O que terá acontecido a Baby Jane?

Tenho medo de escrever sobre clássicos, sinto que a maioria do que poderia ser abordado já foi explorado exaustivamente. Com “O que terá acontecido a Baby Jane” não é diferente, há inúmeras análises, releituras e várias interpretações sobre o longa. Não é pra menos, Baby Jane é um dos filmes mais interessantes que existem.

Antes de escrever sobre ele e sobre todas as coisas que já li, tenho que ressaltar que esse é um dos meus filmes favoritos. Lembro-me perfeitamente da primeira vez que o vi: o filme passou de madrugada em um canal aberto da TV e eu tive uma súbita paixão por Joan Crawford (e por suas sobrancelhas grossas). Foi com aquelas mulheres estranhas que apareciam na tela que eu finalmente entendi: “É de cinema mesmo que eu gosto”. Passei a pesquisar sobre elas, comprei livros e colecionei (e ainda coleciono) seus trabalhos.

Pra mim não existe filme que se iguale a ele, há um clima de decadência e disputa, além de um registro sarcástico da vida artística, da insanidade e do rancor.

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Baseado no livro de Henry Farrell (leia mais sobre ele aqui: Indiscreet Talkin), o filme conta a história de duas velhas irmãs que vivem em uma mansão em Hollywood.  Jane (Bette Davis) foi uma estrela mirim que caiu em esquecimento e que cuida de sua irmã Blanche (Joan Crawford) que também foi atriz quando jovem, mas sofreu um acidente que a deixou paralítica.

As duas vivem uma interminável disputa (que só veio a piorar depois do acidente, já que Jane foi considerada suspeita). Enquanto Blanche não apresenta boas condições físicas, Jane é alcoólatra e mentalmente instável. Baby Jane se transformou em uma figura grotesca que vive em uma realidade paralela, distorcida – li em um artigo que a personalidade de Jane indica a possibilidade de ela ter sido abusada sexualmente quando criança, talvez e provavelmente, pelo pai.

A trama inicia-se em 1917 e o diretor nos situa sobre o clima de disputa entre as duas que desde muito jovens sentem inveja uma da outra. A pequena Baby Jane Hudson se apresenta em um teatro lotado onde, perto dali vendem suas bonecas. Enquanto isso, observando os bastidores, Blanche sofre pela desatenção do pai e garante que um dia se vingará da irmã. Depois, em 1935, acompanhamos a decadência de Jane que só consegue papéis em filmes por causa de Blanche, que se tornou uma atriz de sucesso.

A abertura (que é genial) ilustra o acidente e nos contextualiza sobre a tragédia que se abateu sobre Blanche, que ficou paralítica. Já em 1962, temos  um retrato dos efeitos do tempo sobre as duas: enquanto Blanche vive enclausurada em seu quarto e é impedida de receber o carinho dos fãs, Jane está cansada de cuidar da irmã e aproveita-se do seu dinheiro para tentar voltar a fazer sucesso.  Jane comete várias barbaridades com Blanche (em uma famosa cena, por exemplo, lhe serve ratazana no jantar). A ação se torna completa com quatro importantes coadjuvantes: Elvira (Maidie Norman, a empregada), Edwin (Victor Buono, o pianista), Mrs Bates (Anna Lee, a vizinha) e Barbara (a filha da vizinha – na vida real, filha da Bette Davis).

Loucura, humor negro e perversidade

Apesar de todas as dificuldades, de algumas falhas no roteiro e problemas durante a produção Robert Aldrich (que aliás, teve uma importante participação no movimento “noir”) acertou na loteria e acertou em cheio – tanto que depois tentou usar a mesma fórmula sem êxito.  Quando começou a ser produzido, “Baby Jane” (classificado por muitos como um filme B) aguçou a curiosidade dos que não acreditavam que Aldrich conseguiria juntar Davis e Crawford no mesmo filme. Tudo isso por um simples motivo: Bette e Joan foram inimigas durante anos.

Joan Crawford trabalhou com Robert Aldrich em 1956 no filme “Folhas de Outono” e já tinha uma boa relação com o diretor. Em entrevistas, ele deixou claro que Crawford havia expressado o desejo em participar de um filme com Davis. Para Aldrich foi mais difícil convencer Bette a participar de Baby Jane, não só porque ela iria contracenar com a grande inimiga, mas porque seu papel era pouco atrativo e a colocava em uma situação arriscada. Davis percebeu a importância do personagem e acabou abraçando a ideia.  É interessante observar que, apesar do sucesso de filmes como ‘Crepúsculo dos Deuses’ ou ‘Uma Rua Chamada Pecado’ a abordagem de transtornos psiquiátricos em filmes não era comum na década de 60.

O sucesso do filme não se deu apenas pela famosa briga entre as protagonistas, há aspectos técnicos que merecem atenção e que muitas vezes passam despercebidos. Aldrich priorizou o universo feminino, os poucos homens que aparecem em tela possuem um papel secundário. A histeria das mulheres é explorada já nas cenas iniciais quando Baby Jane implora por um sorvete e Blanche se nega a aceitá-lo (o pai não possui voz ativa e cede aos desejos da filha mais nova). Já em 1962 o pianista é um agente passivo diante das decisões da mãe que o obriga a trabalhar com Jane e o convence a tentar tirar proveito dela.

As vizinhas e a empregada reforçam o “cast” e acentuam o clima de desconforto e disputa. Enquanto Bárbara e a mãe são fofoqueiras e ficam atentas, espiando as ações de Jane, Elvira (a empregada) está dentro da casa mas não toma nenhum atitude (e paga um preço caro por isso).

Bette Davis Baby Jane

O que terá acontecido a Baby Jane possui um incrível trabalho semiótico. Que vai tanto do cenário, gótico e melancólico, até as roupas. Aldrich foi incrivelmente sábio em relação a construção do cenário. A casa dos Hudson faz parte da narrativa e possui características fundamentais para o desenvolvimento da trama: primeiro, é enorme acentua a sensação de solidão e de medo, segundo, é fria e escura, personifica o clima de terror, de fobia. 

O figurino também é um “detalhe” fundamental. Jane, apesar da maquiagem sombria, veste roupas claras. Blanche, em contraste, usa roupas escuras, está sempre com o cabelo preso. Como sabemos, Jane sempre foi uma garota mimada, mas o primeiro instinto assassino partiu de Blanche. Enquanto Jane possui uma personalidade infantil, explosiva, Blache possui auto-controle, é polida.  É como se Aldrich mandasse uma mensagem subliminar, deixando logo de cara que há uma possível inversão de valores.

Bette Davis x Joan Crawford

1962 - Bette Davis e Joan Crawford em reunião com os produtores de "O que terá acontecido a Baby Jane?"

1962 – Bette Davis e Joan Crawford em reunião com os produtores de “O que terá acontecido a Baby Jane?

Hoje de manhã estive pensando em um termo que pudesse definir a situação das duas em 1962 e não encontrei nada mais apropriado do que: “humilhação”. Elas já não tinham uma posição de poder nas filmagens e quase imploravam por um emprego. Na época, Jack Warner se negou a liberar um estúdio para as gravações e ainda disse que não iria ajudar duas “velhas”.  Crawford e Davis se odiavam, mas aceitaram trabalhar juntas por necessidade, o que de alguma forma é bastante irônico e triste porque foram ridicularizadas.

Pouco se sabe sobre como e onde essa briga começou, alguns dizem que nem elas sabiam. Acontece que essa rivalidade levantou inúmeras teorias (eu juro, já li tanta coisa que não sei em quê acreditar!):  Dizem que Davis tinha inveja de Joan, que era uma mulher linda. Dizem que Joan tinha inveja de Davis, que era muito talentosa. Que Joan estava apaixonada por Davis. Dizem que Joan e Bette se apaixonaram ao mesmo tempo por Franchot Tone. Que brigavam por suas produtoras, Bette era a grande estrela da Warner e Joan, da MGM.

A rixa era antiga, por muitas vezes Bette Davis afirmou que Joan Crawford só conseguia bons papéis porque dormia com os diretores, em contrapartida Crawford dizia que Bette não tinha talento e era cheia de maneirismos. Bette, que tinha a língua afiada afirmou: “Joan dormiu com todos os astros da MGM, com exceção de Lassie.” / “Se Joan Crawford estivesse em chamas eu mijaria nela para apagar o fogo” / “Por que sou tão boa interpretando vilãs? Talvez porque eu não seja uma vilã. Talvez por isso a Joan Crawford sempre interprete mocinhas.”

joan crawford e Bette DavisA tensão nos bastidores começou logo nos primeiros dias quando Joan Crawford reclamou do camarim que era muito pequeno e ficava próximo ao lixo. Bette desconfiava que Joan dormia com Aldrich e soltava a notícia para toda a equipe. Há boatos de que Joan mandou inúmeros presentes a Bette enquanto estavam filmando e que Bette negou todos, indisposta a qualquer tipo de trégua.

Para mexer com Joan (na época, esposa do diretor da Pepsi Cola), Bette mandou instalar uma máquina de Coca Cola no set, também deu uma entrevista onde dizia que Joan se encaixava perfeitamente no papel de Blanche e que não seria capaz de interpretar um personagem tão grandioso quanto Baby Jane.

Joan não queria fazer cenas de corpo a corpo com Bette porque acreditava que ela poderia machucá-la de verdade, por isso custava a entrar no clima e deixava Davis impaciente (as cenas em que Jane bate no rosto de Blanche demoraram a ser filmadas porque Joan não se sujeitava a Davis). Há quem afirme que Davis realmente chutou a cabeça de Joan em uma das tomadas e que Joan não deixou barato. Davis tinha um sério problema na coluna e em uma das cenas precisava carregar Joan. Bette insistiu para que Joan não fizesse ‘peso morto’ e a ajudasse. Joan não só fez peso morto como também colocou alguns objetos no bolso. Depois de gravar a cena, Davis gritava de dor e precisou ser internada.

Bette Davis e JoanUm dos casos famosos envolvendo as duas deu-se na premiação do Oscar daquele ano. Bette Davis recebeu uma indicação e Joan, não.  É claro que Joan não se conformou com isso e ligou para cada um das outras indicadas, entre elas, Anne Bancroft (que concorria 1963_Joan Crawford Oscarpor ‘O milagre de Anne Sullivan).  Bancroft não podia ir ao evento e concordou em deixar que Joan Crawford a representasse. Ironicamente, Bancroft ganhou o Oscar e Joan subiu ao palco e fez um lindo discurso de agradecimento, na plateia: Bette Davis, roendo as unhas de raiva. Como muitos dizem, ‘naquela noite, Joan saiu vitoriosa.

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