Sinedoque NYPessoas velhas me deprimem. Eu sei que é horrível falar uma coisa dessas, mas pessoas velhas realmente me deprimem. Não sei exatamente se são as pessoas, acho que a ideia de velhice em sí me deprime. Outro dia eu fazia compras com a minha mãe e uma senhora idosa apareceu na área das verduras e andava com tanta dificuldade que ficamos com medo dela cair. Ela parou um atendente e fez uma pergunta. Não só andava como também falava com dificuldade. Ela pediu que o atendente a ajudasse a achar a seção de frios do supermercado porque estava meio perdida. Ela andava, falava e enxergava com dificuldade.

– Mãe, você viu? Que dó né?
-Eu vi Thais, dá dó sim. Mas ela já é velhinha, é assim mesmo
-Mas é tão triste.
 
 

Não quero, com este texto, fazer uma correlação entre velhice e doença, ainda que seja inevitável. Susan Sontag já bateu nessa tecla, não é preciso ser velho para estar doente, segundo ela: A doença é a zona noturna da vida, uma cidadania mais onerosa. Todo que nascem têm dupla cidadania, no reino dos sãos e no reino dos doentes. Apesar de todos preferirmos só usar o passaporte bom, mais cedo ou mais tarde nos vemos obrigados, pelo menos por um período, a nos identificamos como cidadãos desse outro lugar.

Atualmente, agora mais do que nunca, tenho um olhar diferente tumblr_n7uld7L57U1ttjyl3o1_500sobre o fim da vida. Já falei sobre isso diversas vezes aqui no La Amora, mas é que o assunto me intriga. Não sei se vou seguir esse pensamento por muito tempo, mas quanto mais eu “vivo, mais tenho a sensação de que as coisas são passageiras demais para darmos tanto valor. Aliás, não só as coisas, as pessoas também.

Quanto mais os dias passam, mais me sinto como um grão de areia no deserto, com um pequeno ser em meio a multidão. Minha mãe sempre dizia que eu era uma pessoa especial, diferente das outras. Durante muito tempo eu até acreditava nisso, não só achava que era especial como acreditava que poderia mudar o mundo. Seria mais fácil se tivessem me dito que na prática tudo é muito diferente. Hoje percebo que sou igual a todo mundo: que eu não sou ninguém, que as minhas dores não estão estampadas no jornal, que o tempo não para, não volta, que as pessoas se vão e a vida segue.

Já não quebro a minha cabeça tentando fazer com que os outros me entendam. Só quero que me respeitem – não precisa nem gostar. Também perdi aquela pose, aquela arrogância de achar que poderia mudar alguém. Cada um sabe de sí e dentro de cada um existem muitos. Deixei de confiar nas pessoas, de achar que todos são amigos e que me querem bem.tumblr_mp3p3wfrfW1r4tvono1_500

Há pessoas más no mundo, pessoas más que me rondam, que não apresentam ameaças a minha integridade física, mas que não só se importam com o meu emocional como também querem vê-lo destruído. Fui machucada por algumas pessoas, me senti traídas por elas, e de algumas…guardo muito rancor.  É possível que boa parte delas pensem exatamente o mesmo sobre mim, por isso não me cabe julgar. O melhor a fazer é me distanciar e seguir da maneira mais digna e honesta possível.

As vezes, fechar os olhos alivia o coração, não faz mal querer esquecer, querer ‘não ver’. O importante é seguir e aproveitar, porque não existe presente maior do que o dom da vida. E mesmo que pareça pedante, ultimamente tenho visto a morte não como um castigo, nem como algo a se ter medo (ainda que eu tenha – e muito). Olhando pelo lado positivo, a morte nos mostra que para tudo tem um fim e que é preciso aproveitar enquanto dá tempo..tumblr_msw9a6Dym51rt3w9xo1_500

Feliz nas pequenas coisas, nas simples demonstrações de carinho ou em fazer o que dá prazer. Escrever, mesmo que ninguém leia. Cantar, mesmo que alguém escute. Comprar, mesmo que seja caro. Amar, mesmo que seja proibido. Rir, mesmo que seja inadequado. Sair, mesmo que tenha preguiça. Ter preguiça e que seja sem culpa.

Salem

Salém é a típica série que eu nunca assistiria se não estivesse em casa num fim de semana tão congelante e vazio. Não pela série em si, mas por minha preguiça de começar a assistir qualquer programa que demande mais de meia hora e que dependa de capítulos seguintes. Enquanto visitava um site de filmes online me deparei com a imagem de uma mulher que dos olhos e boca saltavam galhos secos de árvores. Daí me lembrei que era um dos posters promocionais de Salem e a relacionei com American Horror Story, já que Coven estreou praticamente no mesmo período.

Salém

Difícil não fazer comparações entre as duas tramas porque o tema e a proposta são muito semelhantes: Horror e Bruxas. Na época optei por acompanhar AHS, como vocês já sabem, adoro a série e a Jéssica Lange (e blá blá blá). Enquanto Coven foi uma decepção, Salem foi uma feliz surpresa. No Filmow, li diversas críticas positivas, outras dizendo que a trama segue o clichê que ronda o tema e que teve seus “altos e baixos”. Cabe a cada um julgar, mas sem dúvidas, é uma ótima opção para quem gosta de assistir séries desse gênero. [P.S] Ainda estou no sexto episódio (e pretendo terminar tudo no próximo fim de semana).

Salem


As Bruxas estão entre nós

Salém se passa no século XVII, e conta a história de Mary Sibley, a bruxa mais poderosa da cidade. Ha sete anos, Sibley era apenas uma inocente e apaixonada garota que se viu grávida e solteira (já que seu amado, John Alden, teve que abandoná-la para ir para a Guerra). Com medo de ser perseguida, torturada ou assassinada, Sibley resolveu fazer um aborto e entregar seu filho e sua alma ao diabo. Ao longo dos anos construiu uma reputação e uma riqueza invejável, tornando-se a figura mais influente da comunidade. Depois de anos, Alden retorna e reacende o amor que, até então, estava adormecido no coração de Mary, fazendo-a contestar sua vocação para a maldade.

salem-mercy-lewis-possessed-elise-eberle-wgn-america

Ainda que a sinopse que eu escrevi tenha ganhado uma conotação romântica, garanto que a série não é. Salém, criada por Adam Simon e Brannon Saga (e produzida pela WGN), apareceu timidamente, mas aos poucos conquistou seu espaço entre fãs do gênero e já tem uma segunda temporada confirmada. A maioria dos personagens possuem uma dosagem de bondade e maldade que nos deixa divididos entre ‘o bem’ e o ‘mal’. Isso porque é muito claro que as bruxas são malvadas e matam inocentes sem nenhum pingo de dó – no entanto, existem diversos fatores que as levaram, especialmente Mary, a escolherem esse caminho.

Os primeiros episódios são repletos de cenas fantásticas e assustadoras, principalmente as que envolvem Mercy, uma menina que teve o corpo tomado por uma bruxa (tipo ‘O Exorcista mesmo). Em uma cena horripilante, por exemplo, Mercy insiste para que o padre a salve de tamanho tormento e indica, entre as sombras, a “bruxa velha” que tem a perseguido e torturado. É claro, ninguém vê a bruxa e logo a abandonam sozinha no quarto – adivinha quem aparece? 

Falando no padre, Cotton Mather é um daqueles personagens que nos causa ódio e amor. Ele prega os ensinamentos da bíblia, julga e mata pessoas que acredita estarem envolvidas com bruxaria (a maioria, inocente) e não pensa duas vezes em procurar uma prostituta com o intuito de aliviar seus desejos carnais. Ao mesmo tempo, mostra-se  um homem bem intencionado e que realmente quer acabar com as bruxas, só que sempre cai nas armadilhas criadas por Mary. salem04-660x330Caramba, olha o tamanha desse texto… juro que era a ideia era fazer só uma notinha.  No mais, quem curte produções de época também podem gostar dessa série, muito bem produzida – e a maquiagem, uau! O meu personagem favorito é o Isaac, o Fornicador. O pobre coitado, logo no primeiro capítulo, foi marcado com um F na testa por se apaixonar por uma garota e ser pego masturbando-se. Acabou marginalizado e obrigado a fazer os trabalhos mais detestáveis da comunidade, entre eles, despejar o corpo dos mortos ‘indesejados’ em uma vala perto da floresta.

O ano da peste

Até então, o único filme que tinha assistido com Felipe Cazals foi “Las Poquianchis”, onde ele reconstitui o caso das irmãs González Valenzuela, uma delas interpretada por Diana Bracho.  Outro dia estava lendo sobre o diretor e descobri que ele chegou a dirigir um filme argumentado por Gabriel García Marquez… “El año de la peste”. Confesso que eu não sabia que o Gabo era fã da sétima arte e que atuou, inclusive, como diretor da escola de cinema de Santiago de los Baños, em Cuba.

“El año de la peste”, produzido em 1978, conta a história de uma cidade assolada por uma epidemia desconhecida, qO ano da peste ue mata misteriosamente milhares de habitantes. Mesmo com o excesso de mortes, as autoridades insistem em dizer que a situação está controlada e que não há nada em que se preocupar. As pessoas caminham nas ruas e se deparam com corpos amontoados, mas agem normalmente. Na TV, os telejornais tentam minimizar as ondas de pânico e os estadistas calam médicos e especialistas que afirmam que a cidade está sofrendo com uma epidemia similar a peste negra, ocorrida na Idade Média. [Gabo era fã de Um Diário do Ano da Peste”, escrito por Daniel Defoe (1660-1731)].

Adoro esse tipo de narrativa e enquanto assistia ao filme me lembrei de produções e histórias semelhantes como “Ensaio sobre a cegueira” de Saramago, “Tempos do Lobo” de Michael Haneke ou “Contágio” de Soderbergh. Aliás, Cazals é tão seco quanto  Haneke e não pensa duas vezes em mostrar uma cena de sexo onde uma mulher beija o peito ferido do amante.

‘O ano da peste’ me incomodou um pouquinho… só em duas questões: não gostei da trilha sonora, que ao invés de acentuar o suspense, era irritante. A iluminação também estava estranha, não dava para saber se algumas cenas se passavam de manhã ou de noite, não dava para reconhecer o rosto dos atores enquanto eles dirigiam ou conversavam dentro das casas. Eu realmente não sei se é a estética do filme e fiquei confusa em alguns momentos, imaginando se se tratava da maneira em que o filme foi conservado.

Mesmo com o ritmo lento da trama, Calzar nos presenteia com pequenas pérolas, como aquela cena em que centenas de policiais descem a escadaria de uma igreja (todos armados e com máscaras de proteção) e vão de encontro ao povo (que se manifesta em praça pública) e se defende atirando pedras. No fim, já não existe mais polícia, nem povo… 

Também achei incrível a cena em que os agentes de limpeza começam a despejar remédio sobre as áreas infectadas. Em certo momento eles se deparam com três moradores de rua e jogam remédio sobre eles. Os moradores de rua, por sua vez, continuam a agir como se nada tivesse acontecendo, sentam-se e começam a comer o que encontram no lixo.



Daniela Romo “El año de la peste” trouxe uma feliz surpresa. Daniela Romo, bem no inicinho da carreira, fez uma pequena participação no filme. Tinha vinte anos. Na trama ela interpreta Laura, amiga da assistente do médico e que estranhamente tem um caso com ele. (É, fiquei meio confusa nessa parte). Tive que parar o filme para conferir se era ela mesmo, só pra ter certeza. Romo já tinha um cabelo enorme e usava aquele anel no dedinho (que não larga até hoje!).

La Hora Marcada

Enquanto eu pesquisava por um filme dificílimo de encontrar, acabei me esbarrando em um blog incrível, repleto de clássicos e boas análises sobre produções mexicanas, das quais eu nunca tinha ouvido falar. Há uma variedade enorme de arquivos disponibilizados e uma série de vídeos de diretores, produtores e atores importantes da sétima arte mexicana. Ontem, antes de dormir, fiz uma lista com os filmes que quero assistir e comentar aqui no La Amora, espero fazer isso pelo menos uma vez a cada duas semanas.

helena rojoComo já era muito tarde, assisti um episódio de ‘La Hora Marcada’, um seriado mexicano que ficou famoso nos anos 80, cujo público alvo eram as crianças e jovens. A cada episódio (de vinte e poucos minutos) os espectadores assistiam uma história de terror, todas com um personagem em comum: uma senhora vestida de negro, que representava a morte. Confesso que fui motivada a assistir por causa da Helena Rojo, que no episódio “El Motel”, interpreta uma mulher que, junto ao marido, sai de uma festa a procura de um lugar para se hospedar –  já que ele está bêbado demais para dirigir.

Ao chegar ao motel, vários acontecimentos assustadores e medonhos começam a rondar a personagem. Primeiramente ela passa a receber ligações de um assassino, que não se identifica, mas promete matá-la ainda naquela noite. Assustada, ela deixa o marido no quarto e vai pedir ajuda ao dono do lugar, a única pessoa que se encontra no motel – além do casal. O dono, no entanto, não acredita nela e pede para que ela volte ao seu quarto. Quando ela volta, encontra seu marido enforcado. Ela tenta pedir ajuda mais uma vez, mas quando chega a recepção, encontra o dono do motel morto.la hora marcada

O episódio é sensacional, não pela história, que é bem simples, mas por apresentar um trabalho técnico incrível. As ações são marcadas por inúmeras sugestões sensoriais, desde os barulhos e ruídos do motel ao miado de um gato que nunca aparece, mas que ajuda a tornar o clima mais ‘assustador’. O meu momento favorito é quando o episódio chega ao clímax e a personagem principal finalmente se encontra com o assassino.

‘La Hora Marcada’ teve mais de cem episódios transmitidos e ficou no ar de 1986 até 1990. A série contava com grandes diretores e roteiristas, como Guillermo del Toro, Alfonso Cuarón e Emmanuel Lubezki. Dos personagens, os mais diversos, como freiras macabras, bruxas, ogros, anjos, dinossauros, relógios assustadores (…). Felizmente inúmeros episódios estão disponíveis no Youtube. 

Como os nossos pais…

grávidaNesses últimos dias, certa dúvida tem rondado minha cabeça. Antes, tinha a certeza do desejo de ter filhos e hoje, já não sei mais. Conversando com alguns colegas, todos eles já pais e mães, fiquei me perguntando se seria capaz de cuidar de uma criança. Aliás, fiquei me perguntando se sou capaz de estar ligada a uma pessoa pelo resto da vida e ser para ela um ponto de apoio e segurança. Não me vejo como uma pessoa preparada para ser mãe, no fundo acho que ninguém está, aprendemos socialmente.  Nesse cenário, uns acertam mais que os outros…

O discurso de que todas as mães possuem um sexto sentido me deixa em dúvida.  Um dos livros que estou lendo, veio para quebrar (ou pelo menos para colocar em xeque) essa percepção. Em ‘O corpo do diabo, entre a cruz e a caldeirinha, Silvia Alexim Nunes vem justamente para questionar e analisar a figura feminina construída ao longo do tempo

Em um dos capítulos ela analisa a relação entre a mulher e a maternidade e afirma que até certo momento da história as duas coisas não tinham uma relação tão forte: “Até o século XVIII, não se consideravam as mães como peças chaves para o desenvolvimento e a educação das crianças. Rousseau foi um dos primeiros pensadores a problematizar a relação mãe e filho, tratando-a como a ancoragem fundamental da construção da subjetividade. Partindo do pressuposto de que a natureza humana, em sua perfeição, estava sendo corrompida por uma civilização errônea, Jean Jacques conclamou as mulheres a assumirem as funções ligadas aos cuidados com as crianças e e se tornarem verdadeiras mães.”

Ao mesmo tempo, enquanto acredito no que Alexim Nunes afirma, de que não nascemos para ser mães (nos tornamos), fico me lembrando dos diversos casos que já ouvi e que me fazem acreditar (também) na existência de uma ligação (de energia, seja lá como for) entre mães e filhos. Uma colega me contava que seu filho, antes de completar um ano, sofreu um acidente e caiu na piscina da casa. Ela encontrava-se na cozinha e sentiu um aperto forte do peito e ouviu o seu filho gritando: “Mãe!” Por um momento pensou que os cachorros poderiam ter pegado o menino e correu para o canil, foi aí que viu a proteção da piscina rasgada. Pulou na água de roupa e tudo e conseguiu tirá-lo de lá. Mas como ela o ouviu gritando se o menino ainda nem falava?

Uma conhecida me dizia que eu não fazia ideia do quanto é reconfortante observar as filhas crescendo e se desenvolvendo. Outro, cuja namorada está grávida de dois meses, dizia que já era hora de deixar uma ‘semente’ no mundo. No fundo, todos concordavam com uma questão: é trabalhoso, exaustivo – e prazeroso.

Como ainda não sou mãe, eis uma das inúmeras perguntas que rondam a minha cabeça e que ainda não posso responder.  Será que os pais possuem a noção da importância e da influência que exercem na vida do filho? Será que eles entendem que o que fazem e dizem refletem na personalidade do filho e influencia na sua vida adulta?

Estou lendo um outro livro que também está muito relacionado a este tema. Em ‘Carta ao Pai’ Kafka narra as dolorosas lembranças que tem do pai, do quanto ele foi fundamental na construção da sua personalidade, dos seus traumas, dos seus medos. Na carta, que nunca foi entregue, Kafka chega a compará-lo a um tirano e narra, com muito rancor, a relação conflituosa que teve com o pai, extremamente autoritário.

Não sei se encontrarei respostas para todas as perguntas que tenho, mas hoje, a medida em que vou envelhecendo, tem se tornado mais fácil aceitar os erros dos meus pais. É mais fácil me colocar no lugar deles e entender que a vida (e o futuro) não são presenteados de bandeja. Somos responsáveis por construí-los e enquanto percorremos o caminho, sofremos algumas falhas. Espero não estar condicionada às atitudes dos meus pais, mas quanto mais eu cresço e me conheço, percebo que tenho muito deles (seja pela presença da minha mãe ou pela ausência do meu pai)… no fundo sou como eles, sou como os meus pais.

E, mãe… se você estiver lendo, saiba que eu te amo muito.

Bette Davis Eyes

Bette DavisGosto de cinema desde que me entendo por gente. Me apaixono e já me apaixonei diversas vezes por atores e atrizes, por filmes e trilhas sonoras que, em cada época da minha vida, me acalentavam e tornavam meu pequeno mundo um pouco mais interessante. Me apeguei a Bette Davis e a Joan Crawford como qualquer outra garota jovem se apega a um ídolo, tinha recortes, fotografias e filmes das duas. Escrevia suas falas em meus diários, queria usar roupas como as delas – ainda que oitenta anos de distância nos separassem.

As conheci quando vi um filme em preto e branco pela primeira vez: “O que terá acontecido a Baby Jane?”. Não poderia ter feito escolha melhor. Joan me encantava por sua beleza, Bette por sua inteligência ácida. Passei meses assistindo a maratonas de filmes estrelados por elas.

Mas com Bette Davis a paixão foi diferente. Não era só uma grande admiração por seu talento. Me identificava com ela, com seus personagens, com sua história de vida, com sua personalidade. Na minha adolescência, Davis falava por mim. Ela era como eu queria ser, mas não era. Ainda hoje quando penso em “Bette Davis” direciono-me a ideia de uma mulher destemida, respeitada. Bette não tinha papas na língua, se preciso, brigava com os outros atores, com o diretor, com o presidente da produtora. Bette se impunha, era geniosa e respondia na lata.

Eu, enquanto era aquela menina que falava baixo e não respondia nunca, queria ter os “Olhos da Bette Davis”…E seus personagens contribuíram diretamente para que tivesse aquela sensação. Em  “Vaidosa”, por exemplo, Bette Davis – que nunca foi considerada uma beldade, encarna uma mulher belíssima e rica, que destrata, trai o marido e vive um casamento por interesse. Ela está incontrolável.  Pois é, pouco me importava se a personagem era uma vilã… eu só queria ser, incontrolável.

Mas o ‘espírito da Olivia de Havilland nunca saiu de mim e até hoje, acho que fala muito mais alto…São como amarras, que me prendem ao bom comportamento, que me deixa no caminho entre o querer fazer e o ter que fazer. Que me segura na hora das respostas ingratas, que forma um gosto de choro na garganta, no grito abafado, nas palavras não ditas, no rancor acumulado.

É que ser Havilland não é ruim, mas ser Davis deve ser muito melhor…

O óbvio ululante

nelsonEu não sei se acredito em destino, mas desde cedo me vi predestinada a cursar Jornalismo ou qualquer outra área que estivesse ligada ao ato de escrever. Entrei na faculdade aos dezoito anos, fiz as minhas escolhas diante de um impulso e da necessidade de decidir minha carreira por causa do vestibular.

Desinformada e repleta de ilusões, segui acreditando que a universidade me tornaria uma profissional completa, pronta para o mercado de trabalho. Eu não sabia de nada, entrei na universidade sem um pingo de conhecimento ou de maldade sobre a vida acadêmica. Eu me sentia como uma caipira na cidade grande – e assim foi, por quase três anos de curso, até que eu finalmente me localizei.

Os primeiros anos foram terrivelmente difíceis. Comecei a estudar em uma universidade particular (cara, como outra qualquer) onde os professores, de repente, entraram em greve. Pagávamos a mensalidade, mas não tínhamos aula. Decidi largar aquela universidade, pular para outra. Me vi em um redemoinho de novidades, de matérias, de grades, de horários, de pessoas novas (e que já se conheciam). Me senti naqueles filmes juvenis, quando os pais do personagem principal mudam de casa e ele é obrigado a ir para uma nova escola.

Era uma caxias. Comprei vários livros que os professores apresentaram como referência (mas que, de fato, nunca usavam nas aulas). Foi aí que conheci Nelson Rodrigues. Na minha solidão de aluna nova, pouco popular e irregular (porque ainda tinha esse agravante, eu fazia matérias diferentes em várias salas), me agarrei em Rodrigues como um religioso se agarra em um santo.

Bom, eu não via Nelson Rodrigues como um santo, mas como um ideal.  Eu queria ser como Nelson Rodrigues, queria escrever como ele. Jamais me aproximei ou me aproximaria da sua genialidade, mas de qualquer forma, alimentei uma admiração que me ajudou a não só a ter coragem para seguir o meu curso (esqueci desse detalhe: na época, explodiu a notícia de que para ser jornalista não precisava de diploma) como também a amar a minha profissão.

Lembro, como se fosse hoje, dos dias em que tinha algum horário vago e ia para biblioteca para ler Nelson Rodrigues.  O primeiro livro que li foi “O óbvio ululante” e até hoje é o meu favorito.  Na verdade, eu não sei expressar o que eu sentia quando lia Nelson Rodrigues – naquela época, era como se ele estivesse conversando comigo, me convidando a entrar em seu universo, contanto suas histórias no meu ouvido. Me fazendo um convite a transgressão. Confesso que até o imaginava, sentando em sua mesa, batendo forte com os dedos em um máquina de escrever, fumando ou tomando café.

Em “O óbvio ululante” Nelson Rodrigues é genial até no título. Ululante, quer dizer grito, berro…

Através de suas crônicas Nelson me cativou, não sei eleger qual é a melhor. Fiquei marcada por diversas histórias narradas, mas uma em especial. Nelson conta que quando menino, se apaixonou por uma jovem e que sempre ia até a casa para observá-la na janela. Mas essa menina, que era gordinha, tinha namorado e mais do que isso, tinha um pai muito bravo. Um dia o namorado dessa jovem, que tinha tuberculose, afastou-se dela por causa do pai. Nelson, que estava passava pela rua, presenciou quando a jovem teve uma discussão séria com a família… dias depois ele voltou na rua e sentiu um cheiro terrível, de carne queimada e gordura. A menina, por causa da desilusão amorosa, tinha colocado fogo no próprio corpo.

Ok, eu estraguei a história… Mas ela esta disponibilizada online e faço um convite para lê-la: “Lili ardeu como uma estrela”.

Além das histórias, Nelson não se censurava em suas críticas, muitas ainda hoje sensatas: “O trágico da nossa época ou, melhor dizendo, do Brasil atual, é que o idiota mudou até fisicamente. Não faz apenas o curso primário, como no passado. Estuda, forma-se, lê, sabe. Põe os melhores ternos, as melhores gravatas, os sapatos mais impecáveis. Nas recepções do Itamaraty, as casacas vestem os idiotas. E mais: – eles têm as melhores mulheres e usam mais condecorações do que um arquiduque austríaco.”

Lembro também que me surpreendi, quando em uma de suas crônicas, Nelson conta como conheceu Joan Crawford. A atriz estava no Rio de Janeiro, veio para fazer uma campanha publicitária para a Pepsi. Nelson contava que Joan estava suando demais e que sua maquiagem derreteu e formou uma poça sua boca. Os jornalistas foram ferozes com ela, criticavam a sua velhice e diziam que ela não era bonita como antes. Não tenho o livro em casa, mas graças a internet, encontrei a crônica digitalizada:

“Ontem Roberto Marinho observava que a nossa imprensa fora uma anfitriã crudelíssima da atriz. Sim, os nossos jornais a receberam com uma impiedade total. Cada fotografia ou cada texto era uma acusação. Joan Crawford era acusada e de que, meu Deus? Despedi-me de Roberto Marinho e aquilo não me saía da cabeça. Cheguei em casa e ainda pensava em Joan Crawford. A estrela era acusada de ter envelhecido. Não ocorreu a ninguém esta concessão apiedada: — “Bonita coroa”. Nem isso. Ninguém aceita a velha nobre, a velha linda. É pena que eu não tenha, de momento, os recortes de tudo que se escreveu sobre a sua visita. Essa crueldade impressa dá o que pensar. Lembro-me de que, em 1927, vi Joan Crawford num filme da opereta  Rose  Marie. Nada se compara ao impacto tão puro e tão firme de sua aparição. Eu disse 1927 e façam as contas. Quarenta e um anos são passados. E Joan Crawford já era uma das mais lindas mulheres do mundo. Voltei cinco, seis, dez, quinze vezes ao cinema. Uma paixão se instalara em mim. Mas não fui eu o único.

A platéia de cada dia saía apaixonada. Quase meio século depois, a atriz vem ao Rio. Sua imagem não é  mais um jogo de sombra e de luz. Saiu da tela, baixou na vida real. E começa o massacre nos jornais, no rádio e na televisão. Nós a olhamos como a uma ré e não foi outra coisa senão isso mesmo. Até os velhos a detestaram. (Eis a verdade: — a começar pelo dr. Alceu, o nosso velho atual não gosta de outro velho.) Quando Joan Crawford visitou a Assembléia Legislativa, quis eu ser testemunha do acontecimento. Fazia um calor que, segundo minhas crônicas esportivas, derrete catedrais. Eu via em todos os olhares uma fria malignidade. E foi uma euforia geral quando, por efeito do calor, a maquiagem da atriz entrou em decomposição. A pintura derretida escorria em gotas cromáticas. Uma gota parou, exatamente, na ponta do nariz e aí ficou, dependurada, antes de se estilhaçar. É claro que todo mundo deseja, com o maior empenho e a maior volúpia, a velhice da mulher bonita. Outro exemplo: — o de Gina Lollobrigida. Passou pelo nosso carnaval, linda, linda. Pois não faltou quem, diante do seu frescor implacável, dissesse: — “Velha! Velha!”.

Voltando a Joan Crawford na Assembléia Legislativa. Houve um instante em que se percebeu, por cima do seu lábio superior, uma orla de suor. Um sujeito cutucou-me para cochichar: — “Transpira!”. E piscou o olho, numa satisfação crudelíssima. As mulheres bonitas. Queremos envelhecê-las e agora mais do que nunca e aqui mais do que nos outros povos. Na França ou na Alemanha a mulher bonita ilustre não envelhece. E os homens velhos e ilustres. Maurice Chevalier, aos oitenta anos, trôpego e asmático, é amado por todo um povo. No Rio de nossos dias, Mistinguett seria apedrejada como uma bruxa de disco infantil. Joan Crawford passou por aqui e nem sei como sobreviveu à nossa impiedade.”