It Was always You, Ruth (parte 1)

(por Thais dos Reis)

Quando acordou de madrugada, sentada na cama e com os pés espaçados sobre o tapete macio, lembrou-se da última conversa que teve com a mãe. Na época, Ruth já tinha desistido de entender o que a motivara  ser uma mulher tão triste.  Foi naquele mesmo lugar, sentada sobre o tapete que ouviu a mãe dizer em tom de despedida: “Você foi o acontecimento mais feliz da minha vida”. O que doía em Ruth não era o fato de saber que a mãe mentia e sim, o fato de não poder culpá-la.  Balançando os pés sobre o tapete respirou com alívio por não tê-la mais por perto.

O quarto não estava escuro. A janela sem cortinas recebia a luz do poste.  Ruth olhou lentamente para as mãos e lembrou que estava envelhecendo (e pior, envelhecendo rapidamente).  Sem filhos e divorciada, se perguntava: “quem herdaria essa casa?”. A verdade é que aquilo já não interessava mais – as antigas memórias da família morreriam com ela. Então deitou-se novamente, ficou observando o telefone que estava na cabeceira da cama e teve uma vontade enorme de chorar. – A vida poderia ter sido mais gentil comigo. Ninguém ligou para Ruth naquele dia, ninguém a ligava a semanas, talvez há anos. Uma de suas principais preocupações era a de sempre se mostrar alegre, sempre sorridente. Algo estava acontecendo com Ruth, ela não conseguia controlar suas emoções, não conseguia fingir felicidade.

Um dia, voltando do trabalho, ouviu no carro uma música que há anos não escutava. Parou, aumentou o volume, fechou os olhos e se lembrou de tudo: exatamente como aconteceu. Naquela tarde, que fazia um calor tremendo, Ruth estava com dois meses de gravidez e esperava o bebê com ansiedade. Sentia-se ótima, pela primeira vez na vida estava realmente feliz. Ligou o som, tocava: ‘It was always you Helen’, uma das canções mais lindas que já havia escutado. Sentou-se na cadeira e ficou por algum tempo ouvindo, quando olhou para o chão viu uma poça de sangue que a cercava. Ficou inconsciente e já no hospital, lhe disseram que ela havia sofrido um aborto.

Júlio, que na época era seu marido, ficou muito triste. Sofreu mais do que ela. Ah! Como eu admirava quando ele cuidava de mim, quando me olhava firmemente e dizia: vamos tentar de novo, de novo e de novo! Ruth nunca engravidou. O casamento foi se desgastando com o tempo, não havia mais amor, um suportava o outro. Júlio já não era mais o mesmo, dizia coisas impetuosas, não tinha mais escrúpulos. ‘Você não serviu nem para ser mãe! Você é uma mulher incompleta, uma mulher seca’. Ruth nunca deixou aquelas palavras por menos: ‘Aquele aborto foi uma das melhores coisas que me aconteceu, eu teria nojo de ter um filho seu’.Ela sabia que aquilo não era verdade mas insistia em dizer. E diria quantas vezes fosse necessário para não ficar por baixo. Até que Júlio disse que tinha outra mulher, que tinha outros planos. Ruth não o culpou, deixou que ele seguisse seu caminho e que fosse feliz, ela também queria ser feliz.

Porque a gente fez tanta maldade um com o outro? Onde foi que deixamos os planos, a cumplicidade? Eu preferia que ele tivesse me batido, que tivesse arrancado todo o meu cabelo, que tivesse me deixado de olho roxo. As feridas do corpo se curam, as da alma não.

Desde aquele dia, desde o dia em que se sentou para ouvir aquela melancolia música a sua vida não tinha sido mais a mesma. ‘It was always you Helenera um aviso, Ruth recebeu um aviso de que a sua vida seria triste, triste como a sua mãe foi. E agora, ouvindo aquela melodia novamente no carro Ruth pensava no que mais poderia dar errado. Ela não tinha ninguém, não tinha nada. Ouviu toda a melodia, sentiu toda aquela sensação de medo e desproteção novamente. Ela não conseguiu ser mais a mesma. Quando estava com as amigas, não sorria como antes. Ruth não tentava ser agradável, não fingia sentir carinho, não gostava de sorrir. No começo lhe perguntavam: O que há com você? Aos poucos foram se afastando, todos eles.

Ruth pegou no sono, seu corpo estava perfeitamente encaixado na cama, seu espírito estava destroçado. Dormiu desejando não mais acordar. Acordou desejando não mais viver. Tocavam em sua porta, Ruth pensou muito antes de atender mas quando abriu viu que era Júlio. Posso entrar? O olhou de cima abaixo e se sentiu aliviada. Pode. Silenciosamente, os dois se encaminharam para a cozinha, sentaram-se na antiga mesa  de madeira que Ruth tanto odiava. Um do lado do outro.

A minha vida está uma merda Ruth, já pensei em me matar diversas vezes. Não tenho coragem. Eu não tenho com quem contar.

– Mas você tem uma mulher, não é isso? Não pode contar com ela?

– Não tenho mais. Estamos separados há anos.

– E porque só veio agora?

–  Eu não sei… mas eu estou aqui, não estou?

– Mas eu não estou Júlio. Só o meu corpo está aqui, como um fantasma. Eu não sou ninguém, eu morri há muito tempo e só agora me dei conta disso. Eu ouvi aquela música de novo.

-Ainda com esse papo Ruth? Você acredita mesmo que uma música arruinaria a sua vida?

– Era um aviso, eu estava sendo avisada de que algo ruim iria acontecer.

– O que de tão ruim aconteceu?

– Você bateu em minha porta.

– A minha presença é tão desagradável assim?

– O fato de você estar infeliz me deixa ainda mais triste, me dá consciência de que todos os nossos sacrifícios não foram válidos. Me faz duvidar da existência de Deus. Ao mesmo tempo, me sinto aliviada: eu não sou a única a levar uma vida fracassada e completamente infeliz.

– Volta pra mim Ruth?

Ruth, sentindo o cigarro entre os dedos pestanejou um pouco. Pegue suas malas, volte para casa.

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