Carrie, a estranha

A nova versão de “Carrie, a estranha” foi um dos filmes que mais esperei esse ano. Tive a oportunidade de assisti-lo ontem e apesar das poucas surpresas, saí da sala satisfeita. Dirigido por Kimberly Peirce (Os meninos não choram), o longa faz uma releitura do famoso romance escrito por Stephen King (em 1974) e traz Chloe Moretz e Julianne Moore nos papéis principais.

Carrie ChloeA trama conta a história de Carrie White, uma adolescente introvertida que sofre perseguições na escola e é reprimida pela mãe (uma religiosa extremista). Durante o colegial, Carrie passa por inúmeras situações constrangedoras e sofre  com o deboche dos colegas que não compreendem seu comportamento. Não bastasse a desconfortante situação, Carrie descobre que possui poderes telecinéticos.

King escreveu Carrie quando tinha apenas 26 anos. Diz a lenda que ele quase desistiu de publicá-lo, mas foi impedido por sua esposa. Em 1976, Brian de Palma se interessou em filmá-lo; na época King recebeu apenas 2.500 dólares pelos direitos do filme, mas acreditava que estava com sorte por esse ser seu primeiro livro.

Brian de Palma escolheu para o papel principal a Sissy Spacek, na época uma atriz desconhecida. Para o papel de Margareth, Piper Laurie – que assim como Spacek – recebeu uma indicação ao Oscar. O filme, que foi um estouro, contava com outros atores principiantes, entre eles: Amy Irving, John Travolta e William Katt.

Um remake desnecessário

Sou apaixonada por Julianne Moore e espero que seus fãs não me levem a mal, mas a nova versão de “Carrie, a estranha” não supera, de forma alguma, o trabalho de Brian de Palma. Como disse anteriormente, é um bom filme… mas desnecessário. Pra começar, Chloe Moretz (que é uma ótima atriz, grande promessa) não é uma garota estranha, não tem maturidade para o papel e não convence. A pequena, que aliás – é linda – faz caras e bocas e exagera em momentos que sugerem introspecção. Angela Bettis (que interpretou Carrie, em 2002) e Sissy Spacek levam todo o mérito, estavam perfeitas.

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[ Aliás, só pra constar, adoro o jeito que a Angela Bettis entorta os olhos quando Carrie começa a desenvolver seus poderes. A atriz, que é realmente estranha, sabe a medida certa do personagem e nos faz ter dó e medo ao mesmo tempo. ]

A versão de 2013 tem os efeitos tecnológicos a favor e faz com que o filme fique mais dinâmico, mais surpreendente – o que é uma vantagem, mas não o principal. Além disso há um acréscimo a história, as redes sociais. Quando Carrie menstrua pela primeira vez e passa pelo vexame público, suas colegas não só debocham dela como também publicam o vídeo na internet, gerando uma onda de cyberbulling.

As diversas faces de Margareth White

ImagemJulianne Moore impressiona desde a primeira sequência em que aparece em cena. Aos berros e completamente ensanguentada, Margareth acredita que está morrendo de câncer quando na verdade está dando a luz a uma menina. É admirável a maneira em que Kimberly Peirce consegue nos fazer perceber, já no início do filme, o fanatismo dessa mulher que ao se deparar com o bebê se questiona se deve entregá-lo ou não a Deus. O nascimento de Carrie (que não é tão bem explorado nas outras duas versões) é, sem dúvidas, um importante aspecto que nos faz compreender a complexidade dessa relação desde o ponto de partida. No longa de 2002 a passagem do nascimento é muito rápida e a Patrícia Clarkson já aparece com o bebê no colo, sem nenhum tipo de diálogo.

Piper Laurie traz uma Margareth intensa, que fala alto e às vezes até exagera em suas ênfases. É a típica religiosa fervorosa. A atriz explora não só a alma do personagem como também o seu corpo, o que permite que a Margareth da primeira versão seja muito mais teatral do que as outras. É engraçado porque o aspecto de Laurie, com aqueles cabelos vermelhos e volumosos, dá ao personagem uma certo mistério e sensualidade que falta nas outras versões. Enquanto Moore e Clarkson optaram por uma Margareth mais introspectiva, Laurie faz com que Margareth pareça mais lunática, mais cruel e assustadora – e que quase tem orgasmos enquanto reza.

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A versão de 2002 apresenta uma Margareth menos violenta do que as outras, ela não tem o costume de bater na filha, a tortura é muito mais psicológica do que física. Clarkson também não apresenta as características mais marcantes da Margareth: os cabelos desgrenhados e o autoflagelo. Apesar disso, Clarkson é perfeita para o papel, em nenhum momento duvidamos do seu fanatismo e de sua crueldade. Ela constrói uma Margareth observadora e silenciosa. Moore também segue essa linha, mas é mais materna e protetora do que as outras.

Uma das coisas que mais me agradou na última versão é que fica muito claro que Margareth é uma mulher doente e sádica. As passagens em que Moore se autoflagela (bate a cabeça na porta, arranha o braço e corta a perna) mostra o quanto ela é insana e perigosa. Moore está muito menos caricata do que Laurie e nos permite imaginar que Margareth poderia ser uma mulher qualquer, uma pessoa comum, morando ao nosso lado, frequentando os mesmos lugares que a gente e passando desapercebida.

ImagemSobre a morte da Margareth, apenas uma observação: nada se compara com a cena do primeiro filme. A versão de 2002 e a de 2013 possuem a tecnologia e os efeitos de vídeo a favor, mas o de 1976 não é só mais denso como também mais obscuro. Em 2002, a Margareth morre de um ‘infarto’ provocado por Carrie, o de 2013 é mais fiel e Margareth morre esfaqueada. Em 1976, Margareth – depois de tentar assassinar a filha, também morre esfaqueada e fica pregada na parede em uma posição que parece com Jesus Cristo crucificado, mas Laurie não apenas atua, ela dá um SHOW! É difícil exprimir a intensidade da cena, a forma em que ela se regozija enquanto morre. A cena é maravilhosa e não é atoa que se tornou clássica.

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