Filha, Mãe, Avó e Puta

Li o livro da Gabriela Leite em uma semana, mas li aos pouquinhos, aproveitando cada capítulo, degustando cada passagem e descobrindo com muita curiosidade, admiração e respeito a história dessa mulher incrível. Lembro-me da vontade enorme que eu tinha de lê-lo e da dificuldade que tive em achá-lo. Eu estava no segundo período da faculdade quando descobri seu lançamento e comentávamos muito sobre ele nas aulas. Em frente ao local que eu trabalhava havia uma Leitura e eu sempre passava lá pra ver se eles tinham recebido o livro. No dia em que chegou eu não tinha dinheiro para comprá-lo, fiquei com uma raiva imensa e não voltei mais lá, o tempo passou e eu acabei me esquecendo. Só agora, depois de anos (de quatro anos, pra ser mais exata) é que tive a possibilidade de tê-lo em mãos por empréstimo de uma amiga querida.

Gabriela Leite é uma mulher que decidiu largar a faculdade (de filosofia na USP), as filhas e a família para se tornar prostituta. Ainda na década de 1970, Gabriela trabalhou na Boca do Lixo de São Paulo (na então famosa casa ‘La Licorne’) onde ficou por alguns anos até se mudar para a Zona Boêmia em Belo Horizonte. Pouco tempo depois ela se mudou novamente, dessa vez para o Rio de Janeiro e lá fundou a ONG DADIVA que até hoje defende os direitos das prostituas. Entre esses percursos, Gabriela viveu inúmeras situações inusitadas, conheceu diversas pessoas interessantes e incitou uma reflexão sobre a situação social e política das prostituas no país (e porque não, no mundo?).

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A verdade é que a figura da Gabriela não me chamou atenção por ter escolhido ser prostituta, não me importaria se ela tivesse largado a vida para se tornar qualquer outra coisa (apesar de que eu sei que a prostituição ainda é um estigma social). O que me chamou atenção nela foi o fato de fazer as suas escolhas sem culpa, seguir um caminho com muita persistência e sem olhar para trás. Comentei com as minhas amigas outra dia que achei incrível o fato dela abandonar as duas filhas para seguir a profissão. Eu sei que ela não é a primeira, nem será a última, mas o fato de falar sobre o assunto sem nenhum remorso me desperta a curiosidade.

Eu, particularmente, não conseguiria ser tão desgarrada com as minhas coisas e com as pessoas que amo e a admiro por isso. Ao mesmo tempo, penso nas filhas dela que viveram sem a mãe. O interessante é que já nas páginas finais, a Gabriela fala exatamente isso: ‘Por personalidade, eu nunca cultivei o sentimento de culpa. Não sei por que sou assim. Minhas irmãs receberam a mesma educação, sentem culpa. Meu pai não tinha culpa. Acho que, nesse sentido, eu sou da linhagem dele. E adoro chegar à minha idade com essa minha história de vida, sabendo precisamente o que me dá prazer’.

Foto: Christian Gaul

Foto: Christian Gaul

Um dia eu disse a uma colega de serviço que fui a uma reunião de prostitutas em Belo Horizonte. Lembro-me como se fosse hoje da sua postura, ela rejeitou a ideia e me perguntou por diversas vezes o que eu faria lá. Na verdade, eu fui por causa de um encontro feminista que tivemos e pude conhecer um pouco da história daquelas mulheres. Minha colega me questionou muito sobre isso e eu, para acalorar ainda a situação, lhe contei da história de uma delas que, assim como Gabriela, tinha escolhido largar a vida de funcionária publica e ser puta. Passamos o dia discutindo e ela afirmava: ‘ela pode passar necessidade, mas não precisa virar prostituta, precisa? Ela pode escolher outra vida... ’ Comento isso porque acho muito pertinente o que a Gabriela fala em seu livro (e em diversas outras entrevistas que vi) sobre a vitimização das prostitutas. Eu mesmo ficava em dúvida sobre essa ideia, mas hoje já tenho uma posição mais consciente.  Sem considerar, é claro, qualquer  tipo de abuso, de trabalho escravo ou pedofilia, as prostitutas seguem essa profissão porque querem e merecem que seus direitos sejam respeitados.

Outro aspecto importante é a reflexão que ela realiza sobre o nome da profissão, é interessante como o termo PUTA/PROSTITUTA incomoda as pessoas.  Ela exemplifica a situação com o caso do Congresso latino-americano em Buenos Aires onde a palavra prostituta estava proibida. Enquanto ela se negava a deixar de falar ‘prostituta’ as outras falavam: meninas, trabalhadoras ou profissionais do sexo. Ela explica que gosta de usar o termo porque:  ‘mudar o nome é um pedido de desculpas.’

Estou apaixonada pelo livro e pela narrativa, simples e direta. O fato de ser prostituta não impediu que Gabriela namorasse nem se apaixonasse por outros homens. É bacana acompanhar suas reflexões sobre o passado, sobre suas escolhas, sobre seu relacionamento com os pais e com os amigos e é bom ler uma história que tem como cenário um Brasil que vivia uma forte explosão sexual e cultural. Gosto, principalmente, quando ela fala sobre a sua vivência em Belo Horizonte cidade que apelidou de ‘A Capital do papai-e-mamãe’. Em BH, Gabriela trabalhou num local chamado Lírio e depois mudou-se para o hotel Catete (um  ficava na Rua São Paulo e o outrona conhecida Guaicurus). Gabriela diz que os mineiros são loucos por uma rapidinha: ‘Nada de invenção, só o básico. Nenhuma sofisticação e são de pouca conversa. Por ali, Freud morreria de tédio (…) Os programas são baratos mas a quantidade é absurda’. Aqui ela conseguiu juntar uma quantidade absurda de dinheiro, chegou até a comprar uma ‘terrinha’, mas decidiu largar tudo novamente e se mudar para o Rio de Janeiro.

Além de recontar a sua vida, ela também nos confidencia momentos (no mínimo) curiosos que enfrentou durante a profissão, um deles ( que me lembrou um pouco aquele filme ‘ As Sessões’ com a Helen Hunt), Gabriela conta a história de um deficiente físico que lhe procurou para fazer sexo e do preconceito que ela nutria por ele. Depois de conhecê-lo melhor e descobrir a sua história eles não só transaram como ficaram amigos.

– A vida da Gabriela ganhou os palcos e a peça teatral é encenada por Alexia Dechamps e Pedro Osório. Há notícias de que sua vida também será adaptada ao cinema.

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One thought on “Filha, Mãe, Avó e Puta

  1. Rafaela Atanásio diz:

    Adorei sua visão Thais, também fiquei super curiosa pela história da Gabriela, não sobre ela virar PUTA, mas sim, por ter se desprendido tão fácil, falar com tanta naturalidade e sem preocupação, lutar pelos direitos das prostitutas e seguir em frente normalmente. Adorei esse livro. Ele é ótimo e por mais que você tenha a mente aberta, no meu caso, me ensinou muitas coisas. A leitura é gostosa, assim como suas aventuras rs. Parabéns pelo texto.

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