Stelinha

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons


stelinha.0Sempre achei a Esther Goes linda, ela tem a beleza que me remete às atrizes da época do cinema clássico… e aquela pinta abaixo dos olhos é um charme a mais. Há tanto tempo queria escrever sobre esse filme, fiz inúmeros rascunhos e os perdi… mas, finalmente, me animei a reescrever.

Assisti Stelinha numa noite de ócio; zapeando pela TV fui parar no Canal Brasil. Já falei que amo aquele canal e que sinto uma falta danada de ver televisão? Pois é… E lá estava Esther, linda… e bêbada, contracenando com um jovem e tímido Marcos Palmeira. Aliás, “Stelinha” foi dirigido por Miguel Faria Jr., roteirizado por Rubem Fonseca e trouxe fortes nomes no elenco, entre eles: Ana Beatriz Nogueira, Lília Cabral e Pedro Cardoso. Nas cenas, Esther dubla algumas músicas cantadas por Adriana Calcanhoto.

Eu gosto muito do cinema nacional, gosto mesmo. Me decepciono com mutos filmes e tenho boas surpresas com outros. Stelinha foi uma boa surpresa, um filme melancólico, daqueles que dá vontade de rever, de ficar vidrado. Pra falar a verdade a trama é semelhante àquelas que já vimos em muitos filmes (e que já acompanhamos na vida real). Uma cantora faz um sucesso estrondoso quando jovem, depois cai no amargo e solitário esquecimento. Esse filme me lembra Crepúsculo dos Deuses, sabe?

O fato é que o filme inicia com a cantora já decadente, alcoólatra, endividada e imersaStelinha em um louco mundo de sexo sem compromisso. Daí ela é encontrada por um jovem produtor, Eurico, que é seu fã, e que se propõe a gravar um novo disco dela. Só que ela já está na lama, está no fundo do poço e não consegue se livrar do fracasso. Ao longo do tempo ela vai criando uma relação de dependência com Eurico e a comunicação entre os dois fica cada vez mais problemática, até porque pertencem a gerações diferentes e distintas percepções sobre música.

O fim de Stelinha não poderia ser mais degradante, em uma das cenas finais ela se propõe a fazer sexo com três estranhos em troca de cigarro… “Quero gozar fumando”.

Meu amigo Cláudia

MeuamigoClaudiaAdoro documentários, adoro! Há muito tempo assisti “Meu amigo Cláudia” no Canal Brasil e desde então queria postar algo sobre ele aqui no La Amora. O tempo foi passando e eu nunca o fazia, até que neste fim de semana eu revi o documentário e me lembrei o porque gostei tanto dessa filme. Cláudia Wonder, transexual brasileira, escritora, cantora e performer – uma história incrível.

Cláudia é enigmática, encantadora. No documentário, ela narra a própria história e é impossível não ficar vidrado e apaixonado pela maneira que fala. Logo no início do filme, ela nos contextualiza sobre a sua infância: cresceu convivendo com a rejeição dos pais e com a rígida criação dos tios. Em seu interior já existia a vontade de ser mulher. Quer dizer, ela sabia que era mulher: “Eu era diferente dos amigos, diferente dos amigos, porque queria ser a Miss Brasil, a Cinderela…”

Se vestiu como mulher pela primeira vez aos quinze anos e gostava de frequentar “boates de puta” porque se sentia mais a vontade. Daí foi presa por quinze dias, o pai que mandou… queria lhe dar uma lição. Na noite começou a compreender o contexto transgênero e se sobressaiu na performance artística underground. Foi militante pelo direitos dos homossexuais, numa época de um agressivo combate contra os gays. Fora a incompreensão em relação à AIDS, a morte de muitos amigos, enfrentou a violência e o desrespeito diário da mídia, da sociedade…

Claudia

Participou do primeiro filme da Pornochanchada brasileira que trazia uma transexual: “O sexo dos anormais” – uma produção com uma história tão complexa, que merece um post separado. Morou durante onze anos na Europa, onde trabalhou em shows e como empresária na área da estética. Depois voltou ao Brasil, gravou alguns discos,  escreveu um livro. Morreu em 26 de novembro de 2010, em decorrência de uma criptococose.


“Para uns eu sou um show, para outros… uma ameça”

claudia wonderrr

1 – O texto que eu escrevi acima não faz jus à personalidade e a história de Cláudia, nem ao filme. É um documentário que merece ser assistido, e seu trabalho merece ser mais conhecido. Existem muitos e bons sites que falam sobre a Cláudia.

2 – Sou apaixonada com o título desse documentário. Trata-se de uma crônica escrita por Caio Fernando Abreu em homenagem à ela, publicado na década de 80 no Estadão.

3 – Cláudia era contemporânea de Roberta Close e acho muito interessante o tratamento diferenciado que as duas receberam da mídia. Cláudia me parecia mais politizada, mais agressiva também. Em seu depoimento ela apresenta um duro e assustador retrato das violências (físicas, morais, sexuais, psicológicas) sofridas pelos transexuais.

4 –  Tornou-se um ícone da comunidade LGBT paulista. Em 2001, foi escolhida como abre-alas da Parada Gay de São Paulo e foi madrinha do Festival Mix de Cinema e Video da Diversidade Sexual.

Um rosto de mulher

Joan CrawfordOntem dormi de madrugada, fiquei assistindo um filme com a Joan Crawford chamado “Um rosto de mulher”, dirigido por George Cukor. Sempre quis assistí-lo, mas nunca achava… até que a Jéssica me apresentou o Memo Cine, um site encantador e super indicado para quem gosta de filmes clássicos.

“Ah como a Joan era linda”, é o que eu penso toda a vez que assisto um de seus filmes. Gente, ela era linda demais! A década de 40 é a minha preferida, ela está estonteante.  Em “Um rosto de mulher”, que é de 1941, ela tirou o meu fôlego…

Na trama, Joan interpreta Anna Holm, proprietária de um restaurante que exerce chantagem sobre alguns de seus clientes. É uma mulher fria e solitária, que se esconde atrás de uma cicatriz. O fato é que, no fundo, ela possui baixa-autoestima e se defende ao incorporar uma personalidade agressiva e vingativa. Em uma de suas tentativas de chantagem, Anna acaba seJoancrawford encontrando com um cirurgião plástico que se oferece para corrigir sua deformidade, e após esse momento, ela precisa fazer uma escolha: continuar sendo uma mulher com valores desprezíveis ou começar uma vida nova. 

Joan está tão sombria, tão séria… e a trama nos apresenta uma problemática psicológica que faz com que o filme pareça mais denso. O fato é que a cicatriz possui uma ligação metafórica com sua personalidade e com seus valores, somos estimulados a descobrir se ela é tão feia “internamente” quanto “externamente”. Mas, os personagens que a rodeiam são tão desprezíveis quanto ela, desde os empregados que a ajudam em seus crimes e debocham de seu rosto, quanto os clientes… um falso milionário que não paga suas contas, uma esposa que trai o marido…

Li que Cukor se inspirou no livro do escritor Francis de Croisset, chamado “Il était une fois”. A história também pode ser encarada como uma releitura de “A Bela e a Fera” de “Frankenstein”.