Flores raras (e banalíssimas)

A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia.
Aceite, austero, A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente

Da viagem não feita.
Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe.
Ah! E nem quero Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas.
E um império Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles.
Mas não é nada sério.
– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada.
Pois é evidente que a arte de perder não chega a ser mistério

por muito que pareça (Escreve!) muito sério

Imagem

Acabo de chegar do cinema, fui ver Flores Raras, do Bruno Barreto com Glória Pires e Miranda Otto. É um belo filme que, aliás, retrata uma história linda. Apesar de grande parte ser em inglês, eis um longa de fácil identificação ao público brasileiro (principalmente por ter como cenário o Rio de Janeiro da década de 50/60 e apresentar referências políticas, culturais e econômicas).

Li outro dia que ‘Flores Raras’ é um romance lésbico e agora, depois de vê-lo, não acho que essa classificação o faz justiça. De fato, há uma forte abordagem do romance das personagens principais (aliás, mulheres admiráveis), mas o filme não se restringe a isso. Flores raras levanta uma reflexão sobre a própria condição humana, dos amores não correspondidos, do desejo, da insegurança, das decepções e anseios.

O filme retrata a chegada da poeta norte-americana Elizabeth Bishop (interpretada por Miranda Otto) ao Brasil, em 1951. A convite da amiga Mary (Tracy Middendorf), Bishop  vem para o país e se hospeda na casa da arquiteta Lota de Macedo Soáres (Gloria Pires). Seu interesse era ficar por duas semanas, acabou ficando por quinze anos. Mary e Lota possuem um longo relacionamento e a chegada de Elizabeth, em princípio, não causa nenhum problema. Inicialmente há um perceptível estranhamento entre Bishop e Lota, duas mulheres fortes com temperamentos e inspirações diferentes. Aos poucos as duas se apaixonam e Mary perde o seu lugar.

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Em sua enorme casa, Lota constrói um escritório para Elizabeth e é lá onde ela realiza ‘North & South — A Cold Spring, obra que lhe rendeu o prêmio Pulitzer de 1956.  A relação das duas, conturbada pelo alcoolismo de Bishop, pela presença de Mary (que decide adotar um bebê) e pela intimidadora personalidade de Lota, vai se desgastando aos poucos até que Bishop decide voltar a Nova York e lecionar na Universidade de Havard. Nesse meio tempo, Lota estava envolvida com a política e realizava (a convide do Carlos Lacerda) um de seus trabalhos mais conhecidos, o Parque do Flamengo, que foi duramente criticado pela imprensa.

Bruno Barreto (também diretor em Última partida 174 e O que é isso Companheiro?) acertou em cheio ao não levantar bandeiras e tratar a homossexualidade com naturalidade. O trabalho cenográfico é primoroso, a ambientação e o figurino foram muito bem elaborados. Gosto especialmente do cuidado que ele demonstrou ao usar planos subjetivos e sugerir um efeito catártico em relação à Bishop, como aquela cena em que ela lava os cabelos de Lota e lhe faz um poema, em homenagem…

No teu cabelo negro brilham estrelas
cadentes, arredias.
Para onde irão elas
tão cedo, resolutas?

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Gloria Pires está belíssima, muito sensual e sobressai às outras. Vi uma entrevista dela no Canal Brasil, onde ela dizia que não teve problemas em falar em inglês, mas ficou temerosa nas cenas mais fortes já que a memorização é um pouco mais complexa. Glória encarna uma Lota agressiva, menos feminina que as outras personagens e parece ser muito mais forte também. É interessante quando Elizabeth lhe pergunta sobre sua profissão e ela fala: ‘nasci arquiteta’, de fato, Lota nunca frequentou a universidade e foi reconhecida como arquiteta autodidata e paisagista emérita.

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