Hasta no verte Jesus mio

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“Esta é a terceira vez que regresso à Terra, mas nunca sofri tanto quanto nessa reencarnação, já que na vida anterior fui rainha.”

Descobri Elena Poniatowska quando me mudei para São Paulo, um de seus livros foi o primeiro que li quando fiz a minha carteirinha na biblioteca pública. Foi paixão a primeira vista, ou a primeira lida. Pra falar a verdade, já tinha ouvido sobre ela em uma entrevista da Daniela Romo, que dizia gostar da sua narrativa. Na época não dei muita atenção até realmente pesquisar sobre a autora, ver suas entrevistas e ler seus livros. Comecei por Hasta no verte Jesus mío, escrito em 1969. Trata-se da história de Jesusa, uma mulher que cresceu e viveu em um ambiente de pobreza, que sofreu inúmeros abusos e proibições (principalmente do pai e do marido) e que mesmo assim, não deixou de se rebelar contra as injustiças sofridas por ela e por seu povo oaxaqueño – isso tudo durante o Porfiriato.

O livro de Poniatowska é um marco na literatura mexicana porque rompe com o oficialismo e apresenta uma narrativa alternativa através de um discurso bastante feminino. É uma obra que presa pela memória e dá a voz representativa, através de um personagem, à uma multidão marginalizada (sofrida, mas não resignada). Gosto especialmente do humor negro, do trabalho respeitoso da autora às tradições e as crenças populares.

Jesusa nasceu e viveu na pobreza, a mãe morreu pouco tempo depois de seu nascimento, ela trabalhou em diversas funções para garantir sua sobrevivência, casou-se sem ter uma paixão fervorosa pelo noivo, sofreu abusos físicos e psicológicos, perdeu-se do marido em plena Revolução Mexicana, falava com mortos e acima de tudo, tinha uma rudeza que mesclava a ignorância com a sabedoria, por exemplo… ela passava horas se ensaboando no rio e se raspando com areia: “E mesmo que estivesse doendo, a questão é que eu precisava matar o microbio”

A amizade entre autora e a personagem

O que mais me encantou na obra não foi só a trama, a narrativa ou a personagem com visível tom feminista. Acontece que além de ser baseada em uma história verídica, trata-se de uma relação de confiança e amizade entre entrevistador e entrevistado. Bom…Poniatowska nasceu em Paris, mas foi naturalizada no México. Começou a trabalhar como jornalista em 1955, entrevistou grandes nomes da figura política e cultural da América Latina. Em 1962 foi assistente do antropólogo Oscar Lewis, que lhe chamou atenção para o jornalismo testimonial (o que ao meu ver, está muito próximo do conceito de novo jornalismo). Foi daí que surgiu a ideia para escrever “Hasta no verte Jesus mío”,

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Um dia Elena estava em uma lavanderia e escutou Josefina Bórquez, que ao que parece, reclamava de alguma coisa… mas com muita sabedoria. A jornalista ficou encantada com a sua linguagem, com seu sotaque e se aproximou. Assim deu início à um trabalho de testemunho, em que visitava Josefina semanalmente para tomar notas de suas histórias, de suas memórias, de suas piadas e crenças.

Elena, que em 2013 recebeu o prêmio Cervantes, deu uma entrevista à CBN e comentou sobre Josefina: “Ela me marcou muito, por ser uma pessoa de caráter e dignidade. Me encantou assim que a vi, assim que conversei com ela. Quando fazia as visitas ela me dizia: você está roubando a minha luz, então vai ter que pagar!. Isso porque eu usava um gravador enorme. Ela era muito valente e me marcou muito, se todos os mexicanos fossem como essa mulher, uma mulher de verdade, estaríamos salvos”

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