A Onda

“O mal-estar da pós-modernidade” é o primeiro livro de Zygmunt Bauman que leio. Aliás, ainda estou no primeiro capítulo e algumas das reflexões realizadas na segunda parte, intitulada: ‘A criação e anulação dos estranhos’ me remeteu ao filme A onda (produção de 2008, drigida por Dennis Gansel).

Baseado em fatos reais (ocorridos na Califórnia em 1967), A onda conta a história de Rainer Wegner (interpretado por Jürgen Vogel), um professor de ensino médio que precisa dar aula de autocracia, mas que não gosta do tema e percebe um desinteresse por parte dos estudantes. Como solução, sugere que o grupo faça um experimento prático sobre as dimensões e mecanismos do fascismo e cria, junto aos alunos, um movimento intitulado ‘A Onda’.  O movimento basea-se na força pela disciplina e Wegner torna-se o líder, impondo ordens que devem ser seguidas dentro da sala. A Onda entusiasma os alunos que passam a propaga-la pela escola, pela internet e até pela cidade: quem não concorda com as regras é automaticamente excluído. O que era para ser apenas um exercício foge do controle de Wegner e quando ele tenta interrompê-lo, percebe que o movimento está muito mais forte do que ele imaginava.

Imagem

Wegner pede que os alunos enumerem as principais características de uma autocracia e em resposta eles dizem: “são iguais a de uma ditadura”. O professor então responde: ‘Sim, mas não só isso, a autocracia acontece quando um indivíduo ou um grupo dominam sobre uma massa”.  Auto deriva do grego e significa si, Kratia significa governo/poder. Em sala eles concluíram que autocracia acontece quando um grupo concentra tanto poder em suas mãos que pode alterar leis como e quando bem entenderem. O principio básico dessa forma de governo é: a ideologia, o controle e a supervisão. Além disso, vários fatores facilitam o surgimento da autocracia, entre eles: alto desemprego, injustiça social e alta taxa de inflação. Wegner diz que toda a autocracia precisa de um símbolo de identificação e de um líder, em pouco tempo, A Onda possui não só um símbolo, como também um ‘comprimento’ e um uniforme.

Wegner pede que os alunos usem, a partir daquela data, uma camisa branca e divide entre eles algumas funções: criar o símbolo, uma página na internet e frases de identificação. A abordagem sobre os uniformes logo me lembrou o texto de Bauman quando ele cita Elias Canetti e diz o seguinte:

“Em algum momento do nosso século se tornou comum à compreensão de que os homens uniformizados devem ser mais temidos. Os uniformes eram o símbolo dos servidores do estado, essa fonte de todo o poder e acima e de tudo do poder coercitivo ajudado e favorecido pelo poder que absolve da desumanidade. Envergando uniformes, os homens se tornam esse poderem nome do estado. O estado que vestiu homens de uniforme, de modo que estes pudessem ser reconhecidos e instruídos para pisar, e antecipadamente absolvidos da culpa de pisar, foi o estado que se encarou como a fonte, o defensor e a única garantia da vida ordeira: a ordem que protege o dique do caos.”

Karol, uma aluna aplicada de Wegner, percebe que o movimento está tomando dimensões inesperadas e pede que o professor pare com o projeto. Ela nega-se a ir de uniforme às aulas e não concorda em divulgar o símbolo da Onda. Intencionalmente, Wegner – cumprindo o papel do líder – passa a ignorar Karol, não responde a suas perguntas nem deixa que ela opine nas discussões da sala. Karol torna-se alvo da fúria dos outros alunos (influenciados pela postura do professor) que a enxergam como uma traidora. Sobre a ação punitiva aos que transgridem as ordens, Bauman realiza uma complexa metáfora entre o desejo humano de atingir a pureza e a anulação dos estranhos. Para o autor, não importa qual a espécie de sociedade, cada uma delas produz sua própria espécie de estranhos.

“Se os estranhos são as pessoas que não se encaixam no mapa cognitivo, moral ou estético do mundo – num desses mapas, em dois ou em três, se eles, portanto, por sua simples presença, deixam turvo o que deve ser transparente, confuso o que deve ser uma coerente receita para a ação, e impedem a satisfação de ser totalmente satisfatória,se eles poluem a alegria com a angústia,  ao mesmo tempo que fazem o atraente o fruto proibido, se, em outras palavras, eles obscurecem e tornam tênues as linhas de fronteira que devem ser claramente vistas, se, tendo feito tudo isso, geram a incerteza, que por sua vez dá origem ao mal-estar de se sentir perdido – então, cada sociedade produz esses estranhos. Ao mesmo tempo que traça suas fronteiras e desenha seus mapas cognitivos, estéticos e morais, ela não pode senão gerar pessoas que encobrem limites julgados fundamentais para a sua vida ordeira e significativa, sendo assim acusadas de causar a experiência do mal-estar como a mais dolorosa e menos tolerável”

A ONDA

[Spoiler!]

Como disse anteriormente, a situação foge do controle e os garotos passam a veicular mensagens de ódio aqueles que não fazem parte do movimento. Um dos estudantes, o mais entusiasmado com a ideia de um novo ‘nazismo’ não aceita o fim da Onda e ameaça matar o professor. É interessante observar que o próprio professor estava imerso naquele jogo perigoso e não queria, mesmo aos pedidos da mulher e do diretor, acabar com a Onda. Percebendo que não havia mais nada o que fazer, Wegner se reúne com os alunos e determina o fim da ‘brincadeira’.  O aluno – aquele mais entusiasmado, se suicida.

A trama nos chama atenção para vários aspectos, não é atoa que existem inúmeros artigos e publicações a respeito. Ele incita a reflexão sobre a figura do professor (e de sua influência) em sala de aula e também nos faz pensar sobre o quanto somos envolvidos em discursos atraentes (seja do governo, da mídia…).

Indico dois sites que eu gosto muito e que fizeram ótimas críticas sobre o filme:

Crítica daquele Filme

Revista História

REFERÊNCIA: O mal estar da modernidade/ Zygmunt Bauman; tradução Mauro Gama,  Claudia Martinelli Gama: revisão técnica Luís Carlos Fridman – Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed. 1998

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One thought on “A Onda

  1. Jessica diz:

    Oi, Thaís! Imagina, que nada, meus textos não nada interessantes perto dos teus. Os meus parecem uma eterna chacota de alguma coisa, parece que as vezes não consigo me levar a sério. Espero poder dizer tudo que quero nessa caixa de comentários, rs.

    Primeiramente: adorei os novos gifs do seu blog. Adoro a Joan nesse filme, Humoresque. A cena em que todos os homens da festa querem acender seu cigarro é demais, ela foi inspirada em uma cena de algum filme com a Tallulah Bankhead. E o que dizer de Jessica e Baby Jane? Gosto muito dessa cena da Jessica em AHS, ela sabe fazer umas caras tão blasés e sexys, né?

    Tem horas que gostaria de ver “A onda” e teu post só me deixou ainda maus curiosa! Esses dias eu vi aquele filme alemão de propaganda, “O triunfo da vontade”. Nossa, é assustador enxergar a força de um líder e do totalitarismo. O pessoal fica ovacionando e gritando “Heil, Hitler!” durante horas. O filme quase não tem diálogos, acho que ele atua muito mais no poder da imagem, de você ver todas aquelas pessoas desfilando pelas ruas e ovacionando Hitler. Essa noção de grandeza.

    Olha, seu livro da Joan é igual ao meu! Ele é maravilhoso, embora eu tenha ficado incomodada com o fato de o autor descer a lenha na Bette Davis. Parece que não se pode gostar das duas, tem que odiar uma delas, hahaha. As fotos são lindas, algumas coloridas, coisa rara quando a gente fala em Joan. O autor conheceu a Joan também, é muito legal ele contando a experiência. Acho que tu vai gostar! 😀

    Sobre a Tina: também tenho um pouco de pena dela. Porque a vida inteira ela viveu desse livro. O único talento dela foi escrever essa mentirada, já que pra atriz nós sabemos que ela não prestou. Tneho curiosidade em ler o livro que a filha da Bette escreveu. Dizem que é no mesmo nível de Mommie Dearest. Já pensou? Acho que as estrelas não deram sorte com as filhas 😦 a Bette morreu de desgosto depois que a B.D escreveu o livro. Verdade ou não, eu acho que devemos respeitar quem nos alimentou, ensinou a falar, aquela coisa toda. Me incomoda essa ingratidão muito mais que saber se é verdade ou não as acusações.

    O que achou do episódio 3 de AHS? não falarei do quarto porque ainda não vi, rs. O que foi a Jessica matando a Madison, Meu Deus?! Nesse episódio eu deixei de lado minha implicância com esse foco na questão da idade da Fiona, achei que deu para entender melhor o porquê de ela ser assim. Estou esperando ansiosamente a Francis Conray aparecer novamente, tu gosta dela? Achei demais a aparição dela no primeiro epi, com aquele cabelo vermelho armado, parece uma atriz francesa que gosto, a Sabine Azéma.

    Tu é minha alma gêmea e não me disse, guria?

    Porque:

    1. eu também tive uma época viciada em novelas mexicanas e agora voltou;
    2. SIM, também amo a Jacqueline Andere, embora só tenha assistido “A madrasta” e “A outra” com ela. Eu fiquei sabendo esses tempos que ela é mãe da atriz que interpretou a Stephanie em “A usurpadora”, como assim?!
    3. A Victoria Ruffo é maravilhosa, também acho que ela é uma mulher LINDA! E é uma beleza diferente, algo mais palpável, sabe? Deve ser porque ela é uma das poucas atrizes que não tem o rosto ossudo, mas redondo, Aqueles olhos verdes…. nossa! Estou assistindo no Netflix a uma outra novela que ela fez: Victoria. Essa é colombiana e tem uns personagens ótimos! Parece que não tem tanto dramalhão.
    3. Helena Rojo ❤ ela é uma linda!

    Depois desse longo discurso, acho que terminarei meu comentário, né.
    Tu compra pela Internet? Eu comprei meus livros sobre os quais falei no post em um site americano (todos são biografias, uma delas é da Joan), caso tu se interesse: http://www.betterworldbooks.com

    5 livros por 30 dólares *-* e tem muita biografia (Bette e Joan, por exemplo!)

    Beijos,
    Jessica

    ps: vou ver se leio teu post sobre Baby Jane ainda hoje.

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