Minha terra, minha vida.

Estou um pouco sumida do La Amora, muitas coisas estão acontecendo e com esse clima tão quente eu não consigo colocar as ideias em ordem. Vocês já devem ter reparado que algumas publicações estão incompletas e eu peço desculpa por isso (prometo deixar tudo direitinho).

Domingo passado (dia 22) aconteceu a famosa cerimônia do Emmy, a premiação da TV americana. American Horror Story foi a serie mais indicada ( concorrendo em 17 categorias) mas só levou dois dos prêmios, uma pena. Jessica Lange também não recebeu o prêmio por sua atuação como Sister Jude, o que me deixou bastante frustrada. Aproveitando a folga e dando sequência ao objetivo de comentar sobre os seus filmes, assisti ‘Minha Terra, minha vida’, filme de temática rural, que narra a saga da família Ivy pela luta por sua terra.

Acho importante chamar atenção para um detalhe, Jessica Lange se envolveu profundamente com a história de pequenos agricultores que, durante o período do governo Reagan, passaram pelas mesmas dificuldades narradas, a atriz tirou dinheiro do próprio bolso e ao lado de Richard Pearce, produziu o filme que lhe rendeu mais uma indicação ao Oscar (perdeu para Sally Field – que também estreava um longa com a mesma temática: Um lugar no coração).

A atriz participou de inúmeras palestras, realizou vídeos institucionais e não se importou em fazer publicidade para a causa. Lange dividia a cena com o então marido, Sam Shepard, mas é ela que domina o filme, personificando uma mulher forte e corajosa que prioriza a sobrevivência da família.

 jessica lange country

‘Minha Terra, Minha vida‘, conta a história da família de Jewell que possui uma pequena fazenda em Iowa há mais de cem anos. Dessa vez, ela e o marido Gil (Sam Shepard) são responsáveis pela administração do local, onde vivem com seus três filhos (um adolescente, uma garota, um bebê) e com Otis (Wilford Brimmley), pai de Jewell. Com o pouco rendimento que ganham, Gill resolve ir ao banco renovar o empréstimo e lá descobre que as regras de cobrança mudaram: o banco passou a exigir que os agricultores pagassem toda a dívida que tinham (acumuladas há anos) em apenas trinta dias. Para piorar, um tornado havia atingido a região deixando os fazendeiros em completa bancarrota.

As cenas iniciais do filme indicam qual será o foco da trama: o drama familiar. Jewell surge na cozinha de casa (que aliás, é um dos principais cenários – remetendo-nos diretamente ao espaço teatral) onde sua pequena filha Marlene mostra a camisinha que encontrou no quarto do irmão. O almoço em família e as festas na comunidade destacam o clima de equilíbrio e harmonia (mesmo depois do inesperado tornado que atinge o local). Com um cenário maravilhoso e uma bela fotografia, acompanhamos o árduo trabalho que todos os dias é feito pelos Ivy. É interessante um pequeno detalhe cenográfico que muitas vezes passa desapercebido:  a mesa aparece farta de comida (uma metáfora simples ao tempo de bonância).

Gill vai ao banco renovar o contrato de empréstimo e, mesmo percebendo um clima diferente, acredita na boa relação que tem com o gerente que conhece há mais de oito anos. Tudo cai por terra quando descobre que sua dívida será cobrada e executada em apenas trinta dias. Jewell, sabendo da condição financeira da fazenda, também tenta convencer o banco de manter o empréstimo e recebe uma resposta definitiva: ‘Não temos uma relação, temos um negócio’.  Percebe-se que a confiança que os agricultores tinham em relação ao banco era tão grande que, até então, eles nem se preocuparam  com os efeitos do tornado. De certa forma, esse comodismo é criticado por Otis, pai de Jewell que afirma:  ‘Não devíamos ter confiado no governo’, Jewell responde: ‘O governo é parte de nós’ e Otis contra-ataca: ‘O governo sabe que sem os agricultores ele não sobrevive’.

Fiquei sensibilizada com a produção e com o toque extremamente realístico com que abordaram a história: sem rodeios, com um respeito pelo diálogo e pela dimensão psicológica dos personagens. Lange aparece sem maquiagem, de rolinho na cabeça, com botinas e esquentando a comida no fogão. Shepard, com as unhas sujas, executa um trabalho pesado junto aos animais e a imagem de ‘artista de cinema’ praticamente desaparece, o que é no mínimo admirável.

É com o levantamento das contas (e a descoberta que estão completamente falidos) que reforçam o efeito catártico. Assim como os Ivy, seus vizinhos ficaram a ponto de perder tudo e tiveram que leiloar seus bens. Jewell, que provavelmente foi criada ali, vê seu amigo de infância se suicidar e deixar a mulher e o filho completamente desolados.

Jessica Lange

Diante das dificuldades, o relacionamento entre os membros da família Ivy torna-se cada vez mais tempestuoso, Otis culpa Gil pelo insucesso da administração. Gil começa a beber e fica agressivo com as crianças, o filho mais velho do casal se torna melancólico e os bens são leiloados. Jewell, que no início ficava escondida na cozinha e preocupava-se com os afazeres da casa toma a atitude que os outros não tiveram, começa a se unir aos agricultores e rebela-se contra o banco.

A dificuldade financeira chega para destruir a imagem idílica de uma família perfeita. ‘Minha terra, minha vida’ é um filme lindo e forte, que vale a pena ser visto e revisto diversas vezes: não só pela entrega artística dos protagonistas, mas também por trazer a tona um melodrama realístico e bem estruturado.

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