Adeus, maridos

E então, o primeiro livro de março foi lido. “Adeus, maridos”, um conjunto de histórias de mulheres que decidiram largar o casamento para viver com outras mulheres. É um livro leve, descomplicado e que me ajudou a ver o feminismo de maneira mais profunda.

A introdução é uma das coisas mais interessantes que li nos últimos tempos, Marge Frantz explica como o condicionamento cultural (seja nas repreensões, sanções ou suposições), fez com que as mulheres, há muitos séculos, fossem levadas à acreditar nos privilégios do casamento – o que em parte, não é de todo falso. O problema está no que ela chama de “heterossexualidade compulsória”, a crença de que todas as mulheres e homens nascem heterossexuais.

2015-03-11 22.20.49Nós queríamos acreditar que éramos “normais” ou, que viveríamos vidas “normais”. Queríamos ser aceitas: temíamos as críticas e os castigos sociais, tínhamos medo, principalmente da perda de apoio econômico, empregos ou filhos. Casamos.”

Essa introdução me abriu os olhos para muitas coisas, aprendi muito. Eu não fazia ideia, por exemplo, que o fim da Guerra Civil (que trouxe uma aceleração na urbanização e na industrialização), fez com que muitas mulheres da classe média se tornassem independentes, o que permitiu que abrissem mão da vida doméstica. Segundo Frantz, foi nessa época em que o movimento feminista se autodenominou pela primeira vez e foi também nessa época que surgiu a palavra “lésbica”.

A depressão da década de 1930 foi terrível para as mulheres. Diziam que se elas abandonassem seus empregos, existiria vagas suficientes para os homens. Agora, imagina o quão difícil foi para as lésbicas: “algumas casaram porque não viram alternativa possível”. Um outro aspecto, que até então eu nunca tinha pensado sobre… é na importância dos bares para a criação da identidade homossexual. Lá eles se sentiam seguros, os bares gays foram o berço de uma nova cultura, de um senso de comunidade.


 As histórias são sensacionais, surpreendentes. Muitas se passam na década de 1960 e 1980. Lembrando que o livro foi publicado em 1991 – e mesmo com alguns avanços, está claro que ainda falta muito. As organizadoras, Deborah Abbot e Elle Farmer, também dão a contribuição com suas histórias, as  duas foram casadas com homens e depois assumiram a homossexualidade.

O que pude perceber é que a maioria das histórias perpassa por um caminho de culpa e medo. Pelo temor da não aprovação dos pais, dos ex-maridos e principalmente dos filhos.

A maioria das mulheres são maduras, algumas de 50, 70 anos… e é impossível não se apaixonar pela história de muitas delas. Em um dos relatos, por exemplo, uma mulher negra conta como na década de 1950, tomou coragem para largar o marido e assumir o relacionamento dela com uma dance girl, também negra, que conheceu em um bar noturno. Ou a mulher, que perdeu a guarda dos três filhos para um marido extremamente violento e ainda foi mandada embora de casa.

“Eu ainda acredito no casamento”

Foi uma das frases que vi repetida vezes no livro (não todas com essas palavras, mas com esse sentido). Em suma elas continuam defendendo a vida a dois, mas seguindo a liberdade sexual.

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