Amour

Assisti Amour em fevereiro, pouco antes da premiação do Oscar. Fiquei com uma vontade imensa de escrever sobre ele aqui no La Amora, mas não consegui. O texto foi abandonado pela metade e só hoje, depois de meses, tive coragem de finalizá-lo. A verdade é que Haneke bateu em uma tecla que me sensibiliza e que, confesso, me dá muito medo: a velhice. Aliás, não é um medo qualquer. Tenho medo de envelhecer e de ver os meus entes queridos envelhecer, tenho medo da doença da dor e da morte.

 Coincidentemente, no dia em que assisti Amour, uma amiga me perguntou se existia a possibilidade de Michael Haneke se tornar um novo Lars Von Trier. “Acho difícil ver Haneke criando um movimento e distribuindo certificados por aí”, brinquei. Mas sem dúvidas, assim como Lars, Haneke é um cineasta pugilista que ganhou mais visibilidade através de Hollywood. Tanto é pugilista que logo na primeira sequencia de Amour tomamos um soco no estômago e de quebra recebemos um aviso de que o resto do filme não será fácil.

 Ver o cadáver fétido de uma senhora, todo em negro, cercada por flores secas é angustiante ( fico imaginando essa cena filmada em plongée.) Haneke sabe o que faz e aliás, o faz muito bem. A começar pelo título. Esta aí a prova de que as vezes “menos é mais” Em uma das discussões no Filmow, uma garota disse que esse é o pior título de um filme que ela já viu. Os outros participantes (inclusive eu) caíram matando, defendendo a ideia de que o título condiz com a proposta do filme que justamente, mostra o amor, a dedicação e a paciência do marido.

Image

 A trama conta a história de um casal de idosos, Anne (Emmanuelle Riva) e George (Jean-Louis Trintignant) que vivem sozinhos e que se deparam com um acontecimento que muda o cotidiano dos dois. Anne sofre um derrame e George precisa cuidar dela. Sem o auxílio da filha, interpretada por Isabelle Huppert, George vê sua mulher adoecer aos poucos, perder a habilidade de andar e de falar. De fato, o que choca no filme é a fidelidade extrema que Haneke usou ao abordar um tema bastante delicado. Achei genial o fato da filha não participar da vida do casal e aparecer de relance, afirmando que não pode abandonar o marido e os filhos que moram em outro país. O foco é a relação entre marido e mulher e Haneke deixou isso muito claro (sugerindo ainda, uma discussão sobre o abandono e a ingratidão de alguns filhos para os pais.).

 O desgaste físico e o emocional ficam evidentes em cada cena. Ele precisa alimentá-la, trocá-la, levá-la ao banheiro, escovar seus dentes e arrumar seu cabelo. O esforço é acrescido pelo fato de que ele também já esta velho e sofre com os reflexos da idade. Em um dos momentos da trama, Anne afirma que não sabe se faria o mesmo por George. O companheirismo e a lealdade é tão grande que ele reconhece que cuida dela sem esperar ou exigir nada em troca.

Fiquei  muito decepcionada quando vi que Emmanuelle Riva não levou o Oscar de melhor atriz, uma pena mesmo e no mínimo, uma injustiça. Já tinha assistido Riva em ‘Hiroshima mon amour‘ e tive uma boa surpresa em revê-la nesse longa. Sem dúvidas, Jean-Louis Trintignant tem seu destaque, mas é Riva que sobressai em tela e acentua essa sensação de que a juventude é efêmera.

amour

* Nos últimos dias, surgiu na internet o caso do Fred Stobaugh e rapidamente fiz uma ligação ao filme Amour. Stobaugh é um senhor americano de 96 anos que resolveu participar do concurso musical promovido pelo Green Shoes (normalmente, eles pedem que os candidatos enviem seus materiais pelo Youtube). Stobaugh, que não tem nenhuma experiência musical, resolveu contar sua história e apresentar sua música através de uma carta, ele escreveu “Oh Sweet Lorraine” em homenagem a Lorraine Stobaugh, que foi casada com Fred durante 73 anos e que faleceu aos 91( um mês antes da faixa ser composta).

A história conquistou o estúdio, que decidiu ajudar o compositor a realizar uma gravação profissional. A boa surpresa é que a música emocionou o público e ficou entre os mais vendidos no iTunes EUA. ‘Oh Sweet Lorraine’ também se tornou destaque no ranking Digital rock songs da revista Billboard, que descreveu a entrada da música na parada como “surpreendente”.

Advertisements

2 thoughts on “Amour

  1. jc diz:

    É difícil escrever sobre um filme como este em que tudo é filmado dessa forma tão violenta (gostei do termo cineasta pugilista). Um filme inesquecível, porque nos “agride” onde mais nos dói.

  2. Pingback: Glória | La Amora

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s