Se vivêssemos em um lugar normal


– Você já foi para a Disney? – Contra atacou Jack

– Claro! O voo saiu do aeroporto internacional de La Chona. Pelo que eu sabia, a Disney era um castelo de fantasia onde o importante era se comportar bem, não importa o que acontecesse ou o que você pudesse ver. As vezes algum Mickey Mouse, quando ninguém estava olhando, levava você para o canto e enfiava o dedo no seu cu. Mas você tinha que ficar quietinho, sem reclamar e sem fazer o mesmo, nada de querer agarrar os peitos da Margarida ou da Minnie, não, porque havia guardas hiperfuriosos que surravam você com o cassetete. Estão vendo? Melhor não falar da Disney na frente dos pobres.

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Ontem terminei de ler mais um livro do Juan Pablo Villalobos, passei praticamente toda a viagem de Minas/São Paulo o lendo. Comentei aqui no La Amora que no mês passado conheci este autor através do livro Festa no Covil e que gostei da sua narrativa, do seu bom humor e de suas ironias. Pois, “Se vivêssemos em um lugar normal” também tem essa pegada, ainda que de uma perspectiva bem diferente.

A história se passa na década de 1980, num México assolado por pobreza e com uma enorme discrepância social, em uma cidade em que “há mais vacas do que pessoas”. O narrador é Orestes, um adolescente que vive junto à sua família em uma casa minúscula e mal acabada que mais se parece uma “caixa de sapato”. Seu pai é professor de educação cívica e moral e sua mãe, dramática, é uma mulher que recusa a própria pobreza e insiste em dizer que pertence à classe média, ou seja, quejuam nega o mundo em que vive. Dentre disputas e ofensas, Orestes e seus seis irmãos aprenderam a sobreviver a base de quesadillas. Como a comida é pouca, um nutre o desejo secreto de que os irmãos desapareçam.

O “equilíbrio” da família é interrompido quando chegam novos vizinhos no morro da “puta que pariu” (onde eles moram). Acontece que a casa dos vizinhos é grandiosa, luxuosa…e Orestes não entende para quê serve uma casa tão grande para uma família com apenas três membros. “Definitivamente somos pobres”.  Em seguida se instala no local um empreendimento imobiliário de alto padrão e a casa da família de Orestes está prestes a ser demolida.

O livro é uma delícia, daqueles que você lê rapidinho e volta para reler as partes mais engraçadas. Ah! E a Polônia também aparece nesta história (junto a elementos fantásticos como alienígenas e melancias psicodélicas). Uma história que se passa no México, mas que com facilidade poderia se passar no Brasil, principalmente por causa da bem humorada descrição da pobreza, dos pobres e sua conflituosa relação com a sociedade.

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