sobre “O terceiro sinal”

Eu pensei muito se iria ou não escrever sobre a peça, depois de duas enormes publicações sobre Bete Coelho, eu realmente me perguntei se ficaria repetitiva. Provavelmente sim, mas a verdade é que pouco me importa. Eu sempre escrevo neste blog pensando em que vai lê-lo, mas penso no quanto cada um desses textos importam para mim e para a minha memória.

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Assisti a peça duas vezes, cheia de expectativas e emoções. Quando foi lançada, eu ainda morava em MG e cursava jornalismo. Li algumas passagens do livro e sempre o relacionava com o novo jornalismo e com o jornalismo literário.

No segundo dia em que vi a peça, o autor do livro estava no teatro. Dele eu fazia uma outra ideia, na minha cabeça a imagem impregnada era a de um homem alto, robusto e de cabelos escuros. Nunca parei para pesquisá-lo e jurava que era um jornalista contemporâneo do Nelson Rodrigues ou algo do tipo (isso antes de ler o livro, apenas com algumas imagens da peça na cabeça e pouco conhecedora da sinopse).Quando o vi, fiquei curiosa,, esperávamos Bete trocar de roupa. Na minha invisibilidade, eu reparava tudo o que me cercava com uma sensação louca que alterava meus sentidos, uma anestesia mesmo. Ele era baixo, com orelhas meio pontudas e bem diferente de tudo o que imaginei. Tinha cabelos brancos.

Por um momento a impressão foi quebrada, reparei uma situação meio chata e constrangedora. Não sei se todo mundo viu ou se quem viu, fingiu que não. Assim como eu também o fiz. Meus sentidos foram alterados, aquela ideia do “personagem” tinha se transformado, como se um quadro acabasse de receber uma grossa pincelada que alterasse as cores já aplicadas.

Mas isso não é tão importante. Vamos ao que realmente interessa, o livro a qual a peça é baseada se chama Queda livre e contém a narrativa de pequenas aventuras da vida dele, alguns desafios que ele se impôs. A peça fala sobre uma delas, de sua experiência como um ator não profissional. Ele participava de um trabalho do Teatro Uzyna, dirigido por Zé Celso. Era Boca de Ouro, de Nelson Rodrigues.

Sabe, sempre quando penso em metalinguagem me remeto à Almodóvar. Acho bárbaro as peças e filmes que trabalham com esse recurso de uma maneira simplificada e bem finalizada. “O terceiro sinal” é um desses, é o teatro falando do teatro de uma maneira muito sensível e por vezes cômica.

P.S = Estou sentada numa sala da USP, esperando a aula começar; enquanto isso escrevo.

Voltando… eu reparei em tudo naquele dia, desde o papo das pessoas na fila, aos detalhes das marcas no palco. Eu não queria perder nada. Por exemplo, por mais que o evento tenha sido gratuito, eu senti uma falta do “povão”. Daí me lembrei de um estudo acadêmico sobre a importância da arquitetura do Palácio das Artes em BH e como essa própria arquitetura afasta mais o povo do que atrai. Na pesquisa as pessoas entrevistadas disseram que não entravam  no Palácio das Artes porque não tinham dinheiro para pagar pelos eventos, sem saber que muitos deles são gratuitos ou a preços populares.

Me impressionei muito com a tranquilidade da Bete diante daquela gente fria e ávida por uma ação. Se fosse eu, teria saído correndo bem antes das cortinas abrirem. Depois o que me impressionou foi a facilidade e o domínio com as falas, algo que sempre me remete à Anna Magnani (e não sei porque) talvez porque ela amava o teatro tão e intensamente, que se preocupava em dizer as falas com precisão quase religiosa em respeito aos escritores. [Pelo menos foi isso que li sobre ela].

A insegurança de Otávio/personagem diante da necessidade de entrar no palco é bem cômica, mas me soou mais sentimental. Aquele palco poderia ser reinterpretado de muitas outras  formas, como quando encaramos os desafios da vida: o primeiro parto de uma mulher, a apresentação de um TCC, a primeira viagem sozinha, a visita a casa dos pais do namorado, o adeus a virgindade.Do melhor que senti do personagem foi seu medo e sua vergonha, medo do insucesso, da derrota, do tombo. vergonha da voz, do próprio corpo, da falta de experiência.

A história dele é um encorajamento para que não tenhamos medo de encarar um mundo novo e desconhecido. Um lembrança das nossas condições, de que estamos sempre muito perto do fracasso e da imperfeição e que tentar já é de certa forma uma vitória.

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PAUSA

19:34h  – A aula começou há alguns minutos e quase caí da cadeira quando o professor falou que o tema seria: QUEDA LIVRE. Estamos estudando a pós-modernidade e alguns conceitos bem complexos como o estruturalismo, o pós estruturalismo e a reconstrução. É muita coincidência (e acreditem em mim, juro que isso tá rolando agora!) O subtítulo da aula é: “Um grão de areia no maremoto”. Agora ele menciona um texto obrigatório que relaciona a pós modernidade com a montanha russa, uma alegoria. Estou anotando tudo o que ele diz por que ainda estou incrédula sobre como esta aula está tão ligada ao que acabei de escrever sobre a peça. “Perdemos os sentidos, beijamos o céu. Insegurança na subida e quanto mais alto, maior a queda. Começamos a perder os sentidos e as certezas, depois vamos para o looping: você vira de ponta cabeça e sofre um descentramento, não sabe qual é o próximo passo, Pânico, Caos. É o fim, é o nada”

As lágrimas do comediante, disse um dia Diderot, escorrem de seu cérebro; as do homem sensível jorram de seu coração. 

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