Diante da morte dos outros

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Eu sempre quis publicar essa história no La Amora, mas não sabia como começa-la. Tenho um rascunho, feito em 2010 desse texto, e lê-lo me traz todas as sensações daquele dia. Já escrevi muito sobre “morte” aqui no meu blog, mas sempre com um tom de medo e de tristeza. Não sei de onde tiro toda essa minha melancolia, mas sei que é algo que me acompanha desde criancinha. Fui criada numa cidade do interior de Minas, cujo senso de comunidade é muito forte. As casas são germinadas, separas por apenas uma parede. Os vizinhos se conhecem há anos, há muitos anos, e as relações não são só de proximidade. Todo mundo daquele ambiente, tão entrelaçado, conhece sobre a vida do outro. Como naqueles filmes de pequenas vilas, onde há muita cumplicidade e ao mesmo tempo, uma competitividade venenosa. Lá existe muito amor, muita fofoca. É como uma grande família.

E eu cresci nesse meio, brincando de boneca e de bola na rua, andando de bicicleta. Junto com uma molequeada cheia de energia, que viviam vigiados e controlados pelos adultos. Eu entrava e saía de todas aquelas casas, conhecia o nome de cada um dos vizinhos e tinha (ainda tenho) um apelido carinho que minha avó me deu: “Bibinha” ou “Binha”.  É estranho porque a gente entrava um na casa do outro e nem batia na porta, ia entrando, como se a casa do vizinho fosse uma extensão da nossa casa (e as portas não ficavam trancadas).

Minha mãe é enfermeira. Foram incontáveis as vezes que a acompanhei em suas visitavas aos vizinhos mais velhos, moribundos. Ela ia nas casas, a convite dos donos, fazer um curativo, ajudar a dar banho. Ou só conversar mesmo. É impressionante o quanto eles gostavam dela (pelo menos, os que conseguiam se lembrar dela ou falar alguma coisa). Eu achava lindo ver minha mãe trabalhando, porque ela tinha uma energia que não combinava com aquela cena toda, de dor. Era uma energia positiva, um calor diferente.

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Normalmente íamos de manhã, ela acordava e falava: “Vamos visitar Dona Maria, tadinha… ela tá tão doente! ”. E eu ia junto, silenciosa, observadora, morrendo de vergonha. Quando a gente entrava no quarto ela sempre falava: “Não pode sentar na cama Thaís”, então eu ficava lá, encostada na parede ou em algum canto, tentando ser o mais transparente possível. Nem sempre era possível. Eu quase morria quando minha mãe chamava o doente e falava: “É minha filha Seu Antônio, olha como ela tá grande!” E o doente me olhavam, com um olho arregalado, que parecia querer dizer algo, mas não podia. Não quero que vocês pensem que isso acontecia com frequência. Não é isso… As vezes em que aconteceram foram tão marcantes que impregnaram na minha mente e marcaram a minha infância. Mas quando eu fui ficando maior eu parei de ir, eu simplesmente não conseguia mais.

Eu tinha uns doze, treze anos quando a minha mãe me levou na casa de uma de nossas vizinhas, e ela era a que eu mais odiava. Quando éramos mais novos, ela pegava as bolas que batiam na porta e jogava de volta, rasgadas. Era uma tristeza, acabava com a brincadeira de todo mundo. Naquele dia, quando a vi, senti uma coisa que não sei explicar. Todo aquele “ódio” se transformou num carinho inexplicável, eu queria agradecê-la por ter rasgado todas as bolas e ter feito da nossa brincadeira uma aventura mais divertida. Ela estava deitada de lado, as pernas estavam atrofiadas, e pretas…. muito pretas. Minha mãe abriu as pernas dela para colocar a fralda e ela gritava com tanta dor, e puxava o braço da minha mãe em desespero… e eu me segurava para não chorar (estou chorando agora, só de lembrar, acredita?) Tô chorando tudo o que não chorei naquele dia). E ela me olhava, mas não conseguia falar. Da boca dela só saía um “Mmmmm”, que me soava como “ME AJUDA!”.

Acho que foi naquele momento em que tomei consciência da importância da vida, da efemeridade. Quando a gente é jovem a gente não liga muito pra isso, pensa que vai viver pra sempre ou que a morte é algo distante demais. Mas aquela senhora, com as pernas pretas e com os olhos arregalados de dor, aquela mesma senhora que antes parecia inabalável quando jogava nossas bolas rasgadas, me deu consciência sobre o fim.

Eu sei que esse texto está muito longo, mas prometo tentar termina-lo em poucos parágrafos. Anos depois, em 2010, uma outra vizinha nossa faleceu. Ela era a melhor amiga da minha avó e tenho muitas lembranças dela. Uma lembrança, aliás, muito viva: recordo de vê-la parada na janela, conversando com a minha avó sobre como limpar pano de pratos. Quando a filha descobriu que ela estava com câncer, largou o emprego para ficar do seu lado. Com o tempo ela parou de aparecer na rua para varrer a calçada, parou de chamar minha avó para conversar, deixou de sair de casa. Sabíamos que ela estava muito doente e o clima na rua era terrível. Tentávamos fazer o mínimo de barulho possível e quando alguma criança ia brincar na calçada dela sempre aparecia algum adulto pra dizer: “Sai daí, para de fazer barulho porque tem gente doente”.

Meses depois, numa noite muito silenciosa, eu reparei uma movimentação na casa dela. Minha mãe, que é muito amiga da filha dela, disse: “O médico falou que ela não vai aguentar e morrerá em poucas horas”, eles estão chamando a gente Thaís. Lá fomos nós, eu e minha mãe, mais uma vez…. mas dessa vez, foi muito diferente de TUDO (tudo mesmo) que já vivi. Ela estava deitada na cama, debaixo de uma coberta que parecia muito quentinha. A luz do quarto estava apagada e tinha apenas uma vela. A filha dela segurava sua mão e fazia carinho na sua cabeça, dizendo: “pode ir mãe, pode ir”. Em volta da cama estavam todos os familiares: netos, filhos, os irmãos. E eles rezavam, bem baixinho (muito baixinho mesmo). Foi tudo muito rápido, quando me dei conta alguém falou: “ela morreu”. Foi um dos momentos mais lindos que pude presenciar (apesar da tristeza). Ver aquela família cheia de dor e amor (muito amor mesmo), reunida para se despedir de um ente querido, me marcou profundamente.

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