Pietà

Eu sou o tipo de cinéfila que não sabe o nome dos diretores, que não conhece nada de técnica cinematográfica e que, na verdade, nem se importa muito com isso. Sou do tipo daqueles que guardam o nome de um filme marcante, que lembram como se fosse ontem daquela cena que assistiu há anos e daqueles que quando se apaixona por um ator, fica meses assistindo seus filmes.

Então… vou confessar uma coisa, que pode soar absurdo para que curte cinema, mas que é verdade… Até o ano passado, eu não sabia quem era Kim Ki Duk e tive uma tremenda de uma boa surpresa, quando pela primeira vez assisti um de seus filmes: Pietà.

Pietà-di-Kim-Ki-DukPietà entrou na lista dos meus filmes preferidos de todos os tempos, daqueles que a gente não se cansa de rever. A história é cruel, atormentadora, violenta, triste… tão triste. Mas eu gostei, gostei da trama… do silêncio, do suspense… e me apaixonei pela Jo Min- Su (ainda que depois, não tenha encontrado nenhum filme com ela).

Em Pietà, Lee Jung-Jin interpreta Kang-do, um cobrador extremamente cruel, que não perdoa as dívidas de seus devedores. Quando a pessoa que o deve não tem dinheiro para pagá-lo, ele o machuca (quebra seus ossos, por exemplo), para pegar o seguro de saúde do ‘acidentado’. Mas, Kang-do (apesar da sua ‘maldade’) é um cara extremamente solitário e que a noite, sozinho em casa, se comporta como uma criança. Um dia aparece uma mulher que afirma ser sua verdadeira mãe e se diz arrependida por tê-lo abandonado. Kang-do duvida dela e a põe em prova, e faz com que ela passe por diversas e recorrentes humilhações.


Acho interessante o fato de o filme ter ficado conhecido por causa das cenas violentas, especialmente por causa da cena de estupro. Não sei, mas a abordagem sobre o fracasso, sobre a dor da perda, da solidão… quero dizer, a abordagem sobre a podridão e as falhas humanas me chamou mais atenção do que o aspecto violento. Como a dor do filho abandonado e a da mãe, que busca por perdão. Ou, da humilhação de quem não consegue pagar a própria dívida. Da mistura de vergonha e arrependimento.

Quando o amor acaba…

“De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma…”

tumblr_lgw5de9q141qe4s9xo1_500

Me pergunto sobre o fim do amor, sobre o fim da paixão. Do momento em que o toque já não provoca nenhum estímulo, ou que as palavras de carinho já não possuem mais sentido.  Daquela situação horrível, em que seu companheiro de muitos anos se torna um estranho. Porque amores existem e acabam. Não todos, é claro. Mas os que acabam me parecem tão tristes… É como uma violência silenciosa, que joga os sonhos, os planos e projetos pela janela. Aqueles projetos que você demorou a construir e gastou horas em cada detalhe.  E gastou a vida também (ou parte dela). Porque um relacionamento, seja amoroso ou não, depende de uma entrega e de uma dedicação linda e absurda, da qual eu confesso que não sei se seria capaz. É assim que eu imagino um casamento de quarenta anos, o compartilhar da mesma cama, a escolha do nome dos filhos, os momentos de aperto financeiro, a velhice. Amar é abrir mão do próprio espaço, é deixar de pensar em sí mesmo para pensar no outro. Não imagino castigo pior do que viver preso a quem não se ama – seja por escolha ou necessidade. Por isso, concordo plenamente quando dizem que a liberdade é o bem mais precioso do ser humano…

Nada é mais valioso do que poder ir quando não há mais nenhum motivo para ficar.

A diva dos pés descalços

6a00d83451e37f69e201bb07be6f43970d

Sei pouco, muito pouco da Diva dos pés descalços. Ainda que nos últimos tempos tenha escutado suas músicas e assistido a seus shows como uma louca sem controle. Cesária Évora (que, aliás, nasceu no mesmo dia que Daniela Romo) é uma cantora cabo-verdiana que ficou mundialmente famosa como a Rainha Morna. Morna é um estilo musical do Cabo-Verde – que lembra muito o samba. Sei, que já na maturidade, por volta dos cinquenta anos, Évora se mudou para a França e passou a viver lá até a morte. Ela morreu em 2011, por insuficiência cardíaca. Tinha 70 anos.

Existem três de suas músicas que eu não me canso de ouvir, compartilho com vocês. Se ainda não a conhecem, escutem… Cesária canta como ninguém:

Entre a loucura e a lucidez, eu fico com a loucura

Adoro ler e comprar livros. Aliás, compro mais do que consigo ler. Mas tenho um medo, talvez irracional, de que a leitura constante me faça sã demais. Quero dizer. Me imagino velha, doente, horrível e presa a uma cama, completamente lúcida. Não acho que exista castigo maior.

tumblr_ndxhfyBTJJ1tgg4b1o1_500

Quero envelhecer com loucura, esquecer o nome de todos, me comportar como criança, esquecer de onde eu vim e de quem eu sou.  Entre a loucura e a lucidez, eu fico com a loucura. Porque ela me fascina. E, venhamos e convenhamos, perto das possibilidades da loucura, a lucidez soa como algo sem graça.

Tenho um livro na minha casa chamado “O Bigode”, do escritor francês Emmanuel Carrère. Confesso que ainda não li, mas sei a sua essência. Trata-se de um homem que durante grande parte da vida usou um bigode. Um dia, depois de um bom banho, ele decide tirá-lo. Ele aguarda ansiosamente a chegada da esposa para surpreendê-la com a nova aparência e de repente ela diz: “Mas que bigode você tirou? Você nunca usou bigode”.

Uma trama tão simples, com um enorme argumento existencialista. É assim que eu vejo a loucura, talvez um pequeno e fino fio que nos separa de outras vidas. E se o que vivemos agora não passar de um sonho? Já pensou nas possibilidades que a vida oferece e que, mesmo não sendo aproveitadas, não deixaram de existir? Concorda que a imaginação e a loucura, em qualquer plano, são irmãs? E que no fundo, todo mundo possui um quê de louco?

Quero dizer, acho que todo mundo já deve ter se perguntado: “Mas, e se naquela noite a minha mãe e meu pai não tivessem se conhecido?” ou “E se eu tivesse feito aquela viagem”, “E seu tivesse me casado com aquele cara?” Vidas paralelas, que existem na imaginação: Somos apenas uma versão de nós mesmos.

Mas apesar de encantadora, a loucura também me assusta. Lembro, que em um dos  estágios que fiz durante a faculdade, trabalhei em atendimento e comunicação com o público (tratava-se de uma estatal). Um dia atendi uma senhora, visivelmente cansada (e com os olhos bem marcados por olheiras) que pedia encarecidamente por ajuda. Ela ouvia vozes e seu marido não acreditava nela. E pior, ela tinha certeza que implantaram um chip na cabeça do marido e do filho. Quando perguntei quem implantou, ela respondeu: “Meu ex chefe e a sua secretária. Ele me mandou embora, mas eu ainda escuto as vozes dos dois no meu ouvido”.

Isso me lembra, e peço desculpas por citá-la mais uma vez (consecutivamente), uma frase da Rosa Montero, em A Louca da Casa:

“Os chamados loucos são os indivíduos que moram de maneira permanente no lado sombrio: não conseguem encaixar-se na realidade e carecem de palavras para se expressar, ou então suas palavras interiores não coincidem com o discurso coletivo, como se falassem uma língua alienígena que não se pode sequer traduzir. A essência da loucura é a solidão. Uma solidão psíquica absoluta que produz um sofrimento insuportável. Uma solidão tão superlativa que não cabe dentro da palavra solidão e que não pode ser imaginada por quem não a conheceu. É como estar enterrado vivo no interior de um túmulo.

Quando, segundo contam, o czar Pedro I pronunciava contra algum inimigo de sua poderosa nobreza a sentença: “Eu te faço louco”, o poder da palavra e a palavra do poder, neste caso, acabavam transformando o infeliz nisso, porque, quanto todos os outros o tratavam como demente, ele vivia a realidade da sem-razão e perdia toda a cordura, explicou Carmen Iglesias no já mencionado discurso de posse na Academia. E este é um exemplo perfeito. A loucura é viver no vazio dos outros, numa ordem que ninguém compartilha.”

Enquanto se lembrarem de nós, existiremos

Acho que na última publicação, não fiz jus ao livro de Rosa Montero e deixei de mencionar inúmeras coisas que fazem dela uma das minhas escritoras favoritas. Mas também, não poderia e não deveria ficar aqui, resumindo tudo o que ela escreve, só posso fazer – mais uma vez, um convite para que a leiam.

Em um certo parágrafo, Montero levanta um questionamento sobre os escritores e acho que adequa-se não só a classe, mas a todos os seres humanos. Ela diz que muitos deles possuem o medo de serem esquecidos, de não deixarem um legado para a posteridade. E afirma, listando vários nomes de escritores que caíram na obscuridade da memória coletiva, que somos insignificantes diante do efeito da morte.

Você (e provavelmente todo mundo) já pensou no próprio enterro, em quantas pessoas estarão lá e o que irão falar sobre você. Mas já se perguntou o que acontecerá nos meses seguintes? Nos anos seguintes?

Existe um filme chamado “As confissões de Schmidt” onde o personagem principal, interpretado por Jack Nicholson, diz uma das coisas mais certeiras e lindas que já ouvi e que acho que adequa-se perfeitamente ao que Montero se refere: “pode ser daqui há vinte anos, ou daqui a um dia”. O fato é que seremos vivos até que se lembrem de nós. Pode ser através dos nossos filhos, dos nossos netos ou amigos. Enquanto somos lembrados estaremos vivos, depois desaparecemos do mundo. Quem irá comentar dos nossos feitos, das nossas manias? Só quem nos conhece ou, quem se lembra de nós.

- E eu não tenho nem uma foto dele... Ele existe apenas na minha memória.
– E eu não tenho nem uma foto dele… Ele existe apenas na minha memória.

A louca da casa

Há um mês atrás eu estava decidida a deletar este blog. Uma ideia que já estava rondando a minha cabeça há muito tempo e que, no fim do ano passado, se tornou algo definitivo. Era para ser hoje, eu ia apagar este blog no fim da primeira semana de 2015, logo depois do meu aniversário. As coisas são engraçadas, a vida me leva a acreditar que existe algo – muito além de nós mesmos – que nos faz prosseguir ou que nos impede de tomar certas atitudes.

A louca da Casa

Todos os dias, antes de ir embora do serviço, passo em frente a uma banca de revistas… Como de costume, gosto de olhar os livros que ficam à venda na prateleira debaixo. Na última terça-feira fiz o mesmo, e ao olhá-los me deparei com “A louca da casa”, da Rosa Montero. O livro que uma querida amiga, jornalista e escritora, havia me indicado quando eu ainda estava na faculdade. Ela dizia: “Você precisa ler!” Quando a encontrava nos corredores, lá estava ela… imersa em uma leitura que a fazia sentar em um corredor movimentado e barulhento, como se estivesse em seu próprio quarto, iluminado e silencioso.

Rosa Montero Não pude deixar de compra-lo e no dia seguinte já estava o devorando. Mas dessa vez, algo diferente aconteceu, algo certeiro… Era como se Rosa Montero estivesse escrevendo para mim e falando, através da sua narrativa deliciosamente objetiva, que não é hora de deletar o blog. Bom… eu já mencionei o quanto gosto dessa autora, mesmo tendo lido apenas um de seus livros. Rosa escreve como ninguém, tem uma narrativa invejável.

É claro, ela não escreve para mim… mas especialmente para todas as pessoas que gostam de escrever. Mais, para as pessoas que sentem a necessidade de escrever.  Através de metáforas, de  exemplos de escritores reconhecidos mundialmente e da sua própria história, Montero cria um ensaio sobre o que é ser escritor (profissionais ou não). Ela fala sobre os medos, anseios de quem escreve. Relata sobre a covardia que é comum nos escritores, que em meio a um mar de informações e sensações, simplesmente desiste. Ela clama para que os escritores não desistam, para que não abandonem seus sonhos, seus desejos, seus textos…

Cada capítulo é um deleite, mas gosto especialmente daquele em que ela fala sobre a sua obsessão por anões. E confessa, que inconscientemente, eles passaram a figurar os seus livros. Para ela, os anões lhe inspiram carinho, respeito, encanto e ao mesmo tempo, medo.

Enfim… eis um livro para quem gosta de escrever ou para quem deseja se aventurar a escrever. E, claro.. para quem gosta de ler. Termino essa publicação, com uma  das citações que mais gosto:

“Para mim o famoso compromisso do escritor não consiste em engajar suas obras a favor de uma causa – o utilitarismo panfletário é a traição máxima do ofício, a literatura é um caminho de conhecimento que precisamos percorrer carregados de perguntas e não de respostas – e sim, em permanecer sempre alerta contra o senso comum, contra o preconceito próprio, contra todas as ideias herdadas e não questionadas que se infiltram insidiosamente como o chumbo, más ideias ruins, que induzem à preguiça intelectual. Para mim, escrever é uma maneira de pensar, e deve ser o pensamento mais limpo, mais livre e mais rigoroso possível.”