deixa bem claro que é ele quem manda (e que só ele pode dormir com a escrava quando bem desejar).

Os três são convidados a participar de uma festa de um rico comerciante, quando chegam ao local, presenciam um grupo de aristocratas reunidos em orgia e muito desperdício de comida. Enquanto Júlio e Apícula se prostituem, Heliodoro se encarrega de roubar os convidados da festa (leva dinheiro e tecidos caros).

Na mesma festa, encontra Mirtes (a escrava sexual de um homem poderoso), deita-se com ela e a convida a se unir ao grupo. Mirtes aceita e os quatro fogem para outra cidade. Julio cai em uma emboscada e acaba sendo assassinado.

Sem o companheiro e responsável pelas duas mulheres, Heliodoro decide abrir uma casa de prostituição e tem ajuda de Mirtes. Para lucrar ainda mais, organiza uma arena onde coloca escravos e gladiadores lutando (quem vence, ganha a liberdade).  Um dia viaja a negócios e quando chega, encontra seu bordel quebrado. O dono de Mirtes voltou para buscá-la.

Sem temê-lo, Heliodoro o mata e retoma os negócios. Pouco tempo depois, Ada (a esposa do homem assassinado por Heliodoro) o procura, diz  que depois da morte do marido, não tem como se sustentar. Heliodoro a aceita e a faz de esposa, ele agora tem três mulheres.

Heliodoro se apaixona pela quarta vez, por uma jovem cristã chamada Genoveva. Ele a leva (junto a sua mãe) para casa, correndo o risco de ser preso. Apesar de várias investidas, Heliodoro enfrenta resistências por parte de Genoveva. Por fim, Heliodoro é convidado a participar de uma festa na casa de um conhecido escritor chamado Petrônio. Lá, ele presencia o suicídio do autor de Satiricon, que lê seus textos em voz alta e corta os próprios punhos: ‘Enquanto Petrônio morre, Roma se divertpetronioe’.

A narrativa é repleta de erotismo, que acentua o ritmo da trama e chama atenção para os personagens e seus respectivos confrontos.

Particularmente, só conheci Petrônio através do livro e a minha curiosidade sobre Satiricon (de que já havia ouvido falar, inúmeras vezes) aumentou. Na breve pesquisa que fiz pela internet, descobri que Petrônio foi conselheiro de Nero e após uma conspiração, saiu do poder e caiu em uma vida de libertinagem. Suicidou-se lentamente, abrindo e fechando as veias.

O prólogo do livro de Flávio Braga contextualiza sua vida e sua obra de maneira sublime: “Petrônio, assim como Cervantes e muitos outros gênios literários, foi um crítico demolidor dos livros românticos e melosos de seu tempo. Sua única obra, o romance Satiricon, que não chegou íntegro aos nossos dias, é sobre a trajetória de dois vagabundos romanos no primeiro século de nossa era. Nos dias de hoje seria micheteiros que rondam pelas boates gays das grandes cidades, além de ladrões, falsários e tudo o mais de sórdido que acompanha esse gênero de vida. Então, porque Satiricon é um dos mais importantes livros da antiguidade clássica? Ora, porque narra com realismo acontecimentos do dia-a-dia da plebe, mas não só. Petrônio escreveu em prosa moderna. O livro poderia ser escrito hoje, tal clareza e objetividade do texto. Não podemos esquecer que tudo era versificado naqueles dias e muito depois, pelo menos até o século XVIII.

Ainda sem um deus castrador, que só assumiria o poder na Idade Média, Roma gozava de uma liberdade que embora não fosse justa, era real. Mulheres e escravos muitas vezes era forçados a se submeter a desejos dos patriarcas, mas havia mais liberdade para os homossexuais, embora menos do que na Grécia, e na intimidade tudo era permitido. As casas de banho era espaços bastante democrático e as mulheres mais livres eram as heteras, uma espécie de prostituta de luxo. Um das causas principais desse comportamento era, justamente, a religião politeísta. Sendo os deuses meio humanos, com ações baseadas no amor e no ódio, por exemplo, serviam de modelo aos humanos que não viviam sob o tacão de um moralismo imposto.

Petrônio era da elite romana, diplomara e governado da Bitínia, atual Turquia. Viveu entre 14 a.C. e 66 d.C. Mas essas datas são muito discutíveis e contestadas por historiadores de diferentes correntes. O texto permite notar a ampla visão que o autor tinha de seu tempo, descrevendo aspectos do dia-a-dia que outros escritores preferem esquecer, como se a vida fosse criada e vivida somente por pessoas superiores.”

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