Amanhã para sempre – parte 2

“We didn’t cross the border, the border crossed us”

Nós não atravessamos a fronteira, a fronteira nos atravessou.

méxico

Bom, como vocês sabem, gosto de realizar minhas leituras, fazendo algumas anotações… da quais, divido com vocês:

Vê-se que o México se encaixa claramente no grupo de países de renda baixa e média, como outras nações emergentes da América Latina, do Sudeste Asiático, da África e do mundo islâmico, nas quais prevalecem as atitudes tradicionais (…) Nesse sentido, está mais próximo da Polônia e de Portugal do que do que do Peru ou do Paraguai.

Estereótipo x Caráter x Identidade:

Um dos clássicos que citaremos com frequência ao longo deste estudo é Emilio Uranga, considerado em seu momento o homem mais inteligente do México, antes de morrer de tanto beber. Uranga escreveu um texto brilhante intitulado Ensaio de uma ontologia mexicano, de 1949, no qual demonstra precisamente que tal substrato ontológico não existe. O que há são, quando muito, traços característicos de um povo transformados pela interpretação sofisticada dos pensadores clássicos: estereótipos convertidos em caráter.

A identidade nacional é um conceito que define uma nação perante si mesma, de modo ontológico, histórico e com intenções fundamentais: a identidade de uma nação é o que a faz ser o que é. O caráter nacional, por sua vez, tem a ver com o modo como uma sociedade concebe a si própria e como ela é percebida pelos outros.

Individualismo

O México não tem conjuntos musicais nem orquestras mundialmente famosos, mas sua música inundou a América Latina e os Estados Unidos como nenhuma outra do exterior. Seus astros são individuais e sempre atuam assim. É impensável um concerto coletivo de músicos mexicanos – Juan Gabriel, os Tigres del Norte, Luis Miguel, Armando Manzanero, Selena à sua maneira e, muito antes, Los Panchos – como nos festivais brasileiros da década de 1960 até o início da de 1980. Uma versão mexicana do evento de Ravi Shankar e Geroge Harrison em apoio à independia de Bangladesh em 1971, ou os concertos de Sir Bobo Geldof e Bono contra a pobreza na África, ou o esforço conjunto de Peter Gabriel, Sting e Bruce Springsteen pelos direitos humanos e contra a aids são simplesmente inconcebíveis no México. Um remake aguado só ocorre quando as redes de televisão que são as donas dos músicos os instruem para que façam uma apresentação beneficente ou coisa que o valha.

Sobre a Classe Média e o Consumo:

(Cartão de Crédito): Milhões de indivíduos de baixa renda munidos de plástico foram afetados quando as recorrentes bolhas estouraram no mercado financeiro: em 1967, 982, 1987 e, enfim, 1995. Os bancos foram irresponsáveis em distribuí-los como água, os consumidores foram irresponsáveis em aceita-los e em acumular dívidas enormes, e as autoridades reguladoras foram incrivelmente irresponsáveis em deixar que tudo isso acontecesse. Os portadores usavam um cartão para saldar a dívida do outro (como nos EUA), e acabaram mergulhando rapidamente em dívidas impagáveis. Porém, uma vez mais, ao contrário do caso dos televisores, como no dos automóveis, esse fato ocorreu em escala relativamente pequena, e foi varrido pela evolução da classe média.

Mariachi

Vitimização: Há uma lei de ferro na antropologia barata mexicana, com um corolário na política do país. Ela afirma que os mexicanos gostam de se enxergar como vítimas (…). O México como país de vítimas e a política com um esporte em que a pole position, por assim dizer, é o status de vítima: talvez seja essa a feição mais conhecida e mais estereotipada associada à alma e apolítica mexicana. E não é inteiramente falsa.  Nos escritos dos clássicos, por exemplo, Manuel Gamio, Samuel Ramos e Octavio Paz – a vitimização é variedade retratada como o complexo de inferioridade de todos os mexicanos. (…) Em suma, o povo mexicano, mesmo antes de ser mexicano, sempre foi lesado pelos outros  (no lamento de Ramos: “Até agora, os mexicanos, só souberam morrer”, e nisso consiste a natureza de sua máscara (Paz), de seu complexo de inferioridade (Ramos, Ramirez e Uranga), de ser raça pobre e afligida (Gamio) e da infinidade de casos contados acerca da intuitiva associação mexicana a “los vencidos”e não a “los vencedores”.

Os mexicanos evitam o conflito e a competição: O trauma  imposto ao índio pela conquista foi tão grande que anulou suas possibilidades de luta sob a nova cultura, seu único mecanismo de defesa e sua única força foram aceitar o que ele tinha, desconfiar de tudo quanto o espanhol, o criollo ou mestiço oferecesse. O Índio se esquiva do conflito com os elementos culturais encontrados acima deles, sejam amistosos ou agressivos.  Em muitos aspectos, o índio e portanto o mestiço, e aparentemente todo mexicano tinham razão. O confronto sempre foi um mau negócio para eles, desde Montezuma e Cortés até os heróis da revolução, uma vez que todos acabaram assassinados.

Como formulou  Federico San Román, esmiuçando a tese de Santiago Ramirez, essa ausência do pai explica tanto o individualismo quanto a aversão ao conflito do mexicano. Ambos eram mecanismos de defesa construídos para proteger o mexicano abandonado contra um mundo hostil, no qual inexistia o pai protetor. O espanhol procriava com muitas mulheres sem assumir o papel de pai ou marido. Os primeiros mestiços foram criados sem pai e sem família integrada. De modo que que o mexicano, diz San Román, é um ser cronicamente bastardo ou sem pai, cuja bastardia inicial deixa uma marca permanente, e que repete sua história até hoje. Seus olhos estão sempre fitos no passado, no mesmo drama, na mesma traição. Essa traição recorrente, de geração a geração, alimenta a raiva histórica que hoje tem muito mais a ver com a desintegração  da família e a pobreza do que com acontecimentos de cinco séculos atrás.

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