Viver é ir desvivendo

Com o corpo mole e os olhos pesados,  Eleonora passou o dia chorando a ausência. Chorou porque os que amavam não estavam mais lá. Chorou porque há muito tempo só sentia o vazio. Não havia felicidade nem tristeza, nem dor ou prazer. Apenas ausência. Quis morrer, desistir, sumir por uns dias ou talvez para sempre. Não o fez. Levantou porque apesar do “não sentir”, alguma coisa a impelia de continuar. Recebeu uma ligação logo pela manhã. O cara da operadora insistia em lhe vender um pacote de canais para a TV. “Não vejo TV, nem tenho uma” e voltou a chorar. O homem do outro lado da linha se desculpou e assustado, prometeu não ligar mais.

O café tinha gosto de lágrimas, o nariz entupido e os olhos caídos a fizeram parecer ainda mais exausta. “Viver é ir desvivendo”, lembrou-se da frase que encontrou em um livro, um livro qualquer. Pegou um post it cor de rosa, escreveu a frase e colocou no espelho do quarto. Saiu de casa porque precisava de ar fresco, precisava ter certeza de que, apesar de tudo, ainda estava viva. Da janela percebeu que o dia estava sem cor, que o barulho dos carros e da buzina era o único som que se permitia escutar, os carros em movimentos rápidos e bruscos pareciam lhe dizem: a vida pulsa.

Caminhou pelo passei, ficou por um momento esperando o sinal. Do outro lado, uma mulher com sorriso torto no rosto, parecia que queria esconder a felicidade que guardava dentro de sí. Abaixou a cabeça, tentou fingir que não tinha reparado naquela energia positiva que saia dela. Finalmente, no parque. Tirou os sapatos, sentiu a grama macia, deitou-se. Antes de fechar os olhos pensou: Deus, me ajude a esquecer esse dia.

ImagemUm explosão de felicidade injustificável, única e repleta atingiu o seu peito. Tentou esconder o riso, mas a boca – como se tivesse vida própria – moveu-se para o lado direito, deixando as bochechas com uma pequena covinha. De repente, a sensação que parecia sem importância foi tomando conta do seu corpo, deixando as mãos e os pés mais quentes e os olhos cheio de lágrimas (lágrimas de felicidade, que fique claro!). Então, pegou os sapatos e os jogou bem longe.

Saiu de casa sem se importar em ver ou em ser vista, estava bem e isso era suficiente. Descalço, sentiu as pedrinhas do chão do passeio, a aspereza do asfalto, a maciez da grama. Deitou-se embaixo de uma árvore onde sentia uma brisa leve e ouvia o barulho das folhas. Nunca na vida se sentiu tão em paz como agora. Poderia morrer aqui, passar os meus dias nesse lugar! Começou a refletir sobre o amor, sobre a sorte, sobre a juventude… Estou viva e amo essa ideia, mesmo que viver signifique ir desvivendo.

Eleonora levantou-se, pronta para ir pra casa e mais satisfeita do que nunca, caminhou em direção ao lar. Parou para esperar o sinal e do outro lado da rua uma mulher com um ar de desânimo, com os olhos inchados também esperava para atravessar. Teve dó dela, sentiu pena, se pudesse dividiria toda sua felicidade. Passou por ela com os olhos baixos, fingindo não percebê-la ali. Finalmente em casa, sentou-se na sala e pensou: Obrigada Deus, por esse dia.

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