Mental

Estou com esse filme há um mês no computador e só ontem tomei a iniciativa de assisti-lo. Tive uma ótima surpresa e indico a qualquer pessoa que queira se divertir com um longa interessante, que traz diversas contestações e principalmente: mantém o ritmo e não cai na mesmice.  “Mental” é uma comédia australiana dirigida por PJ Hogan (o mesmo direitor de ‘O Casamento de Muriel’ e ‘O casamento do meu melhor amigo’) que conta a história da problemática família Moochmore.

Curiosamente, PJ Hogan se baseou na própria vida para fazer o filme. Quando tinha 12 anos sua mãe sofreu um colapso nervoso e foi internada em um hospício. Seu pai se recusava dizer onde sua mãe estava e, assim como no filme, decidiu contratar uma babá para cuidar dele e da irmã (que é esquizofrênica).  Em 1994, quando produziam ‘O casamento de Muriel’, PJ Hogan tinha o costume de contar casos de sua babá a Toni Collette que por muito tempo insistiu que fizessem um longa sobre a história e a convidassem para o elenco.

Mental - Toni Collette

Há muitos aspectos que chamam atenção na trama, a começar por um forte senso de humor negro que ironiza a sociedade e brinca com as falhas humanas. Desde uma vizinha compulsiva por limpeza a uma mulher viciada em colecionar bonecas (que possuem cabelo de verdade): há um belo trabalho quanto a narrativa que joga com espectador e não estabelece diferenças claras entre a normalidade e a loucura. Toni Collette está maravilhosa e carrega grande parte dramática do filme, mas também não há como ignorar a presença de Rebecca Gibney (quase irreconhecível), no papel de uma mulher doce e completamente pirada.

Uma família em pedaços, uma oportunista e uma pitada de loucura

Logo no início da trama somos apresentados a Shirley Moochmore (Rebecca Gibney) que canta no jardim da casa uma das mais famosas músicas do cinema americano: The Sound Of Music.  Enquanto diverte-se em seu pequeno idílio, suas filhas a observam e ficam completamente agitadas, tentando se livrar do vexame que a mãe lhes causou. Ao contrário da  família Von Trapp, os Moochmore possuem sérios problemas de comportamento e são um incômodo para os vizinhos. Shirley insiste que as filhas precisam aprender a dançar e a cantar (como em ‘A Noviça Rebelde’) para que seu marido, Barry (Anthony LaPaglia), finalmente volte para casa.

Cada uma das cinco filhas acredita ter algum problema mental, Coral (Lily Sullivan), a filha mais velha, insiste que é bipolar. Leanne diz ser autista, Kayleen sociopata, Jane afirma ser depressiva e Michelle, esquizofrênica. Os Moochmore são vizinhos da detestável Nancy (Kerry Fox) que odeia Shirley e as meninas. Nancy é uma mulher moralista e preocupadíssima com a limpeza da casa (que esfrega o chão da rua com escova de dente) – ela também tenta esconder e limitar os trejeitos da filha, que é lésbica e completamente masculinizada.

Inesperadamente, Shirley tem um ataque de nervos e compra diversos artigos em uma loja de mobílias. Ela acredita que ao comprar móveis novos, suas filhas deixarão de ser chamadas de porcas. Barry decide internar a mulher e contratar uma babá. [Se alguém perguntar as meninas onde esta Shirley, elas devem dizer que a mMENTALãe está se divertindo em férias]. Doris (Caroline Goodall), irmã de Shirley, não pode cuidar das meninas porque gasta todo o tempo com sua coleção caríssima de bonecas (ela, inclusive, corta o cabelo de uma das sobrinhas para colocar em seu brinquedo).

Barry encontra Shaz (Toni Collette) na rua e sem se preocupar com o seu passado, a contrata para ser a babá das meninas. Ocupado com a prefeitura, ele se ausenta mais uma vez da casa e deixa que Shaz resolva todos os problemas. Aos poucos Shaz conhece cada uma das meninas e descobre que todas estão sentimentalmente abaladas pela falta dos pais. A única delas que realmente apresenta algum problema é Michelle, que é esquizofrênica.

A presença de Shaz faz com que as meninas percebem que não há nada de errado com elas. Aos poucos, elas largam a ideia de que possuem alguma doença mental e se unem para ajudar a mãe a sair do hospício. Shaz também conversa com Shirley para convencê-la voltar para casa e cuidar das crianças. A relação de confiança é drasticamente quebrada, quando descobrem que Shaz possui um surpreendente passado.

Um toque de genialidade em diálogos surreais

Fiquei mais atenta aos diálogos dos filmes desde que comecei a escrever para o La Amora. Gosto de um humor bem feito quanto a narrativa e ‘Mental’ correspondeu bem. Em uma cena interessante, Shirley conta para Shaz como começou a se relacionar com Barry. Em um de seus primeiros encontros, Barry a estuprou e mesmo assim, ela ficou apaixonada por ele. Shirley esperou pelo telefonema por 3 semanas até que descobriu que estava grávida de Coral e Barry não teve como fugir. Em outro momento engraçado, Shaz comenta a história da Austrália com as meninas. Diferente do oficial, ela insiste que os antepassados dos australianos eram loucos, já que os loucos eram sempre mandados para longe. Os diálogos surreais ficam ainda mais engraçados com as referências a personagens da cultura pop como Cate Blanchett, Nicole Kidman e Rupert Murdoch.

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