O cangaço, a oralidade e a espacialidade

Num dia desses, sem muitas pretensões, assisti a um documentário chamado “Feminino Cangaço”, que despertou a minha curiosidade sobre o movimento e me fez conhecer um mundo de informações. Na minha cabeça o cangaço se resumia a Lampião, Maria Bonita e aquela horrível imagem de suas cabeças expostas. Li inúmeros arquivos e trabalhos acadêmicos sobre o tema e há tantas coisas e perspectivas possíveis que é difícil resumir. Depois aproveitei o tema para fazer um pequeno trabalho pra faculdade, relacionando-o com o conceito de espacialidade e oralidade. Foi um movimento polêmico, controverso e inspirador que vale a pena ser conhecido. Das inúmeras leituras e anotações que fiz, divido com vocês (como sempre):

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Ilustração: José Lourenço

Breve resumo sobre a história do Cangaço

Para compreender o Cangaço, seu surgimento e sua importância histórica, é necessário não o desvincular das questões sociais e fundiárias no Nordeste. Este fenômeno de banditismo nômade, caracteriza-se por grupos de homens que vagavam pelas cidades em busca de justiça e vingança pela falta de emprego e alimento.

Os registros mais antigos sobre a surgimento do movimento data-se no fim do século XVIII. O primeiro cangaceiro da história teria sido José Gomes, conhecido como Cabeleira e nascido em 1751.  Porém o grupo só ganhou certa visibilidade com a atuação de Jesuíno Alves de Melo Calado, conhecido como Jesuíno Brilhante. Muitos interpretam o Cangaço como um grupo que trabalhava como justiceiros, outros o interpreta como um grupo de aproveitadores e criminosos. A linha entre essas duas perspectivas é realmente tênue, mas o que especialmente os caracterizava eram os assaltos sequestros e saques.

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O termo “cangaço” provém da palavra “canga”, uma peça de madeira utilizada nos pescoços dos bois para realizar certos transportes. Como os cangaceiros precisavam levar todos os pertences junto ao corpo, foi lhes dado essa denominação. O termo também está relacionado aos bandos de camponeses pobres que viviam no Nordeste e que usavam roupas de couro e levavam armas (carabinas, peixeiras e espingardas) junto ao corpo.

O bando ganhou força especialmente no fim do século XIX e início do século XX, quando ocorreu a ascensão de Virgullino Ferrreira da Silva, o Lampião:

“Tido por muitos como um justiceiro social e por outros como um bandido que matava a sangue frio, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, foi o cangaceiro que mais acendeu a imaginação popular. Uma das lendas que explica seu apelido diz que ao se apresentar ao bando de cangaceiros, aos 17 anos, Virgulino usou um truque que transformava um fuzil em metralhadora. A mágica consistia em amarrar ao mesmo tempo um lenço no cotovelo e na peça do disparador, de modo que quando acionasse o gatilho, o fuzil se armasse. Até hoje no Nordeste esse feito é conhecido como o pulo do Lampião” (GOMES, p.16, 2007).

A participação das mulheres no movimento ocorreu por volta de 1930, quando Maria Bonita (Maria Gomes de Oliveira), companheira de Lampião, se uniu ao grupo. A partir disso, mais de trinta mulheres passaram a fazer parte do cotidiano dos cangaceiros e serem consideradas criminosas; o maior número delas veio da Bahia, seguidas por mulheres do Sergipe, Alagoas e Pernambuco.

No entanto, a maneira em que foram inseridas no Cangaço é polêmica e por muitas vezes, desconhecida. Enquanto algumas delas ingressaram voluntariamente, outras foram coagidas, sequestradas ou privadas do convívio com seus familiares. A idade delas variava entre 13 e 26 anos e suas origens eram diversas, desde aquelas mais humildes àquelas de famílias abastadas que viam no movimento uma oportunidade de conquistar novos espaços e como uma atitude libertária.  Um fato interessante: quando grávidas, precisavam ficar escondidas e depois do nascimento do bebê, eram obrigadas a voltar ao cangaço e doar a criança para alguma família.

O marco do fim do Cangaço aconteceu na madrugada de 28 de julho de 1938 quando um grupo policial liderado pelo tenente João Bezerra encontrou e atacou o grupo de Lampião na fazenda Angico, em Sergipe. O Rei foi Cangaço, Maria Bonita, e outros dez cangaceiros foram degolados e tiveram suas cabeças expostas nas escadarias da Igreja Santana do Ipanema.

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Os Cangaceiros e a Espacialidade

Como não moravam em locais fixos, os cangaceiros tinham uma vida nômade. Viviam sempre em movimento, de uma cidade para outra, solicitando (ou exigindo) a ajuda dos moradores locais ou enveredando pela vegetação cheia de espinhos da caatinga. A singularidade deste comportamento é rica em sentidos e possibilita uma vasta gama de interpretações e análises. Uma delas é que o grupo representava uma ameaça constante à segurança da comunidade dessas cidades, por isso encarados como estranhos.

Recorremos a Zygmunt Bauman, autor de “Modernidade Líquida” para compreender melhor o sentido desses termos. A ideia de comunidade está muito próxima do que o autor chama de “utopia da harmonia”. É, acima de tudo, um território vigiado de perto, onde aqueles que fazem algo que desagrada os outros ou provocam ressentimento são prontamente punidos e colocados na linha. Ainda, segundo o autor, “os desocupados, os vagabundos e outros intrusos que não fazem parte, são impedidos de entrar”.

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Um acontecimento marcado na história do bando de Lampião e que pode ser facilmente relacionado ao tema da espacialidade é o famoso ataque a Mossoró. No dia 13 de junho de 1927, Lampião enviou uma carta ao prefeito, Rodolfo Fernandes, exigindo quatrocentos contos de réis para não atacar a cidade. Rodolfo recusou a proposta deixando claro que não tinha a quantia, e então Lampião decidiu invadir a cidade para saquear os comércios, os bancos e as casas.

“A ordem dada pelo prefeito era que quem estivesse desarmado saísse da cidade. O desespero aumentava mais a medida que o dia avançava. Às onze horas da noite, os sinos das igrejas de Santa Luzia, são Vicente e do Coração de Jesus começaram a martelar tetricamente, o que só servia para aumentar a correria. As sirenes das fábricas apitavam repetidamente a cada instante. Muita gente que não acreditava na vinda de Lampião, só aí passou a tomar providências para a partida. Na praça da estação da estrada de ferro, era grande a concentração de gente na busca de lugar para viajar nos trens que partiam de Mossoró. Até os carros de cargas foram atrelados a composição para que a multidão pudesse partir. Mesmo assim não dava vencimento, e os retardatários, em lágrimas, imploravam um lugar para viajar. ” (MAIA, 2016)

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A cidade, com o apoio de soldados, resiste ao ataque dos cangaceiros. Lampião foge com seu bando deixando um de seus companheiros baleado e atirado no chão, fora o cangaceiro Colchete, preso em Mossoró. Com medo do bando voltar, os defensores da cidade permaneceram em plantão por toda a noite.

O sentido de segurança em relação aos estranhos fica ainda mais interessante e complexo com as duas estratégicas sociais, identificadas por Claude Lévi-Strauss. De certa forma, as duas foram utilizadas com os cangaceiros. A primeira é a antropoêmica e consiste na ideia de “vomitar”, cuspir os vistos como estranhos e incuráveis, impedir o contato ou o diálogo, reduzir a interação social. A segunda é a antropofágica, e consiste numa desalienação. Uma forma de ingerir, devorar os indivíduos, uma espécie de assimilação forçada.

O Mestre: Lampião

Mesmo com sua personalidade obscura e assustadora, Lampião trazia consigo um brilho refletido na sua vontade de justiça. Foi isso que o fez entrar para o cangaço aos 17 anos, o intuito de vingar a morte do pai, assassinado em um assalto policial.

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A força que trazia dentro de si foi uma das causas que impulsionou e direcionou o movimento, sua morte deixou seus companheiros sem a orientação de como seguir adiante e enfraqueceu o bando a ponto de deixa-lo à beira do extermínio. Mais que um líder, Lampião também pode ser considerado como uma espécie de mestre.

Como explica Abib (2006, p.88), “o mestre é aquele que é reconhecido por sua comunidade como o detentor de um saber que encarna as lutas e sofrimentos, alegrias e celebrações, derrotas e vitórias, orgulho e heroísmo das gerações passadas, e tem a missão quase religiosa de oferecer esse saber àqueles que a ele recorrem”.

No caso de Lampião, sua figura não foi uma referência só para os cangaceiros. Muitas pessoas, fora do movimento, tinham nele a imagem de herói. Como explica Gomes (p. 17, 2006): “Até os próprios coronéis necessitaram da apreciação popular das ações de Lampião para justificar a impunidade dos cangaceiros. […] Como explicar a vitória de um pequeno bando sobre a polícia de oito estados se não pelos “superpoderes” dos cangaceiros? ”

Oralidade: a roupa e as histórias

É impressionante a riqueza cultural que pode ser extraída deste movimento. Quando se trata de oralidade, muitos são os temas a serem abordados e diversas podem ser as perspectivas. A começar pelas vestimentas dos cangaceiros, que por sí só, contam muitas histórias. Imagine que aquelas roupas pesavam cerca de trinta quilos, isso numa época em que a maioria dos deslocamentos eram realizados a pé. Como dito anteriormente, a roupa do cangaceiro era a sua casa, ele levava ali todos os seus pertences (incluindo os mais valiosos).

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A roupa: Ao longo dos anos, os integrantes do movimento foram construindo uma estética própria.  Os tecidos das roupas eram grossos e entrelaçados, normalmente eram de cor ocre (parecido com barro, argila). As calças eram alpercatas, uma espécie de meia grossa que protegia a pele contra os gravetos e espinhos. Os famosos chapéus de couro tinham abas largas e viradas para cima, normalmente eram enfeitados com mandalas ou com estrelas de cinco pontas. Eles também usavam lenço no pescoço, e na cintura, muitas bolsas, cabaças ou manculões como suporte para transportar os objetos pessoais.

Sobre o chapéu, a matéria assinada por Pollianna Milan e publicada pelo Jornal a Gazeta, vem esclarecer que “[…]a aba virava naturalmente para cima quando se cavalga, durante o período do cangaço, serviu de suporte de arte (na aba iam alguns enfeites) e também de alerta: nenhum cangaceiro poderia correr o risco de ser surpreendido em uma emboscada, por isso não poderia andar com a aba abaixada escondendo os olhos. ”

Outro detalhe interessante: os amuletos utilizados nas vestimentas traziam sorte e proteção. Para os cangaceiros, eles serviam como um objeto que neutralizava o mau-olhado.

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.    @paulastorm

As histórias: As heranças deixadas pelo cangaço são diversas e as histórias são recontadas até hoje. É a memória como força instauradora, repleta de ritualidades a serem interpretadas e de referências a serem relembradas. Conta-se, por exemplo, que Lampião teve o olho direito furado por um galho seco de arbusto quando fugia correndo pela caatinga, por isso era cego de um olho. Ou que, por odiar mulheres de cabelo curto, Lampião mandou marcar com ferro aquelas que o desobedeciam. Quando uma cangaceira era morta ou feita prisioneira, os cangaceiros iam atrás das mulheres dos policiais para descontar o feito.

Das inúmeras histórias, vieram as narrativas orais, teatrais, musicais, televisivas e fílmicas. Além dos trabalhos acadêmicos, das teses e das exposições. Dos filmes, dois grandes exemplos, “Corisco e Dadá” (1996, direção de Rosemberg Cariry) e “Deus e o diabo na terra do sol” (1964, Glauber Rocha).  Dos livros cita-se “Os Cangaceiros” de José Lins do Rego e o romance O Cabeleira, de Franklin da Távora. Não podemos esquecer dos cordéis que apresentavam posições fantasiosas sobre as façanhas de Lampião, ora refletindo o medo ora a admiração da mentalidade popular.

Referências

ABIB, Pedro Rodolfo Jungers. Roda de Capoiera, Angola e a força do canto dos poetas –  Uma abordagem sobre a noção da circularidade do tempo. 2006.

ANDRADE, Altair. A história do cangaço: verdades, lendas, narrativas sobre um fato histórico-social. Disponível em: http://cafehistoria.ning.com/profiles/blogs/historia-do-cangaco-verdades[Acesso em 01.06.2016]

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Editora Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 2007.

GOMES, Karolina. HACKMAYER, Monica. PRIMO, Virgina. Lampião, Virgulino e o mito. Revista Eclética, Junho-Dezembro de 2007.

MILAN, Pollianna. A moda do cangaço. Disponível em: http://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/a-moda-de-lampiao-26ohoct3wvy2p0942qutg2pu6 [Acesso: 01.06.2016]

Mulheres do Cangaço: www.mulheresdocangaco.com.br [Acesso em 03.06.2016]

Feminino Cangaço, documentário. Centro de Estudos Euclides da Cunha, WebTV Unerb, Direção Lucas Viana

Revista História: As Cangaceiras. Disponível em: http://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/as-cangaceiras. [Acesso em 01.05.2016]

RASPANTINNI, Márcia. Femino Cangaço: Mulheres que Transgrediram as regras do sertão. Disponível em: http://historiahoje.com/feminino-cangaco-mulheres-que-transgrediram-as-regras-do-sertao [Acesso: 04.06.2016]

MAIA, Geraldo. O dia em que Lampião atacou Mossorró: Disponível em: http://www.passandonahorarn.com/2015/06/o-dia-em-que-lampiao-atacou.html [Acesso: 04.06.2016]

 

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