Clube de Compras Dallas

Ron Woodroof (interpretado por Matthew McConaughey) é um texano heterossexual, conservador e homofóbico que, após um acidente no trabalho, é internado em um hospital e descobre ter AIDS. O filme, dirigido por Jean-Marc Vallée, acompanha Woodroof durante os processos da doença e mostra como ele travou uma batalha contra a indústria farmacêutica, ajudando milhares de pessoas soropositivas em seus tratamentos. A trama, que se passa na década de 1980 e é baseada em  fatos reais, também conta com Jared Leto e Jennifer Garner.

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MCCONAUGHEY, O CLUBE … E O OSCAR

Quem vê Matthew McConaughey agora, talvez não se lembre da época em que o ator protagonizava comédias românticas ou filmes de ação com diálogos babacas e superficiais (nem todos, eu sei!). McConaughey está definitivamente mais maduro e, de certa forma, carrega consigo o filme. Jared Letto também está incrível (aliás, ele é incrível), mas o seu personagem não é tão bom quanto o de McConaughey, não mesmo. (Pode parecer que eu estou menosprezando o Letto, não é isso, acontece que ele possui desempenhos muito melhores do que esse.)

A gente sabe que a academia adora transformações físicas, o público se impressiona quando os atores emagrecem muito ou engordam demais para o papel, não é atoa. As transformações físicas demonstram o comprometimento, a dedicação e as dificuldades impostas pela produção.

Mas, ligar o filme apenas a esse aspecto é uma injustiça. “Clube de Compras Dallas” possui uma história densa e interessante, uma estética ambígua e diálogos bem construidos. A ambientação é de deixar o queixo caído, principalmente quando se dá conta de que o filme contou com um orçamento de 5 milhões de dólares… pode parecer muito, mas não é – esse orçamento é de um filme pequeno. Talvez por isso, apresente uma estética tão documental.

Em relação aos personagens, o destaque mais uma vez vai para McConaughey, afinal, Ron Woodroof é um homem desprezível que vai se redimindo ao longo da trama. Não dá para questionar a sua indicação de melhor ator ao Oscar, aliás, meu coração está completamente dividido entre ele e Leonardo DiCaprio (que concorre por O Lobo de Wall Street).437580.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxxAINDA SOBRE A AIDS…

Clube de Compras Dallas é um filme sensacional, depois de assisti-lo fiquei com uma vontade imensa de reler “Doença como metáfora”, escrito por Susan Sontag em 1988. Já na segunda parte do livro (dedicado à AIDS), Sontag afirma que o HIV banalizou o câncer. Contextualizando essa afirmação (com a doença explodindo exatamente nesse período), o que Sontag diz parece bastante plausível. Ela ainda afirma o seguinte: “Ao contrário do câncer, entendido como uma doença provocada pelos hábitos do indivíduo (e que revela algo a respeito dele), a AIDS é concebida de maneira pré-moderna como uma doença provocada pelo indivíduo enquanto tal e enquanto membro de algum “grupo de risco” – essa categoria burocrática, aparentemente neutra, que também ressuscita a ideia de uma comunidade poluída para a qual doença representa uma condenação”.

Incrível como essa reflexão está bem representada no filme e, como a sociedade parece mergulhada e engessada em seus próprios preconceitos – ainda hoje, é claro.  Uma das denominações mais estupidamente criadas e usadas por um longo período foi chamar a AIDS de “câncer gay”, ligá-la apenas a homossexuais, bissexuais ou prostitutas. A gente sabe que qualquer heterossexual que transa sem proteção está igualmente exposto a contaminação. Lembro-me bem de uma campanha publicitária governamental que incentivava homens e mulheres acima dos 60 anos (casados ou não) a usarem camisinhas. Uma quantidade absurda de idosos foi diagnosticada com a doença (não sei como estão os dados atuais) e não  se davam conta disso, acabam recebendo o tratamento tardio.

clube-de-compras-E o “Clube de Compras Dallas” toca na ferida, sabe exatamente onde ir. Além portar uma doença terrível, essa pessoas precisam conviver com o pré-conceito, que já é em sí, uma coisa absurdamente cruel. Por isso a grandiosidade do filme, não só por apresentar boas atuações, mas por trazer um retrato sincero sobre o HIV, de colocar o assunto mais uma vez em pauta. Relembrando Susan Sontag mais uma vez, há uma passagem no livro em que ela diz “A idéia da doença como castigo é a mais antiga explicação para a causa das doenças”.

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