é tudo verdade…

Sentou-se e disse que estava tudo bem, que íamos embora depois de que os problemas fossem resolvidos. Problemas não se resolvem assim, palavras não são suficientes e o tempo não para.  “A vida é uma só”, eu dizia. “Vamos embora enquanto estamos jovens”.  Alguma coisa me preocupava quando eu olhava pra ela, seus olhos estavam cansados, tristes. Ela tentava fingir que estava bem enquanto – tudo – ao redor despedaçava. Bêbado, mais uma vez (e quantas fossem possíveis). “Eu não quero que ele morra”. “Eu também não quero, mas o quê vamos fazer? Prendê-lo? Torturá-lo?” Quem o olha agora, magro, confuso, ridículo…quem o olha agora provavelmente não conseguirá se lembrar da pessoa que ele era, engraçado, forte, inteligente. A bebida te tirou tudo, a família, os amigos, a dignidade.

Charles Bukowiaski

Charles Bukowiaski

Um dia, já embriagado, ficou no sofá da sala (com um cheiro horrível de suor e bebida), ficou lá por horas. Falava sozinho, falava coisas que ninguém entendia, fazia junções sem sentido e olhava fixamente para a parede como se alguém estivesse ali. Ele era um gênio, uma pessoa inteligentíssima, desenhava como ninguém. Às vezes eu olhava pra ele e me lembrava de Bukowski, depois me dava conta de que o velho Buk deixou uma obra admirável, ele não… ele deixou o estrago, deixou todo mundo cansado, sem fôlego, sem chão.

Não foi por querer, eu juro que não. Mas eu confesso que um dia eu cheguei a desejar que ele morresse, que ele parasse de deixar nossas vidas mais tristes, mais pesadas. Pouco tempo depois, talvez uma semana, o vi deitado na cama, com os olhos esbugalhados, soltando sangue pela boca. Chamávamos seu nome e ele não respondia, não se movia. Toda aquela cena era muito feia, meu coração estava saltitando, o quê eu poderia fazer? Ele foi socorrido, melhorou pouco tempo depois, disseram que ele teve uma convulsão. Prometeu não beber mais um gole sequer. Na outra semana já estava bêbado de novo, caído no chão, na rua – no meio da rua.

Hoje ele bebeu até não poder mais, bebeu até não conseguir levantar do chão.  Chegou em casa carregado por uma vizinha. Tão magro, tão diferente. Me chamou pelo nome e pediu para que eu o ajudasse a caminhar até o banheiro. Me deu uma tristeza tão grande, minha cabeça voltou há anos atrás, quando eu era pequena. Ele nos levava (eu e a meus primos)…ele nos levava para passear às vezes, caminhávamos por um caminho arborizado, cheio de terra e pedras. Eu sempre ficava pra trás e ele sempre me dava a mão, me ajudava a me equilibrar. Os meninos subiam na árvore, eu não conseguia então ele me carregava. Eu tinha um medo tremendo do escuro (às vezes, ainda tenho) e eu pedia: “Tio me dá a mão?”. E ele nunca negava…

 “Me ajuda ir até o banheiro?”. “Claro, tio”.

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