Gata Velha ainda Mia

Glória Polk (Regina Duarte) é uma escritora decadente, que depois de 17 anos decide voltar a escrever. Assim convida uma jovem jornalista, a Carol (Bárbara Paz) à sua casa, no intuito de ceder uma entrevista sobre sua obra. Nesse jogo de interesses, que beneficia tanto à escritora quanto a jornalista, o encontro vai tomando proporções perigosas (e bizarras) já que Glória, extremamente temperamental, decide se vingar de Carol por causa de um ‘segredo’ que as une há anos.

O filme, que é uma joia, é o primeiro trabalho no cinema do jovem diretor Rafael Primot e está repleto de diálogos marcantes, de uma profunda reflexão sobre loucura e sanidade, de cenas lindíssimas e referências ao melhor do cinema clássico. (Também, acho que vale comentar o fato de que feito com um orçamento curtíssimo, de apenas R$ 150mil…).

Regina Duarte Ver Regina Duarte interpretando com brilhantismo uma personagem inspirada em Norma Desmond e Baby Jane me fez pensar no quanto a mídia e o público podem ser cruéis com figuras públicas, expostas a dura e implacável crítica em relação a velhice. Envelhecer não é para mocinhas, Bette Davis já dizia isso… pressentindo um futuro não muito agradável em que foi considerada veneno de bilheteria.

Ver Regina Duarte dando vida a uma feminista lésbica, que cita Susan Sontag, Simone de Beauvoir, Mark Twain… que prega o amor livre e com sarcasmo e agressividade ironiza a juventude (a qual apelida de ‘bundinha rosada’), faz com que eu me sinta parte desse público cruel e ingrato, que não reconhece uma carreira incrível e que também não valoriza seus artistas. Eu ri daquele vídeo em que Regina aparece sambando. Eu ri das fotos do aeroporto. Agora, depois de “Gata Velha ainda mia”  me arrependo amargamente.

Regina não deixa a peteca cair, encara o melhor e o pior de si, sem medo de se expor. Sem medo de aparecer sem maquiagem na tela grande, sem medo de não ‘estar bonita’. É o espírito pulsante do verdadeiro artista, aquele que doa não só a sua imagem, mas o seu corpo (e até a sua alma) quando está interpretando. Menções também honrosas à Barbara Paz, que mesmo ofuscada por Regina, responde à altura e se entrega, também se expõe.

ScreenShot006Enfim…

Felizes são aqueles que conseguem envelhecer bem… Não me refiro apenas ao aspecto físico, refiro-me à dignidade (que hoje, acredito ser um dos bens mais preciosos do ser humano). Tenho pensado muito sobre a velhice, principalmente depois que assisti esse filme… reli uma passagem do livro da Rosa Montero que resume muito bem o que eu penso: “Há pessoas que com o transcorrer da vida simplesmente envelhecem, outras, mais sábias ou afortunadas, vão amadurecendo. Outras, ao contrário apodrecem e outras ainda, enfim, se desbaratam, e todos esses processos têm frequentemente um claro reflexo no aspecto físico”….

Gata Velha ainda Mia é um grande filme, daqueles que nos faz acreditar e gostar do cinema nacional. Vale a pena ser visto e revisto.

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One thought on “Gata Velha ainda Mia

  1. Jessica diz:

    Layout novo, então? Eu adorei! Que saudades de comentar por aqui, gente.

    Li um dos teus posts, em que tu comparava Sister Jude, Norma Desmond e Baby Jane. O que me faz lembrar que um dos episódios de Freak Show terminou com Elsa Mars dizendo que estava pronta para seu close? (não estou acompanhando a série, mas vi o gif) Incrível como o Ryan sempre gosta de trabalhar com elementos da Old Hollywood nas séries, mas principalmente com épocas passadas. Percebo quase uma histeria nas séries de hoje, a maioria trata de épocas passadas. A modernidade não inspira interesse em ninguém.

    Voltando ao “Gata velha ainda mia”, tive as mesmas sensações que tu, rs. Nunca levei a Regina Duarte muito a sério, queimei a língua ao assistir os filmes. As novelas da Globo nos lavam o cérebro, acho, porque os atores fora delas são ímpares. A Barbara Paz é um ótimo exemplo, não que ela não atuasse bem na última novela que fez, mas sinto que elas prendem os atores, entende? Parece que eles não conseguem mostrar a que vieram. A Regina é uma atriz sensacional, depois fiquei pensando nessa coragem dela em encarnar a Glória. Quer dizer, é o mesmo caso que Jessica, Bette e Gloria Swanson. Elas chegam a um ponto da vida onde o talento e a arte são maiores do que aparência e futilidades, então parece mais fácil entregar-se de corpo e alma.

    Será que estou dizendo besteiras?

    Falando em não valorizar, também me sinto assim em relação ao cinema brasileiro. Gostaria de preencher essa lacuna, há muito tempo assisti alguns filmes antigos da Dercy Gonçalves, e você não imagina o que choque que eu tive. Carregava a imagem da velha desbocada na minha cabeça, foi muito difícil vê-la jovem, fazendo comédia, no cinema, tão diferente daquilo que conheci. Aos poucos a gente vai desconstruindo preconceitos. Espero que seja assim com a Regina daqui pra frente.

    Falando em envelhecer com dignidade, isso me lembrou, é claro, Barbara Stanwyck e Joan Crawford. Já devo ter te contado como a Joan se tornou reclusa, né? Diz que um dia ela saiu para almoçar e tiraram algumas fotos dela. Quando viu, no dia seguinte, como havia saído, ela ficou tão apavorada, tão embasbacada com a própria “decrepitude” que prometeu nunca mais sair de casa. E assim foi até sua morte. Triste, não? Acho que só as estrelas mais fortes conseguem envelhecer com dignidade.

    Quanto à Barbara, me lembrei de “Pássaros Feridos”, aquela série que te falei que ela fez. Tirando as partes de terem que envelhecê-la para o personagem (ela parecia bem mais jovem do que a Mary Carson do livro), tem uma cena especialmente tocante sobre a velhice. Nela, a Mary (Stany) diz para o Padre: “dentro desse corpo decrépito, eu ainda sou jovem, eu ainda amo e desejo!” Chorei tanto vendo. A cena termina com a Mary fechando a porta e aquilo é um prelúdio para seu suicídio. Depois do diretor dizer para cortar, a Barbara não saiu da sala, embora todos estivessem aplaudindo. O diretor foi lá e a viu aos prantos. Nem preciso dizer mais nada, né? Espero que a gente consiga superar o corpo físico e envelhecer com dignidade e sabedoria.

    Falei demais, ai ai ai!

    É isso, querida. Beijos, te adoro

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