Você tem medo de quê?

O medo é uma sensação absurda, indecifrável. Não me refiro só ao que o define, não ao pé da letra. Me refiro principalmente ao que ele provoca em nosso cérebro e em nosso corpo. Um ser humano obsessivo e com medo da morte, por exemplo, pode passar anos de sua existência sem aproveitar a vida. Hipótese. Uma pessoa com um medo obsessivo de ficar resfriada, pode não aproveitar o ar fresco das ruas ou dos parques, desperdiçando em parte, a sua saúde.

O medo, além de paradoxal, também é irônico; ele nos faz sentir desprotegidos e ao mesmo tempo nos coloca em situação de alerta, se tivesse uma voz diria: você precisa se cuidar.

Estive pensando sobre isso outro dia, sobre como o medo pode ser controlador. Fiquei durante meses treinando para dirigir, mas quando peguei o meu carro pela primeira vez, minhas pernas tremiam tanto que eu não conseguia sair do lugar. Eu já tinha carteira de motorista, já dirigia no carro da auto escola, já conhecia as regras, as ruas, as sinalizações. O que estava faltando? Confiança?

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Quando eu era mais nova, um medo terrível me atormentava. Tinha medo de escuro. Era apavorante. Não enxergar nitidamente abria a minha imaginação e eu pensava em infinitas possibilidades. Fantasmas, bruxas, bichos. Olhar debaixo da cama, nunca! Deixar o pé fora da coberta, muito menos. Minha mãe chegava cansada do trabalho e mesmo assim eu a incomodava e pedia para dormirmos juntas.

Também tinha de medo de que a minha mãe morresse, ainda tenho: medo da morte, mas hoje tudo parece mais claro, mais real, menos fantasioso. Incrível como funciona a mente de uma criança. Eu não tinha medo de bandido, hoje eu tenho. Impossível não ter. Aliás, a minha família também tem, meus amigos, meus vizinhos. Eis um medo coletivo. Nossa casa não fica mais com a porta aberta, qualquer barulho me deixa alerta. Serão os noticiários? As fotos terríveis disponibilizadas na internet? Serão os programas policiais?

12 anos de escravidão

Baseado em um romance autobiográfico, “12 anos de escravidão” conta a história de Solomon Northup, um homem negro e livre que viveu em Nova York no século XIX. Em 1841, Norhtup (que era um violinista conhecido), recebeu um contive: viajar para Washington, tocar em um circo e ganhar quase o triplo do seu salário. Durante a viagem, o músico é sequestrado e vendido como escravo. Obrigado a trabalhar em uma plantação em Louisiana, Norhtup tenta fazer contato com sua família de todas as formas. Enquanto não consegue, presencia a barbárie e a violência sofrida por outros negros, que encontram-se em uma situação parecida com a sua.

ImagemEm “12 anos de escravidão”, Steve McQueen (também diretor em Shame) toca em um ponto dramático da história da humanidade, é difícil (quase impossível) não se sentir sensibilizado quando o assunto é escravidão. Famílias separadas, dor, humilhação psicológica e física, racismo e tortura: um misto de ações e sentimentos  que fazem o estômago embrulhar. Já vimos muitas histórias sobre esse tema, mas ’12 anos, diferente de Django Livre, por exemplo, traz uma história sincera sobre o terror, sobre o lado mais obscuro do ser humano. E aliás, acho fundamental esse papel que o cinema cumpre, de nos lembrar – ou melhor, de nos fazer ter consciência – da nossa história.

O interessante é que as gravações (que duraram apenas 35 dias!) aconteceram na Louisiana, muitos sets foram lugares onde escravos reais viveram, é como se a aura (me refiro a Walter Benjamin), a essência daquele sofrimento, ainda estivesse ali.

Ainda que seja um dos grandes concorrentes ao Oscar (e eu acho até que será o vencedor), o filme de McQueen apela em algumas questões; principalmente pelos excesso de momentos de divagação. O que eu digo é que em várias cenas, Chiwetel Ejiofor (o Norhtup) é exposto em tela olhando vagamente, ao som de um coro triste. O que McQueen faz ali, é claro, é tentar nos emocionar… mas de alguma forma, ele perde a mão.

Lupita Nyong'oTirando esse pequeno detalhe, o filme nos dá três grandes presentes: a fotografia(quente! que acentua a sensação de calor, de sufoco e suor), a trilha sonora (composta por ninguém mais, ninguém menos que Hans Zimmer) e Lupita Nyong’o (que também recebeu uma indicação ao Oscar na categoria de melhor atriz coadjuvante). Em ’12 anos, Lupita interpreta Patsey, uma escrava cujo o dono é obcecado por ela. Lupita é incrível, impossível não notá-la em tê-la, aliás… a minha favorita.