A Religiosa: sobre o livro

– Tive a felicidade de encontrar esse livro na Fnac por apenas R$1,99.  Ironicamente, pouco tempo depois, descobri a existência de duas adaptações cinematográficas que me deixaram muito curiosa (a primeira é de 1966, dirigida por Jacques Rivette e a segunda é de 2013, dirigida por Guillaume Nicloux e com a Isabelle Huppert – de quem sou fã). Depois de ler, resolvi fazer um pequeno resumo do qual divido com vocês.

 Anna Karina como Irmã Suzanne, adaptação de 1966, dirigida por Jacques Rivette

Anna Karina como Irmã Suzanne, adaptação de 1966, dirigida por Jacques Rivette

– Sobre o livro: De acordo com o Prefácio, escrito por J. Guinsburg, o livro ‘A Religiosa’ nasceu de uma brincadeira que Diderot armou para o seu amigo, o marquês de Croismare. Diderot lhe mandou cartas forjadas fingindo ser uma jovem freira obrigada ao voto monástico contra a sua vontade. Nas cartas ele dizia ser uma jovem que não tinha ninguém no mundo que pudesse ajudá-la. Anteriormente o marquês (‘de bom coração’)  já havia movido um processo em paris por uma história semelhante, por essa razão o fato repercutiu por toda a cidade e Diderot resolveu ironizá-la. Com o passar do tempo o autor se envolveu com a narrativa epistolar, mergulhou no coração da personagem e se propôs (depois de revelar ao amigo a brincadeira) a descrever uma história que trazia  a tona as violências contra a natureza e a liberdade do ser humano bem como uma forte crítica às relações reinantes na vida monacal e as injustiças sócias que atingiam principalmente as mulheres.

Resumo:

A história é narrada em primeira pessoa e já nas páginas iniciais, Saint-Suzanne expõe seu drama: sente repugnância pela vida religiosa e precisa de um protetor que lhe defenda dos que querem a obrigar a voltar ao convento. Em formato de carta, ela relembra com exatidão todo o sofrimento que teve desde a juventude infeliz ao lado das irmãs à vida em completa solidão e clausura.

Quando pequena Saint-Suzanne recebia um tratamento diferenciado dos pais, sabia que era mais bonita e mais espirituosa do que as outras irmãs, mas sua mãe lhe fazia sentir feia e estúpida. Certas vezes, seu pai era violento e dizia que Suzanne não era sua filha. As três irmãs viviam em harmonia até que a mais velha ficou noiva. Suzanne relata que percebeu os olhares interessados do pretendente da irmã e para não criar desentendimentos, pediu aos pais que fosse afastada da casa.

Arrumaram-lhe uma vaga em um convento chamado Saint-Marie e após alguns dias, Suzanne tentou voltar ao lar, mas seus pais pediram que ela esperasse sua outra irmã se casar. O tempo foi passando e ela percebeu que todos por perto a incitavam a aceitar o hábito. Seus pais alegavam que não tinham como lhe dar um dote porque suas irmãs (agora casadas e com filhos) passavam por dificuldades. A madre superiora (a quem Suzanne adorava) dizia que ela tinha um coração bom e um espírito perfeito para ser freira.

A religiosa, livro Apesar das inúmeras súplicas, marcaram a data do seu juramento/ofício. Saint-Suzanne conta que pouco tempo antes da cerimônia, viu uma freira fugir da cela (completamente descabelada e sem roupas), ela buscava uma janela para se atirar e dizia que preferia morrer a ter que ficar presa naquele lugar. “Contaram-me a respeito dessa religiosa não sei quantas mentiras ridículas, que se contradiziam: que ela já tinha o espírito perturbado quando a receberam, que sofrera um grande susto em um momento crítico, que se tornara sujeita a visões, que acreditava estar em relação com os anjos, que fizera leituras perniciosas que lhe haviam tragado o espírito, que ouvira inovadores de uma moral desmedida que a tinham de tal modo aterrado com o julgamento de Deus, que sua cabeça ficara transtornada, que não via nada mais senão demônios, o inferno e abismos de fogo, que todas elas estavam muito infelizes, que era algo inaudito, visto que jamais houvera um problema semelhante naquela casa. Nada disso me impressionou, a todo instante, minha religiosa louca me retornava ao espírito e eu me renovava o juramento de não efetuar nenhum voto’’. 

No dia do seu voto religioso, chamaram vários membros da comunidade, a família de Suzanne estava presente, assim como a madre superiora e os diretores do convento. Durante a cerimônia, Suzanne não consentiu ao juramento causando grande escândalo. “As religiosas me rodearam e me acumularam de censuras. Eu as escutava sem proferir uma palavra. Conduziram-me para minha cela, onde me fecharam a chave”. Saint-Suzanne permaneceu por muito tempo sem ouvir nem falar sobre o que aconteceu até que um dia, a retiraram da cela e disseram que sua mãe precisava lhe falar.

Durante o encontro, a mãe de Suzanne lhe implorou que seguisse a vida religiosa e lhe confessou que ela não era filha do homem que chamava de pai. Sua mãe também lhe disse que tê-la em casa era uma grande humilhação e que estava completamente falida, pois suas outras filhas pegaram todo seu dinheiro. Suzanne relata a dor que sentiu ao ser renegada e apesar de deixar claro a mãe que seu maior desejo é estar em liberdade, aceita a vida religiosa.

Seu cotidiano no convento Saint Marie estava harmonioso, Suzanne era a religiosa preferida da Madre Superiora de Moni (uma senhora boa e compreensiva, de quem se tornou muito próxima). Ironicamente, a mãe de Suzanne e a Irmã de Moni morreram em um pequeno espaço de tempo. Seu pai também falecera. Suzanne recebeu uma carta de sua mãe onde ela dizia que tinha juntado suas economias (o que não era muito) e disponibilizado caso ela precisasse. Como estava enclausurada, Suzanne não conseguiu ter acesso ao dinheiro.

A madre superiora que substituiu a Irma de Moni se chamava Saint-Christine e conforme o relato de Suzanne possuía um caráter duvidoso, estava repleta de supertições e impunha exercícios e penitencias sobre o corpo a outras freiras. Suzanne logo se rebelou, influenciando as companheiras a não obedecerem Saint-Christine. A madre tomou aversão a todas que amavam a Irmã de Moni e todos os dias dava um escândalo. Pra castigar Suzanne por sua rebeldia, proibiu que as outras freiras conversassem com ela e condenou-a a passar semanas inteiras de joelho no ofício, separa do resto, no meio do coro, a viver de pão e água, a permanecer encerrada na cela e a cumprir as funções mais vis da casa.

Outras irmãs, as ‘favoritas’ da madre Christine também passaram a sabotar Suzanne. ‘É impossível, pra mim, entrar em todos os pequenos detalhes dessas malvadezas, impediam-me de dormir, de velar, de rezar. Um dia, roubavam-me algumas partes de meu vestuário, outra vês eram minhas chaves ou meu breviário, minha fechadura ficava entravada, ou me impediam de fazer bem as coisas, ou desarranjavam aquelas que eu fizera bem, atribuíam-me discursos e ações, tornavam-me responsável por tudo, minha vida era uma série continua de delitos reais ou simulados e de castigos.’

Pauline Étienne como Irmã Suzanne, versão de 2013

Pauline Étienne como Irmã Suzanne, versão de 2013

Com a ajuda de uma das Irmãs, Suzanne consegue um advogado. Mas o Sr Manouri, que fez de tudo para ajudá-la não conseguiu sua liberdade. Ao menos, prometeu a Suzanne que iria transferi-la para outro convento. Os dias de Suzanne ficavam cada vez mais pesados e tortuosos no convento, um dia tentaram exorcizá-la, alegando que estava endemoniada. Suzanne ficou doente, pegou um febre terrível e quase morreu. Finalmente o Senhor Manouri conseguiu chamar a atenção das autoridades eclesiásticas, que julgaram procedentes as acusações. A madre Christine sofreu as devidas sanções e Suzanne foi transferida para outro convento: o Saint Eutrope.

No outro contento tudo era diferente, as irmãs usavam roupas mais suntuosas, gostavam de cantar e dançar, comiam bem e pareciam muito felizes. Suzanne foi recebida pela Madre Superiora. que já no primeiro encontro deu indícios de quem era: “Na primeira noite, tive a visita da superiora, veio na hora em que eu me preparava para deitar-me. Foi ela quem tirou o meu véu e me despiu. Ela me dirigiu cem palavras doces e me fez mil carícias que me embaraçaram um pouco”.

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