A foto 3X4, minha primeira humilhação escolar e minha mãe heroína

Outro dia, no curso que estou fazendo sobre escrita criativa, minha amiga me deu uma sugestão… disse que como tema de um texto, eu poderia escrever sobre um momento interessante da infância, algo que me remetesse à uma boa sensação. Fiquei duas noites seguidas pensando no que iria escrever. Diga-se de passagem, tive uma ótima infância, tenho muitas memórias boas. Muitas delas, graças a minha querida mãe.

Eu tinha decidido que iria escrever sobre uma caixa de lápis que ganhei na quarta série, uma edição especial da Faber Castel, onde todas as cores eram metálicas. Eu era apaixonada por aqueles lápis, os usava com cuidado e os fiz durar até o ano letivo seguinte. Depois me lembrei de um batom cinza que ganhei… uma vizinha nossa estava vendendo batons, minha mãe queria que eu comprasse um vermelho, mas eu fiz questão do cinza. Um dia cheguei na escola e a professora (de artes), disse que o batom era maravilhoso. E como era cinza, meio brilhante, eu fiquei me imaginando um robô (e passei o dia inteiro agindo como um robô).

metalicos

Comecei a escrever algumas linhas do texto, mas aí me lembrei de algo (que não me remete à uma sensação boa) e que não deixa de ser interessante. Me lembrei de uma festa escolar. Nós, os alunos, tínhamos que fazer um cartaz usando imagens dos nossos pais… e quem disse que eu tinha uma foto dele?

Na época eu pedi para minha mãe uma foto do meu pai e ela também não tinha. Fiquei arrasada porque seria a única que não iria levar uma. Minha mãe prometeu que iria conseguir e eu passei alguns dias, extremamente curiosa. Acho que já não o via há muito tempo e na minha mente, construía o seu rosto, sem saber como ele era (eu juro… não me lembrava). Daí, um dia ela chegou com a foto e para a minha decepção, era uma 3×4. Em preto e branco, marcada por um carimbo redondo e azul (não sei se era uma foto de documento, enfim).

Fiquei com vergonha de levá-la, mas pensei que seria pior não ter nenhuma. Recebemos um cartaz (o meu era amarelo – olha, como essa lembrança ainda está viva na minha mente!). Colei a foto no meio e desenhei tudo o que podia em volta… usei os meus belos lápis, para dar vida a algo extremamente abstrato. As professoras queriam que eu escrevesse frases sobre os momentos bons que tive com o meu pai e pediam que eu desenhasse algo sobre a nossa relação… Imagine, o que eu iria escrever?

Entregamos os cartazes e para o meu alívio, as professoras os guardaram. Achei que nunca mais iria vê-lo até que, no dia da festa dos pais, cheguei na escola e vi todos os cartazes expostos na parede central da escola. Repetindo, NA PAREDE CENTRAL DA ESCOLA. Observei os cartazes dos meus colegas, o da Joyce, uma coleguinha…era azul, e tinha tantas fotos, mas tantas fotos, que acho que ela mal teve espaço para desenhar. O meu estava quase ao centro, com pequenos desenhos e uma minúscula foto, 3×4, em preto e branco, manchada com um carimbo redondo azul. E eu não sei direito o que senti, mas acho que foi um pouco de vergonha, tristeza e felicidade, porque apesar de tudo, a foto 3×4, em preto e branco, manchada com um carimbo redondo azul, era minha e…existia.

Hoje eu penso no sufoco da minha mãe para arrumar essa foto e não me lembro da reação dela ao ver o cartaz. Aliás, nem sei se ela sabe “dessa parte da história”. Anos depois rasguei a foto, me incomodava vê-la. E também, acho que rasguei com sentimento de rebeldia, de auto-afirmação, tipo… “eu nunca precisei dele”. O que guardo (e valorizo) disso tudo é o aprendizado, sabe… o tempo passa e aos poucos, a gente vai aprendendo a lidar com essas pequenas dolorosas lembranças e vamos aprendendo a transformá-las em algo nostálgico e bom.

É como diria um dos meus autores favoritos…

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One thought on “A foto 3X4, minha primeira humilhação escolar e minha mãe heroína

  1. cristinaferreira diz:

    Enfim,jamais almejei ser uma heroína,apenas fiz e faria tudo de novo,como uma forma simples de amar delegar ao outro um sentimento é praticamente impossível,me faz repensar quantas maneiras diferentes,as vezes inusitadas de ensinar,tendo em vista muitas críticas,tipo,passar esmalte nas unhas das galinhas,para tirar seu medo daqueles bichinhos,chegar em casa cansada e assistir uma peça de teatro ensaiada por vc quase o dia inteiro,o meu trabalho me roubou muitos finais de semana,porém a medida que os anos se passaram nossa cumplicidade se fez maior,saudade sim sofrimento não,ser heroina realmente não me caracteriza, apenas me faz enxergar como foi válido chegar até aqui,viver é isso saber se expressar,ter sentimentos ainda que no momento do seu acontecimento parecesse a pior situação,a mais humilhante,e com um piscar de olhos o tempo passa,chegamos na fase da serenidade e é com ela que devemos seguir sempre,pois para o mundo seremos O e não simplesmente mais UM,te amo sua mãe

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