Onde andará Dulce Veiga?

dulceJá que eu publiquei uma resenha sobre “Morangos Mofados”, resolvi também falar sobre “Onde Andará Dulce Veiga”, o primeiro livro que li do Caio Fernando Abreu. Com toda a sinceridade, eu não sei descrever a grandiosidade desse livro e o que ele significa para mim. O li quando ainda estava no ensino fundamental e mergulhei na história de uma maneira inexplicável. Eu andava com esse livro para cima e para baixo e confesso que não fazia ideia de quem era o autor… acho que fui redescobri-lo anos depois, quando eu já estava quase me formando na faculdade. É realmente um livro lindo, que eu adoraria reler.

O livro foi escrito entre 1985 e 1990, traz muitos questionamentos, aborda temas polêmicos. Os personagens de Caio tem medo da AIDS, alguns morrem e sofrem a doença. O livro aborda as consequências das drogas, fala sobre a violência urbana, sobre homossexualidade e bissexualidade, sobre religião (nesse livro, especialmente sobre a umbanda), sobre a ditadura militar… É realmente um dedo na ferida. Me encanta como ele trabalhou os gêneros e a sexualidade dos personagens, hora o filho da faxineira se chamava Jacyr, hora se chamava Jacyra. Às vezes o Saul se vestia de Dulce, às vezes Márcia beijava mulheres.

A história tem como um dos centros o jornalista Pedro, o narrador-personagem que está enfrentando uma crise moral: ele está apaixonado por um homem, mas não se considera gay… pelo menos, não se considerava até aquele momento de sua vida. Pedro foi recém contratado por um jornal e tem a possibilidade de escrever uma grande reportagem, logo se lembra de Dulce Veiga, uma cantora famosíssima que conheceu há vintes anos e que desapareceu misteriosamente. Ele então entra em contato com Márcia, filha de Dulce… uma jovem meio “punk”, assombrada pela morte do ex-namorado, usuária de drogas.

Além da presença de Márcia, Pedro tem a ajuda de um diário de Dulce que encontrou no estofamento da poltrona em que, há vintes anos, ela lhe deu uma entrevista. A sua jornada o permite conhecer outros personagens enigmáticos como Saul, amante de Dulce. Um homem meio grosseiro que foi consumido pelas drogas e pelos choques elétricos que sofreu na juventude – ele foi torturado durante a ditadura militar (depois do desaparecimento da cantora), isso o traumatizou profundamente. O encontre entre Saul e Pedro é interessantíssimo, há um estranhamento e depois um beijo: Pensei então no GH de Clarice, mastigando a barata, em Jesus Cristo beijando as feridas dos leprosos, pensei naquela espécie de beijo que não é deleite, mas reconciliação com a própria sombra.

Quando estava a ponto de desistir, Pedro encontra Dulce… ela usava roupas simples e cantava num bar de estrada, numa pequena cidade brasileira. Os moradores de lá sabiam que ela era famosa, mas meio que  para protegê-la, não tocavam no assunto. Ela o vê e o reconhece, convida-o para ir à sua casa.. quase que uma “caverna” localizada em um monte. É realmente emocionante o encontro dos dois, Pedro percebe que Dulce enfrentou uma crise existencial e espiritual, e que ali encontrou a paz…

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