Cansada, dentro do ônibus e disputando espaço com outras pessoas que assim como eu, estão louca para ir para casa, depois de um longo e difícil dia de trabalho, observo pela janela as intermináveis filengarrafamentoas de carros que se estendem pela avenida. Luzes vermelhas dos faróis, fortes e em contraste com os meus olhos, gritam através da cor a urgência que cada um parece ter dentro de si: a de chegar.

Ao meu lado, uma senhora reclama do desconforto e diz que se os outros esperassem pelo menos dez minutos, conseguiriam pegar um ônibus mais vazio. Dez minutos, para quem está cansado e quer chegar em casa logo é muito. Uma pessoa que acorda cedo, que passa horas no trânsito para chegar no trabalho, que se mata de trabalhar e depois perde mais horas para voltar, exausto… essa pessoa não tem tempo a perder, nem dez minutos. Não nós, pobres mortais.

Enquanto me equilibro e tento segurar durante um curva, observo outro passageiro que coloca um livro de química sobre a mochila e está tão concentrado que parece não se importar com o barulho do bebê, que chora logo a frente. E fecho os olhos, naquele mormaço infernal, refletindo sobre quão rápida e cruel é a vida daqueles que como eu, não tem tempo a perder. O tempo é valioso demais ( o que deixa as coisas mais difíceis, duras, líquidas).

E uma senhora, tão pequena, frágil e provavelmente mais cansada do que eu, também se equilibra, cheia de sacolas, observando atentamente o caminho – provavelmente com medo de descer no lugar errado. Nem na velhice se descansa. E assim, nesse mar de gente, nessa vontade de ir e de chegar, eu também desço.  Subo o morro correndo, deixo a bolsa pesada na sala, tomo banho, como alguma coisa e finalmente – descanso? Não, me preparo para o dia seguinte.

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2 thoughts on “

  1. Jessica diz:

    Quantos textos novos por aqui! Ou será que é por que não venho aqui há horas?

    Li teu texto sobre a Violetta, é lindo. Imagino como tu esteja se sentindo, nós temos um gato aqui em casa, ele é a nossa paixão. O dia em que ele se for, vou me sentir arrasada. Há muito tempo atrás eu vi um gato ser atropelado na minha rua. Muito antes de eu ter meu gato. Aquilo me atingiu tanto, eu sai para a rua chorando descontroladamente, tentando fazer algo, mas ele já estava morto 😦 Minha mãe tentou me acalmar, sem muito sucesso. No fundo nunca estamos preparados para o imprevisível, ainda mais quando envolve morte. Espero que tu esteja melhor, se precisar conversar, estou aqui.

    Sobre o texto sem título sobre o ônibus, é incrível como tu sempre consegue resumir boa parte das coisas que sinto. Parece que não há paz, né? Você chega em casa e já tem uma pilharada de coisas para fazer. Relaxar nem pensar. Neste final de semana me dei ao luxo de me ausentar das obrigações, porque a segunda-feira ia chegar, eu ia ficar muito estressada, quis evitar. No entanto, estou aqui me sentindo triste e nem sei porquê. Acho que é porque também acho que minha vida está indo para um lado que não queria. A sensação de que não posso mais controlar nada toma conta de mim. Será que somos realmente donos das nossas vidas? Fico pensando…

    No sábado de manhã, quando vou dar aulas, pego o ônibus cheio. Cada vez eu me irrito mais, na semana passada perdi a paciência e fui grosseira com outra passageira. Ela não tinha culpa do ônibus estar cheio em pleno sábado de manhã, mas acho que a parte de pegar ônibus é o que acaba conosco, sabe. É bem isso que tu resumiu, todo esse estresse para chegar em casa. Ou chegar em qualquer lugar. Acordo mais cedo do que deveria e não adianta, o ônibus está sempre cheio, não importa o horário que eu pegue ele.

    Para te animar, queria te mandar essa música, não sei se tu conhece:

    Toda vez que estou triste, gosto de escutá-la.

  2. Jessica diz:

    “Why don’t you realize Vienna waits for you?”

    gosto de acreditar, cada vez que me levanto, que existe uma Vienna esperando por mim em algum lugar. chegar nela é que é o difícil.

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