As ligações perigosas: sobre o livro

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“O amor, o ódio, só tem o trabalho de escolher,

tudo está debaixo do mesmo tecto.

E pode até, fazendo existência dupla,

afagar com uma das mãos e ferir com a outra “

M. Merteuil

Entusiasmada com a narrativa, li o livro e fiz anotações sobre detalhes que me chamaram atenção. Um delas, e talvez até evidente, é que a Marquesa de Merteuil é um personagem muito mais pérfido e cruel do que parece ser no filme. Logo nas páginas iniciais, quando o Visconde revela o desejo de se relacionar com a Presidente de Tourvel, a Marquesa sugere que ele poupe se tempo, ‘tome sua virtude a força’ e atenda seu pedido de desonrar a jovem Cecília Volanges. Em uma carta da Madame de Volanges, fica muito claro porque as outras mulheres a admiram: não só por sua beleza, mas também por conseguir resistir [como assim dizia] aos terríveis encantamentos do Visconde – e não ser domada por nenhum homem.

Em boa parte do livro, o Visconde e a Marquesa se empenham em fazer com que Cecília e Dancey se encontrem, ao mesmo tempo, morrem de tédio das infindáveis e tolas declarações de amor. Já na segunda parte da trama, a Marquesa decide denunciar a troca de cartas entre os jovens apaixonados por puro divertimento, para ela não existe amor sem obstáculos e é dessa forma que, ironicamente, ganha a confiança de Cecília, Dancey e da Madame de Volagens.

Assim como no filme, as passagens mais interessantes se dão entre o Visconde de Valmont e a Marquesa de Merteuil. As cartas trocadas por eles estão repletas de ironia, sensualidade e duplo sentido. Além disso, os dois analisam os outros personagens friamente (até com certo deboche) e garantem o ritmo da narrativa. O Visconde de Valmont também merece seu destaque, sua insistência em relação a Presidente de Tourvel é admirável, assim como a sua astúcia. Um fato que me chamou a atenção foi que o Visconde só decidiu tirar a virgindade de Cecília após descobrir que sua mãe escrevia cartas denunciando-o a Presidenta (e não apenas, para agradar a Marquesa).

Provavelmente é uma impressão minha (pois não achei menção a isso em nenhuma página da internet), mas é o seguinte: durante algumas passagens, o Visconde e a Marquesa me pareceram apresentar certos interesses homossexuais, um exemplo é quando o Visconde relata um fato que lhe ocorreu quando estava na casa da Viscondessa M: ‘Os beijos da Viscondessa deixaram-me indiferente, mas confesso que o de Vressac me deu prazer’. Em outro momento, a Marquesa cita Cecília mas não se refere a ela como amiga e sim como uma leve paixão e que se fosse homem teria prazer em cortejá-la (a carta logo me lembrou da famosa cena do filme ‘Segundas Intenções’ – filme de 1999, também baseado no livro, onde Kathryn Merteuil (interpretada por Sarah Michelle Gellar) e Cecile (Selma Blair) se beijam.

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A Marquesa me pareceu muito mais sábia e maquiavélica do que o Visconde. Em uma passagem do livro, o Visconde pede que a Marquesa não dê atenção a Prévan, um homem que disse publicamente que a conquistaria. Ela se nega a atender seus pedidos, diz que dormiria com Prévan para satisfazer sua própria vontade e que ninguém iria ficar sabendo. [A Marquesa mede suas forças com o Visconde, não atende seu pedido e ainda lhe provoca ciúmes]. O fato é que a Marquesa arma para Prévan e faz com que o encontro dos dois se pareça a uma tentativa de estupro – Prévan acaba preso.

Na primeira e na segunda parte, Cecília nos leva a crer que é uma moça inocente (mesmo com todas as desconfianças e insinuações da Marquesa), porém depois que perde a virgindade com o Visconde (inclusive, depois de descobrir que ele dormiu com a sua mãe), a personagem praticamente transforma-se e passa a ser o que as palavras do Visconde definem bem: ‘tão sabia quanto o mestre’. 

[ O desfecho ] Não há muito o que comentar das cartas dos outros personagens, eles são fundamentais para o desenvolvimento da trama, mas a Marquesa e o Visconde se sobressaem, eles são os manipuladores. A presidente de Tourvel, que em grande parte da obra tenta fugir dos próprios desejos e manter sua virtude é humilhada por Valmont e acaba morrendo (em uma mistura de dor, decepção e cólera). O Visconde, como sabemos, morre em uma batalha com Danceny, que seu muda de Paris com medo de perseguições. O que não nos é contado no filme é que Cecília implora que a mãe lhe coloque em um convento e decepcionada com o amor, se torna freira. A Marquesa,depois da humilhação no teatro, pega varíola, fica com o rosto completamente desfigurado (e ainda perde um olho) e nas palavras da Madame de Volagens, fica hedionda:  ‘O marquês de ***, que não perde a ocasião para uma maldade, dizia ontem, falando dela, que a doença a virara do avesso, e que tinha agora a alma estampada no rosto. Infelizmente todos acharam que a expressão era justa’ (Carta CLXXV, p.358)

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Marquesa de Merteuil uma feminista?

‘Eu sempre soube que nasci para dominar o seu sexo

e vingar o meu’

Confesso que estou encantada com a história, viciada no livro e no filme… participei de algumas discussões, revi outras interpretações e li vários artigos/publicações na internet sobre a trama. Lola Aronovich, autora do blog ‘Escreva, Lola, Escreva’, nos presenteou com duas publicações sobre a trama e foi questionada por uma leitora se a Marquesa poderia mesmo ser considerada uma feminista. Lola chamou atenção para o fato de a Marquesa ter consciência do seu papel desprivilegiado na sociedade e de se esquivar da situação. Outro detalhe, sabiamente observado por ela é que a Marquesa foi a única a receber um castigo (o Visconde e a Presidente morrem, Cecília vai para o convento – o que não é mostrado no filme) enquanto a Marquesa é humilhada publicamente.

Particularmente, não sei se ‘feminista’ é um termo adequado, ainda assim, concordo que a Marquesa de Merteuil representa as mulheres (e sua condição desigual a dos homens) com bastante êxito. Não só ela, as outras personagens também o fazem muito bem. Oprimidas pelos contratos sociais (como o casamento), pela igreja, condenadas ao silêncio, levadas a negar os desejos e os próprios prazeres, responsáveis por apresentar uma reputação de pureza, uma atitude passiva e vários outros aspectos que poderíamos citar por horas.

Outro Blog que eu adoro e que também levanta um questionamento interessante é o ‘Há sempre um livro a nossa espera‘, da Cláudia Soares Dias.  Ela se pergunta sobre a causa e as motivações sociais que levaram a Marquesa apresentar tal personalidade. Para Cláudia, essa personalidade se dá porque Merteuil possuía uma grande dificuldade em lhe dar com rejeições e apresentava (quando adolescente) uma forte curiosidade em relação a sexualidade que esbarrava nas restrições religiosas e sociais. No entanto, não acho que essa personalidade se limite apenas a uma curiosidade, mas também a uma necessidade de ‘auto-proteção’, antes de se tornar viúva, ela ainda estava sujeita às vontades do marido, ainda estava presa a figura masculina e foi só com a sua morte que ela pôde se reinventar.

Em uma passagem do filme, o Visconde faz a seguinte pergunta a Marquesa:

Visconde: Eu frequentemente me pergunto como você conseguiu se inventar

Marquesa: Bem, eu não tive escolha, tive? Sou mulher. Mulheres são obrigadas a serem muito mais cheias de recursos que homens. Vocês podem arruinar nossa reputação e nossas vidas com algumas poucas palavras bem escolhidas. Portanto, é claro que eu tive de inventar não apenas eu mesma, mas também formas de fuga que ninguém pensou antes. E eu fui bem-sucedida porque sempre soube que nasci pra dominar o seu sexo e vingar o meu

1 a al fofoqueiros e falsos

No livro, essa passagem se dá na carta LXXXI, justamente quando o Visconde tenta convencer a Marquesa de que ela não deve se relacionar com Prévan. Austera e confiante, ela explica sua trajetória para mostrar que não teme nenhum homem (e que não aceita ordens). Merteuil também fala (com certo deboche) da sua superioridade sobre o Visconde: ‘Que tem o Visconde feito que eu não tenha ultrapassado mil vezes? Seduziu, perdeu mesmo muitas mulheres: mas que dificuldades teve a vencer? Que obstáculos a ultrapassar? Onde está o mérito que verdadeiramente lhe caiba?”

Reproduzo uma parte da carta que é uma síntese da história de Marquesa e que nos ajuda a descobrir um pouco mais da sua personalidade… (Olha, é um pouco grande… eu sei, mas vale muito a pena!)

Entrando na sociedade num tempo em que, criança ainda, as circunstâncias me condenavam ao silêncio e a inacção, delas soube tirar proveito para observar e refletir. Enquanto me julgavam estouvada ou distraída, não dando ouvidos à verdade dos ensinamentos que me dispensavam, eu recolhia cuidadosamente tudo o que procuravam esconder-me.

Essa curiosidade útil, ao mesmo tempo que servia para me instruir, ensinava-me ainda a dissimular. Obrigada muitas vezes a esconder dos olhos dos que me rodeavam os motivos que me chamavam atenção, experimentei pousar os meus no que me agradasse; o resultado desde logo foi ter adotado aquele olhar sem constrangimento que o Visconde tantas vezes me gabou. Animada por este primeiro êxito, tratei de regular, pelo mesmo processo, os diversos movimentos do meu rosto. Se sentia qualquer apreensão, estudava-me até assumir um ar de serenidade, ou mesmo de alegria, levei o meu zelo ao ponto de a mim própria causar dores voluntárias, para durante esse tempo procurar a expressão de prazer. Com o mesmo cuidado e maior custo, exercitei-me a reprimir os sintomas de uma alegria inesperada. Foi assim que consegui tomar sobre a minha fisionomia aquele domínio que algumas vezes admirou em mim.

Eu era ainda muito nova, e quase sem interesse, mas só tinha de meu os próprios pensamentos, e indignava-me a ideia de que mos pudesse roubar ou surpreender contra minha vontade. Munida dessas primeiras armas, experimentei servir-me delas. Não me satisfazia a não me deixar penetrar: divertia-me mostrar-me sob formas diferentes. Dominando os meus gestos, observava as minhas falas. Uns e outras eram regulados segundo as circunstancias, ou mesmo segundo as minhas fantasias. Desde então, a minha maneira de pensar pertenceu-me a mim só, e não mostrei nunca senão o que me era útil deixar ver.

Este trabalho sobre mim própria fixou a minha atenção sobre a expressão dos rostos e o carácter das fisionomias, e adquiri esta mirada penetrante, na qual a experiência todavia me ensinou a não me fiar inteiramente, mas que, em todos os casos, raramente me enganou.  

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Ainda não tinha quinze anos, possuía já os talentos a que a maior parte dos nossos políticos devem a sua reputação, e encontrava-me ainda nos rudimentos da ciência que pretendia adquirir.  (…) O meu desejo não era gozar, era saber. O desejo de me instruir sugeriu-me os meios.  Senti que o único homem com quem podia falar sobre esse assunto, sem me comprometer, era o meu confessor. E logo tomei o meu partido. Passei por cima dessa pequena vergonha e gabando-me duma falta que não tinha cometido, acusei-me de ter feito tudo o que fazem as mulheres. Tal foi a verdade que ideia exprimia. A minha esperança não foi de todo iludida, nem inteiramente realizada, o receio de me trair impedia-me de me esclarecer. Mas o bom do padre pintou-me o mal tão grande que eu concluí que o prazer devia ser extremo e ao desejo de o conhecer sucedeu o de o saborear.

Não sei onde esse desejo me teria conduzido, e, faltando-me por completo a experiência, uma única oportunidade ter-me-ia talvez perdido. Felizmente pra mim, minha mãe anunciou alguns dias depois que eu ia casar-me. A certeza de que ia saber extinguiu imediatamente a minha curiosidade, e cheguei virgem aos braços do Sr. De Merteuil. Era com tranquilidade que esperava o momento que tudo devia ensinar-me, e foi-me preciso reflectir para mostrar confusão e receio. A primeira noite, que geralmente se tem uma ideia tão cruel ou doce, apresentava-me apenas uma ocasião de experiência: dor e prazer, tudo eu observava com exatidão e nessas diversas sensações via apenas fatos para recolher e meditar.  

Este gênero de estudo depressa começou a agradar-me; mas, fiel aos meus princípios, e sentindo, talvez por instinto, que ninguém devia estar mais longe da minha confiança do que o meu marido, resolvi, pelo simples fato de que era sensível, mostrar-me impassível a seus olhos. Esta frieza aparente foi, ao longo do tempo, o fundamento inabalável da sua cega confiança. Juntei-lhe, após uma segunda reflexão, o aspecto estouvado que a minha idade autorizava; e nunca ele me julgou mais criança do que nos momentos em que com mais audácia eu o iludia.

Entretanto, devo confessá-lo, deixei-me primeiro arrastar pelo turbilhão do mundo, e entreguei-me inteiramente às suas distrações fúteis. Mas ao fim de alguns meses, tendo-me o senhor de Merteuil levado a partilhar as suas tristes férias no campo, o medo do aborrecimento fez com que me voltasse o gosto do estudo; e encontrando-me rodeada apenas de pessoas cuja distância de mim me punha ao abrigo de toda a suspeita, aproveitei a ocasião para dar um campo mais vasto às minhas experiências.

 Foi ali, principalmente, que obtive a certeza de que o amor que nos louvam como a causa dos nossos prazeres é apenas, quando muito, o seu pretexto. A doença do senhor de Merteuil veio interromper tão doces ocupações; foi necessário segui-lo à cidade, onde ele ia procurar socorros. Morreu, como sabe, pouco tempo depois; e embora, no fim de contas, eu não tivesse de me queixar dele, nem por isso senti menos vivamente o preço da liberdade que a minha viuvez ia proporcionarme, e a mim própria prometi aproveitar bem essa liberdade. Minha mãe contava que eu entrasse num convento, ou voltasse a viver com ela. Recusei uma e outra solução; e tudo o que concedi à decência foi voltar ao mesmo lugar no campo, onde me restavam ainda algumas observações a fazer.

 Essas observações ganharam força com o auxílio da leitura; mas não julgue que foram todas do gênero que supõe. Estudei os nossos costumes nos romances; as nossas opiniões nos filósofos; procurei mesmo nos mais severos moralistas o que eles exigiam de nós, e soube assim o que se podia fazer, o que se devia pensar e o que era preciso parecer. uma vez fixada sobre esses três pontos, só último apresentava algumas dificuldades na sua execução; esperei vencê-las e medirei nos meios.

 Começava a aborrecer-me dos meus prazeres rústicos, demasiado monótonos para a minha imaginação; sentia uma necessidade de coquetismo que me reconciliasse com o amor; não para verdadeiramente o sentir, mas para o inspirar e o fingir. Em vão me haviam dito e eu tinha lido que não se podia fingir esse sentimento; eu via, no entanto, que para o conseguir bastava juntar à inteligência de um autor o talento de um comediante. Experimentei os dois gêneros, e talvez com algum êxito; mas em lugar de procurar os vãos aplausos do teatro, resolvi empregar na minha felicidade o que tantos outros sacrificavam à vaidade.

 Um ano se passou nessas diversas ocupações. Como o meu luto já me permitia voltar a aparecer, regressei à cidade com os meus grandes projetos; não esperava o primeiro obstáculo que aí encontrei. Aquela longa solidão, aquele retiro austero tinham lançado sobre mim uma aparência de virtude que amedrontava os nossos galãs; mantinham-se afastados e deixavam-me entregue a uma multidão de aborrecidos senhores, que pretendiam todos a minha mão. O embaraço não estava em recusá-los; mas várias dessas recusas desagradavam à minha família, e eu perdia nessas questões internas o tempo que prometera a mim mesma gastar tão agradavelmente.

 Fui pois obrigada, para atrair uns e afastar os outros, a pôr em relevo algumas inconsequências e a empregar em prejudicar a minha reputação, o cuidado que pensava aplicar em conservá-la. Consegui-o facilmente, como pode imaginar. Mas não me sentindo arrebatada por nenhuma paixão, fiz só o que julguei necessário, e medi com prudência as doses da minha leviandade. Logo que atingi o fim que me propusera voltei ao ponto de partida e fiz promessas de emenda a algumas daquelas mulheres que, não podendo ter pretensões a agradar, se pavoneiam com as do mérito e da virtude. Foi um lance de dados que me valeu mais do que eu esperava.

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Aquelas reconhecidas donas arvoraram-se em minhas apologistas; e o zelo cego que empregaram para louvar o que elas chamavam a sua obra chegou ao ponto de, à menor frase que alguém se permitisse a meu respeito, todo o partido da virtude gritar contra o escândalo e a injúria. Pelo mesmo processo consegui ainda a aprovação das mulheres que pretendiam agradar, as quais, persuadidas de que eu renunciava a seguir carreira idêntica à sua, me escolheram para alvo dos seus elogios, todas as vezes que queriam provar que não diziam mal de toda a gente.

 Entretanto, a minha anterior conduta tinha atraído os apaixonados; e, para me equilibrar entre eles e as minhas infiéis protetoras, mostrei-me como uma mulher sensível, mas difícil, a quem o excesso de delicadeza fornece armas contra o amor.

Então comecei a desenvolver no grande teatro os talentos que dera a mim própria. O meu primeiro cuidado foi o de adquirir o renome de invencível. Para chegar a isso, os homens que não me agradavam foram sempre os únicos de quem simulei aceitar as homenagens. Empreguei-os sutilmente em alcançar por meio deles as honras da resistência, enquanto me entregava sem receio ao amante preferido.

 Mas a esse a minha fingida timidez não permitiu nunca que me seguisse na sociedade; e os olhares do mundo fixaram-se, desse modo, no amante recusado. Sabe, meu amigo, que levo pouco tempo a decidir-me; é por ter observado que são quase sempre os cuidados anteriores que revelam o segredo das mulheres. Por muito que se faça, o tom nunca é o mesmo, antes e depois do acontecimento. Esta diferença não escapa ao observador atento, e achei menos perigoso enganar-me na escolha do que deixar-me penetrar. Ganho ainda com esse procedimento afastar as evidências, que fornecem os únicos elementos para nos julgarem. Estas precauções, e ainda a de nunca escrever, não entregar nunca uma prova da minha derrota, poderiam parecer excessivas; a mim nunca me pareceram suficientes. Desci ao fundo do meu coração, e nele estudei o dos outros. Soube assim que não há ninguém que não conserve aí um segredo que não deve ser revelado; eis uma verdade que a Antiguidade parece ter conhecido melhor do que nós, e da qual a história de Sansão poderia ser apenas uma engenhosa alegoria. Nova Dalila empreguei sempre, como ela, o meu poder em surpreender esse importante segredo.

Quantos Sansões modernos não tive eu já com a cabeleira sob a minha tesoura! E a esses, deixei eu de temer; são os únicos que me tenho permitido humilhar algumas vezes. Mais subtil com os outros, a arte de os tornar infiéis para evitar parecer-lhes volúvel, uma fingida amizade, uma aparente confiança, alguns rasgos generosos, a ideia lisonjeira que cada um conserva de ter sido o meu único amante, tudo serviu para obter o seu silêncio. Por fim, quando esses meios me faltaram, soube, antes de romper, abafar de antemão, sob o ridículo ou a calúnia, a confiança que esses homens perigosos pudessem obter. O que lhe estou dizendo, tem-me o Visconde visto praticar constantemente; e duvida da minha prudência! (…)

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