26 de Junho de 1949

Não estou familiarizada com diários, mas confesso que hoje senti uma vontade enorme de escrever. Estou triste e me sentindo muito só, não tenho em quem confiar. Estou no fundo do poço, já não sou mais uma jovenzinha.  Meu nome é Jude Martin, ou Judy se preferir. Tenho 56 anos, não sou casada e não tenho filhos. Vivo há algum tempo nesse pequeno apartamento, nesse quarto abafado e escuro que quase não uso. As coisas pioraram desde que me mudei pra cá, antes eu trazia meus amigos, ficávamos até de madrugada fazendo festas, bebendo até cair – meus amigos foram sumindo aos poucos, se é que posso chamá-los de amigos.

DADASPasso a maior parte do dia dormindo, gosto da noite: vivo dela. Trabalho como cantora em um inferninho, conheci alguns homens interessantes lá (me apaixonei por alguns, me perdi por outros, estou viva por causa deles). Soldados, advogados, professores, todo o tipo de homem passa naquele lugar. É assombroso a forma que se portam: comem, bebem, transam e no outro dia se dizem homens de família, vão pra casa para impor ordem. Tenho pena das mulheres e dos filhos deles, da vida medíocre que provavelmente levam.

As coisas não estão bem, a verdade é que nunca estiveram. Vou fazer uma confissão: não consigo parar de beber. Bebo quando me sinto triste, para afogar as mágoas. Bebo quando estou alegre, para comemorar. Estou endividada, o dinheiro dos shows (e dos programas) não rendem para nada, sinto que querem roubar o meu lugar. A prima gorda do Terry sempre aparece nos ensaios, estão me pressionando, criticando a minha voz, falaram que estou desafinada.

Como odeio essas pessoas, esse lugar! A vida foi injusta comigo, eu merecia mais, muito mais!

Terry é um homem de cor, forte e viril. É ele quem comanda a banda, foi quem me convidou para ser a cantora e por algum tempo, deixei que fosse meu gigolô. Nossa relação não vai nada bem, ele se nega a se deitar comigo. Bill está estranho, sinto que algo está errado. Fiquei sabendo  de uma reunião da banda, uma reunião da qual não fui convidada a participar. Katherine (a garçonete) me contou que eles falavam baixinho pra ninguém ouvir. Gosto da Katherine, ela já trabalhava aqui quando eu cheguei, me ajudou a entender o funcionamento do lugar e me apresentou aos clientes.

Tenho que descer para o bar. Escolhi o meu melhor vestido (aquele vermelho), também arrumei as unhas e o cabelo, quero que tudo saia perfeito. Não quero que Bill tenha motivos de reclamação, preciso desse emprego. Será que ele vai sentir o cheiro da bebida? Se ele perceber que bebi estou perdida.

Ass. Jude Martin.

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2 thoughts on “26 de Junho de 1949

  1. Fernanda Pera diz:

    Você escreve muito bem, consigo claramente ver a Judy escrevendo cada linha desse diário. Achei muito bacana você começar no ano de 1949, super ansiosa para ver como as coisas irão proceder. Adoro a Sister Judy ❤

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