[Hobsbawm] Tempos Fraturados – Introdução

Um dos meus propósitos para 2018 era estudar Hobsbawm, mas a minha rotina tem me impedido de realizá-la. Leio, diariamente, cerca de 40 artigos corporativos (alguns de 500 palavras, outros de 3000), e isso tem deixado a minha mente bem cansada. Ainda que não vá ler todos os livros (que era o meu objetivo), escolhi um deles para estudar quando possível. A ideia é fazer uma série de publicações|resenhas, como fiz de dois livros da Susan Sontag (Diante da dor dos outros e Doença como Metáfora).  

Tempos Fraturados

Assim, quando possível, vou publicar algumas anotações e percepções sobre alguns capítulos de Tempos Fraturados. O livro reúne 22 artigos escritos por Eric Hobsbawm, falecido em 2012 (pouco antes da entrega dos textos). Trata-se de uma profunda reflexão sobre arte, política e contemporaneidade. Entre os ensaios e resenhas, ele reflete sobre festivais literários, sobre o florescimento da Belle Époque e sobre as vertentes do capitalismo moderno na Europa e Estados Unidos. Além disso, faz uma análise sobre o rumo das artes e da política na atualidade.

De uma perspectiva mais complexa, Hobsbawm analisa o que aconteceu com a arte e cultura da sociedade burguesa depois do seu desaparecimento pós-1914. Como explica o autor, não é possível compreender as artes do novo milênio sem realizar um “profundo  mergulho no mundo perdido de ontem”. O livro enfoca especialmente a Europa do século XIX, que criou não só o cânone de clássicos da música, ópera, teatro e balé, como também popularizou a linguagem básica da literatura moderna.

Eric HobsbawmComo se sabe, a civilização burguesa européia jamais se recuperou após a Primeira Guerra Mundial. Nesse cenário, as artes e as ciências eram fundamentais para uma visão de mundo voltada para si, uma estratégia importante para fortalecer a crença no progresso e na educação como substitutas da religião tradicional. A pergunta feita no prefácio do livro é: “Como pôde o século XX enfrentar o colapso da sociedade burguesa tradicional e dos valores que a mantinham em pé”?

Ainda que essa sociedade fosse dedicada ao progresso (ciência), ela mostrava-se incapaz de compreendê-la: “Trata-se de uma civilização que era (e continua sendo) meritocrática, ou seja, nem igualitária, nem democrática”.

Tanto a lógica do desenvolvimento capitalista como da própria civilização burguesa estava destinada a destruir seus alicerces. A estabilidade desse sistema comandado pelas elites hegemônicas foi totalmente destruída por um golpe triplo:

  • revolução da ciência
  • tecnología do século XX
  • sociedade de consumo da massa, gerada pela explosão do potencial das economias ocidentais.

Os três acontecimentos citados acima refletem diretamente na contemporaneidade (para o autor, de uma forma positiva,  mesmo que o público da cultura erudita e clássica burguesa “tenha sido diminuído a um nicho para idosos, esnobes ou ricos em busca de prestígio”). Na perspectiva de Hobsbawm, a combinação de tecnologias novas e o consumo de massa não só criou o cenário cultural em que vivemos como também gerou a mais original realização artística: o cinema –  e é dele que vem a hegemonia dos Estados Unidos (importante por sua originalidade e pelo seu poder de corromper).

O surgimento de uma economia tecnoindustrializada possibilitou que nossas vidas fossem imersas em experiências universais constantes, e isso é inédito. A globalização transformou totalmente a nossa maneira de aprender a realidade e especialmente o “status” da arte.

O que sabemos é que a dimensão da nossa experiência em relação à arte é bem diferente da sociedade burguesa. Por isso, o autor conclui o prefácio de uma forma bem crítica e sarcástica:

Mesmo a pergunta “Isto é arte?” provavelmente só é feita por aqueles que não aceitam que o conceito clássico burguês de “artes”, embora cuidadosamente preservado em seus mausoléus, já não está mais vivo. Atingiu o fim da linha já na Primeira Guerra Mundial, com dadá, o urinol de Marcel Duchamp e o quadrado negro de Malevich. É claro que a arte não acabou, como se chegou a supor,. Nem a sociedade da qual as artes eram parte integrante. Porém, já não compreendemos o atual dilúvio criativo que inunda o globo de imagens, sons e palavras, nem sabemos lidar com ele, dilúvio que quase certamente se tornará incontrolável tanto no espaço como no ciberespaço.

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Na próxima publicação, falaremos sobre os manifestos e os possíveis caminhos da arte.