Diante da dor dos outros

thais

Fui uma criança dramática, daquelas que se achava a mais feliz do mundo – ou a mais infeliz.

Meu humor ia de 8 a 80 em minutos. Lembro que minhas tias, meus primos, meus amigos, minha mãe e minha avó diziam que eu era chorona. Os meninos mais velhos da rua não me chamavam para brincar porque eu “chorava por tudo”. A verdade é que eu continuo chorona, mas com uma percepção de vida muito diferente.

Dois aspectos da minha infância, que me acompanharam em todo o meu crescimento, eram os que mais me incomodavam, os que mais me deixavam triste. A ausência paterna sempre foi um fantasma, demorei muito tempo para aprender a conviver com essa ideia, sem o sentimento de culpa, de rancor ou vergonha. Eu sofria muito, sofria de verdade. As festas escolares, a ausência e a luta diária da minha mãe me preocupavam tanto que não era difícil me ver reprimida em um canto, sempre pensativa.

Também nunca me encaixei ao esteriótipo da menina linda, delicada e magrinha. Pelo contrário, estive sempre acima do peso. Eu era a desajeitada, a menina de pernas grossas, aquela que nunca conseguia comprar roupas no shopping com as amigas porque nenhuma servia. Eu era a baleia da rua, o botijão de gás. Como eu sofria, meu Deus!

Tenho a certeza de que certos questionamentos vão me acompanhar pelo resto da vida, as complexidades humanas, as crises existenciais… nunca vou me livrar disso. Vez ou outra me pergunto sobre as minhas origens, sobre a escolha do meu pai de não estar em minha vida, sobre o fato de eu não ser como as outras. Hoje não sofro mais, não por esses motivos. Acho que foi o tempo, o amadurecimento. 

Conhecer pessoas, ouvir suas histórias me ajudou a perceber que tenho uma vida cheia de privilégios, e que meus problemas não são forças determinantes de fracasso. Outro dia, estávamos conversando na sala aqui de casa e o pai da minha amiga, um senhor na casa dos cinquenta e tantos anos, se emocionou ao falar da sua mãe. Mãe solteira, de sete filhos. Tantos anos se passaram e ele não esqueceu o abandono do pai, mas seguiu em frente. Aí a minha colega, que estava sentada ao meu lado, contou exatamente a mesma história. Mãe solteira, sem contato com o pai. A outra, também contou a mesma coisa…. Quero dizer, quantas pessoas como nós passam pela mesma situação?

A minha dor, definitivamente, não era mais legítima do que a deles. Era igual. A dor dos outros era igual a minha.

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