Uma, duas

(…) “Ela sente aperto no intestino, que é raiva da mãe. Aquela mãe que insiste em seguir existindo como uma realidade para ela. Mais viva ainda porque odeia e ama aquela mãe com a mesma intensidade, embora só tente odiar.

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Acabei de ler “Uma, duas” de Eliane Brum e ainda estou sem saber definir o que senti sobre a narrativa. Terminei a última página sentindo um pouco de repulsa.  Não… não é só uma repulsa pelos acontecimentos, mas também uma falta de empatia em relação às duas personagens principais: Maria Lúcia (a mãe) e Laura (a filha). Por outro lado, fiquei encantada com a narrativa, que me deixou bem perturbada (e viciada, tanto que eu li o livro em um dia! Eu não conseguia parar de ler e fiquei vidrada durante a madrugada).

O livro conta a história de Laura, que num dia qualquer, recebe um telefonema de uma desconhecida que afirma que Maria Lúcia está há dias trancada em seu apartamento. Com má vontade, Laura vai até a casa da mãe e se depara com uma cena grotesca. Maria Lúcia, deitada no chão, apodrecendo em vida. Depois de dias entrando e saindo do hospital, Laura se vê diante de uma situação difícil: precisa se mudar para o apartamento da mãe e cuidar dela. Há todo um suspense construído nesse ambiente angustiante, em que a filha sente nojo do cheiro da mãe e quase enlouquece quando escuta as unhas da mãe arranhando a porta.E a mãe sente medo da filha e fica aliviada quando ela sai.

(Mano! E eu li o tempo todo me perguntando sobre o motivo. O que aconteceu para que elas se odiassem tanto?)

Os segredos nos são revelados aos poucos, mas sem piedade. A gente vai lendo tudo aquilo e sente como se estivesse naquela casa, junto às duas. E é engraçado, porque dá pra entender o porque a filha odeia a mãe, e dá pra entender o porque a mãe odeia a filha. As duas narram os acontecimentos de acordo com suas perspectivas. Eu só conseguia pensar: “Puta merda! Que vida desgraçada” ou então “Quem vai matar quem?”. Mas o lance não é esse, de violência física. É uma violência psicológica, dolorosa e lenta. E a gente vai percebendo que existe um ódio entre as duas, mas também tem amor. Uma cumplicidade meio estranha…

De todos, um momento me chocou muito. A brutalidade em que Maria Lúcia descreve sua gravidez, como se sentisse que existisse um rato dentro dela. Sugando sua energia, seu corpo. Sabe, o livro me surpreendeu de muitas maneiras. Foram poucas as leituras que fiz que me provocaram tanto desconforto. Enquanto lia, pensava na minha relação com a minha mãe e nos trechos do livro, que dizem que toda a filha é quase como uma extensão do corpo da mãe. Imagine o quão forte essa ligação pode ser.

Li o livro da Andressa Urach, deixa eu te contar o que achei!

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Fiquei curiosa para ser esse livro, queria demais conhecer as histórias tão polêmicas da Andressa Urach. Eu sinto uma simpatia por ela, e nem sei explicar o porquê. Como eu cheguei a ler inúmeras notícias e resenhas, acabei não me surpreendendo muito. A figura dela é interessante, e o livro também… seja ou não uma jogada de marketing. Vejo a Andressa como um exemplo vivo da loucura que é o universo do entretenimento, das coisas boas e ruins que acontecem no submundo das celebridades e que a gente não vê no jornal. O livro carrega um discurso muito forte de arrependimento, a narradora é uma pessoa que cometeu loucuras e exageros em busca de uma satisfação: tudo isso envolvia fama, dinheiro e muito sexo.

O que mais humaniza Andressa é a sua origem, o fato de ela ter nascido em uma família como todas as outras famílias brasileiras. Ela poderia ter sido a sua vizinha, sua conhecida, sua prima… O que a diferencia de tantas outras pessoas? Talvez a sua audácia ou o apelo pela exposição.

A fixação de Andressa pela beleza começa muito cedo, depois o vício nas cirurgias plásticas passa a persegui-la como um fantasma. Independentemente da quantidade de intervenções estéticas, ela nunca se contenta. E o livro começa no ápice desse vício, no momento em que ela precisa ser internada às pressas por causa da infecção nas pernas. Ela, com medo de morrer e pensando no filho, e a mãe dela, desesperada ao vê-la doente.

Em suma, é um narrativa bem simples, mas interessante de se ler. Das revelações polêmicas, muito se falou: Andressa conta que foi abusada sexualmente por homem a quem considerava como “avô”, ela conta que perdeu a virgindade com o irmão, que praticou zoofilia, que era a prostituta mais disputada e que brigava muito com a mãe, inclusive fisicamente. Ela não esconde os encontros sexuais com homens ricos, nem as bizarrices exigidas por eles. A modelo fala também sobre seus relacionamento com mulheres e dá sua versão sobre o encontro que teve com Cristiano Ronaldo (e conta que o jogador foi violento, fez ameaças e que seus seguranças chegaram a deixá-la presa num quarto de hotel).

Dica de leitura: Dez Mulheres

Capa Dez mulheres.inddHá muito tempo um livro não me emocionava tanto como este. Mesmo com uma montanha de textos para ler para a faculdade e com a correria do dia-a-dia, me dediquei a essa leitura com um prazer indescritível e me sensibilizei tanto, que chorei no ônibus, a caminho do trabalho… “Dez mulheres” conta a história da reunião das pacientes da terapeuta Natasha, mulheres de diferentes classes sociais, idades e vivências. Todas tão humanas e universais, que poderiam existir em qualquer lugar do mundo. Neste caso, o cenário é o Chile, aliás, muitos Chiles… cada um em conformidade com a perspectiva de determinado personagem. O livro aborda tantos temas, que é difícil definir: amor, sexualidade, doenças, relações familiares, maternidade, solidão, dinheiro… Tantas questões não resolvidas, tantos traumas, alegrias e tristezas. Eu realmente me senti participante da história, apaixonada com a narrativa. Depois deste livro, me interessei muito pelo trabalho da autora, Marcela Serrano, a quem desconhecia. Do pouco que li sobre sua biografia, já admiro.Dentre as diversas entrevistas que vi e li dela, destaco uma de suas frases:“Definirse feminista es definirse ser humano”.

A biografia da Bette Davis

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Tô em falta com esse blog e me sinto péssima por isso, todo dia me surge uma ideia nova para uma publicação, mas a rotina está tão corrida que não consigo sentar para escrever. Estou me esforçando para ler os meus livros, seja no ônibus quando vou trabalhar, na academia ou minutos antes de dormir.  Há algumas semanas comecei a ler a biografia da Bette Davis, escrita por Charles Higham.  Estranhei muito no começo porque a narrativa é bem opinativa, o autor não esconde suas percepções sobre a vida da atriz. Ele começa o livro dizendo que foi visita-la em sua casa para fazer uma entrevista e que se surpreendeu com sua feminilidade. Higham dizia que Bette tinha uma sensualidade única e que fumava cigarros como ninguém. Para ele, seu jeito forte era um reflexo da vida de uma mulher que foi extremamente subjugada num universo dominado por homens.

A narrativa sobre o primeiro encontro dos dois me passou a impressão de uma Bette intimidadora, que falava alto, adorava palavrões, inteligente e rápida nas respostas A verdade é que demorei para gostar do livro e ainda estou na metade, mas muitas curiosidades sobre a carreira e vida da Bette (ainda que apimentadas pelo olhar do autor), me fizeram admirá-la ainda mais.  Eu não sabia nada da relação da Bette com a mãe, Ruth, e com a irmã, Bobby. O autor conta que a três sofreram influencias fortes da avó, que tinha uma educação quase “militar”. A irmã da Bette tinha problemas mentais e passava por muitas internações. Já a mãe da Bette, se esforçou ao máximo para torna-la famosa (chegou a fazer inúmeras dívidas por causa da filha), tinha uma postura super protetora e intrometida (que incomodava profundamente os produtores, diretores e jornalistas). Ruth, na juventude, tinha o sonho de ser atriz, mas foi impedida pelo marido… por isso, teria transferido todos os sonhos para a filha.

Bette foi muito influenciada por essas três mulheres, que de alguma forma, moldaram sua personalidade. Já no início da carreira, ela sustentava a mãe e a irmã, e por vezes, se enrolava financeiramente com o estúdio para bancar a vida boa (viagens e mansões) da família. O autor do livro tem uma língua bem feroz, e fala bastante sobre o primeiro casamento da atriz com Harmon Nelson, um homem fraco e rabugento (que não apoiou a Bette em sua primeira gravidez, o que a levou a abortar). Segundo o livro, ele ainda teria pegado Bette “no flagra” com outro homem e a chantageou para não contar tudo para a mídia. Em relação a carreira da Bette, é quase impossível não admirá-la por sua força, talento e coragem. Bette tinha tanto amor pelo teatro que mergulhava em seus trabalhos e chegava a ficar doente, suas interpretações eram enérgicas e ela não tinha medo de encarar personagens que fugiam ao estereótipo. Quando foi para Hollywood, foi boicotada por grandes produtores que a achavam uma ótima atriz, porém não “bela o suficiente”. Ela também encarou uma batalha judicial com Jack Warner, que a obrigou a fazer filmes sem interrupções e, muitas vezes, com histórias de baixa qualidade.

Bom, por enquanto é isso… ainda estou na metade do livro e depois volto para contar sobre o final da leitura.  😉

Thammy – nadando contra a corrente

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Estava ansiosa por ler este livro, mas me decepcionei um pouco… Esperava por uma narrativa mais reflexiva e menos documental. Acho que a vida do Thammy (e todas as dificuldades que enfrentou para viver sua sexualidade plenamente) pode servir de exemplo, ensinamento e inspiração pra muita gente. A narrativa é descomplicada e escrita em terceira, foi baseada em entrevistas e depoimentos de figuras próximas à ele. Muito de sua história está diretamente ligada à Gretchen e é difícil não ficar curioso quanto a relação dos dois, especialmente sobre as problemáticas oriundas da sexualidade do filho e da fama da mãe. Também se fala bastante sobre a juventude de Thammy, de suas histórias escolares, do apelo da mídia, das relações com os irmãos e com o pai.

Sobre à sexualidade dele, é muito interessante como tudo se deu naturalmente. O livro conta que desde pequeno ele já tinha um comportamento masculino e que a bomba estourou quando ele tinha 16 anos quando se apaixonou por uma produtora da mãe. De início se dizia-se (ou considerava-se) homossexual e só depois, conseguiu assumir a transexualidade. Além da vida cercada alguns luxos (como motoristas particulares, viagens ao exterior ou passeios à casa da praia), o livro se centra muito na ausência da mãe, que sempre teve uma vida profissional atribulada. Com todas as polêmicas que Thammy se envolveu, sinto que ele tem um carisma muito forte, assim como a Gretchen (que, sinceramente, adoro!). Das entrevistas que vi ou li dele, só me incomoda um pouco uns resquícios machistas…

Mamãezinha Querida – O livro

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Como prometido, reli “Mamãezinha Querida” e assim que terminei, corri para escrever no blog sobre a sensação que tive.  Voltar a essa história é quase como reassistir um filme de terror, daqueles que a gente deliberadamente esquece algumas cenas e memoriza umas outras tantas.

Desde que conheci a Joan Crawford, tenho a admirado por sua força e por sua beleza… Há nela algo misterioso, uma obscuridade assustadora. Seja por sua infância extremamente pobre e sofrida, por sua loucura pelo sucesso ou por sua necessidade de mostrar para o público uma vida perfeita (que nunca teve).  Nunca saberemos se a relação de Joan com a filha foi tão problemática quanto narrada no livro, mas é realmente difícil ficar indiferente à perspectiva de Christina.

Algo me leva a acreditar na obsessão que a Joan tinha por limpeza por vê-la, em diversos vídeos e entrevistas, comentando sobre como fazia questão de limpar a própria casa e sobre como era uma “cuidadosa dona-de-casa”. Ela chegou até a brincar sobre essa questão em um episódio de I love Lucy, gravado em 1968.  Das coisas que li, acredito que essa fixação da Joan por limpeza foi um reflexo da relação conflituosa com a mãe, que também era viciada em arrumar as coisas e que trabalhou durante anos em uma lavanderia.

O comecinho do livro da Christina me surpreendeu porque eu não lembrava que ele se iniciava com a narrativa sobre a morte da Joan. No primeiro capítulo ela conta que foi a última pessoa a ver a mãe morta, que a atriz estava muito magra e que sentia certa ironia no fato de uma mulher tão controladora ter o seu destino entregue às mãos dos outros. Ao longo da narrativa, ela fala muito sobre a carreira da Joan, desde o seu surgimento como dançarina, ao Oscar (e aos momentos tenebrosos que passou quando Crawford foi considerada veneno de bilheteria, isso porque a mãe ficava extremamente nervosa e passava mais tempo em casa).

Acho interessante a Christina contar como a mãe foi se moldando e criando suas próprias marcas ao longo do tempo, a ponto de fazê-la parecer uma pessoa completamente diferente da que era no começo da carreira. Sejam pelas grossas sobrancelhas, pela boca marcada e pelas famosas ombreiras. Joan foi a responsável por criar sua própria imagem.

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Um dos grandes argumentos que ela usa contra a mãe é que Joan não queria que seus bebês crescessem. Tudo estava bem, até que eles foram crescendo, se informando e tendo suas próprias vontades. Os primeiros abusos que sofreu começaram quando tinha cinco anos, nessa época ela já apanhava, sofria pequenas humilhações, já era obrigada a limpar a mansão e preparar drinks para os convidados. Segundo ela, a mãe a treinou para ser uma menina perfeita: rica, polida, bonita e inteligente.


Tá, mas… vamos ao livro:

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Christina demonstra sentir muita raiva pelo fato da mãe afastá-la de casa, afinal ela passou muito tempo em internatos e perdeu momentos importantes em família: aniversários e natais… E sua mãe era muito ausente também, comunicava-se com ela através de pequenas cartas e bilhetes, não participou de suas formaturas.

Das polêmicas, acho que quatro delas são as mais interessantes: 1) Ela fala com muita naturalidade da bissexualidade da mãe, que diversas vezes foi à noite no quarto da babá, exigindo que elas dormissem juntas. 2) Christina diz que presenciou a mãe apanhar de um dos seus namorados, a quem tinha que chamar de “tio”. Numa das brigas que a Joan teve com um de seus namorados, ela chegou a subir no telhado fugindo dele. 3) Ela conta que carregou a mãe diversas vezes ao quarto pois ela tinha sério problemas com álcool, e sempre ligava para a escola da Christina enquanto estava bêbada e inventava mentiras sobre a garota.4) Christina dizia que muitos não entendiam porque uma mulher tão saudável como Joan não conseguia engravidar e sempre sofria abortos: ela os provocava.

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Outro detalhe sórdido: ela diz que a mãe era tão insuportável que nenhum empregado aguentava ficar um longo período trabalhando para ela. Então, Joan começou a permitir que suas fãs fizessem certos trabalhos (como limpar os sofás, ajudar no envio das cartas) e ainda não pagava por eles. Joan xingava e humilhava os fãs e mesmo assim eles continuavam lá, a servi-la. Mais uma coisa: Para Christina, a mãe usava a beleza como alpinismo social. Não é atoa que depois que se casou com o dono da Pepsi Cola, conseguiu pagar todas as dívidas que tinha. Durante anos fez o marketing da empresa e recebia muito bem por isso.

Ainda sobre esse assunto, ela conta que a mãe, enquanto esteve casada com Douglas Fairbanks, lutava bravamente para ser aceita pela sogra: Mary Pickford (que dizia não gostar de Joan por achá-la vulgar!).

Se Christina sofreu nas mãos da mãe, Christopher que o diga. Segundo o livro, ele batia de frente com a mãe e sempre levava a pior. Como era inquieto, Joan chegava a fazê-lo utilizar o “crasono-seguro”, que o prendia à cama e deixava imóvel durante toda a noite.

O fim da vida da mãe parece ter sido terrível, e Christina deixa evidente que não o acompanhou de perto. Segundo ela, Joan bebia muito e levava muitas quedas. Chegava a ficar com o corpo todo machucado.

Baby Jane foi o último sucesso de Joan e Christina conta que esse filme foi fundamental para que a atriz pudesse pagar suas contas atrasadas.

Ainda que muitos momentos narrados causem repulsa, o livro oferece uma oportunidade de conhecer uma nova perspectiva sobre Joan; muitos fãs não acreditam em nada que a Christina diz e em certa parte eu entendo (nós nunca vamos comprovar se o que ela disse é verdade). Mas de qualquer forma, é interessante ter acesso a tantas informações sobre a carreira desta atriz, que em alguns momentos, criou uma personalidade para si que foi se misturando com suas personagens. Joan teve uma infância muito pobre e uma juventude cercada de luxos… Outro dia vi um documentário e num dos depoimentos, falava-se exatamente sobre essa “fome” pelo sucesso que ela tinha, como um medo visceral de voltar à miséria. Acredito que existiu uma rivalidade terrível entre as duas e acho que a Joan fez algumas coisas “ruins”, tentando acertar…  na minha interpretação, ela reproduziu os rígidos ensinamentos que teve quando criança.  [Falando nisso, ainda cabe lembrar que Christina disse que Joan não tinha boa relação com a mãe, que a deixou morrer sozinha e com poucos auxílios financeiros.]

Eu li e me arrepiei!

 

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Tenho uma profunda admiração por Drauzio Varella especialmente pelo respeito e humanidade que ele possui em relação aos seus pacientes. Gosto de ler seus artigos, assistir seus vídeos no Youtube e me informar sobre os projetos que desenvolveu no Brasil em relação à AIDS.  Do pouco que conheço sobre assuntos de saúde, me admira a maneira em que ele trabalha com uma linguagem simples e acessível, de forma em que se coloca de igual para igual diante do espectador. Recentemente (para ser mais precisa, ontem à noite), terminei de ler “Carcereiros”, livro lançado em 2011 onde o médico narra algumas de suas experiências em presídios. Dentre elas, a sua experiência de voluntariado no Carandiru.

O livro possui um forte tom jornalístico e uma narrativa dinâmica, cheia de diálogos. Além de um registro de memórias, é também uma obra de denúncias sociais. Foi um livro que me fez refletir sobre questões que nunca parei para pensar, porque de alguma forma, estão distantes do meu cotidiano. Drauzio deu rosto e nome aos carcereiros, que realizam um trabalho dificílimo, de muita importância social e que não recebem o devido reconhecimento.  É incrível como esses homens e mulheres colocam a vida em risco diariamente, como eles acabam se “endurecendo” com a rotina, como se dividem em dois mundos muito diferentes e igualmente cruéis.  Imagine ter que viver grande parte do dia em um local onde, do outro lado das grades, estão ladrões, assassinos e estupradores. Seres-humanos vivendo em situações degradantes, em celas superlotadas e anti-higiênicas. Fora o sistema que é extremamente corrupto e o jogo (enlouquecedor) de caça entre gato e rato.

Durante a narrativa, Drauzio vai misturando alguns acontecimentos com a história dos carcereiros. Como o do casal que resolveu deixar de trabalhar na prisão e abrir um bar, até serem assassinados. Ou o carcereiro que se envolveu com a mulher, estelionatária, de um dos presos e passou a ser perseguido por ela. As histórias são muito marcantes e talvez a que tenha mais me agradado seja a da negociação entre um diretor e dois presidiários – que se rebelaram dentro da cadeia exigindo a transferência para outro presídio (se ficassem onde estavam, seriam assassinados). Mas nessa narrativa, há muita obscuridade (tanta que me tirou o sono). Por exemplo:  em um momento, o autor descreve quando encontrou um corpo extremamente ensanguentado com perfurações no pescoço ou o tratamento que os presidiários recebem na ala psiquiátrica.

É um livro que absolutamente me ajudou a ver o mundo de outra forma, além das fronteiras  em que vivo. Há muito mais do lado de lá, e nem tudo é tão bonito quanto imagino. O ser humano pode ser extremamente cruel…

 

Peixe morto

463-20150721180302Não sei dizer o que senti enquanto lia este livro. Uma curiosidade me impedia de abandoná-lo ao mesmo tempo em que certo asco me fazia não querer acabar de lê-lo. Algo me incomodou profundamente na história e com sinceridade, não sei dizer muito bem o que foi. Ao mesmo tempo, a ambientação me provocou um acalento por causa da saudade que sinto de Minas (principalmente por ser ambientada em alguns lugares que sempre gostei de passear). Então, eu realmente não sei dizer se gostei ou não do livro (o que é meio estranho…).

A trama, que tem um assassinato com tema principal, é cheia de jogos de sedução e mistério. Todos os dias pela manhã, um professor universitário caminhava pela Lagoa da Pampulha, até se deparar com um corpo de um homem boiando. Os detalhes do crime chocam, afinal o homem estava com a boca cheia de acarás (peixes) e com a pele do tronco arrancada desde a base do pescoço às axilas. Não bastasse, o professor conhecia o cara assassinado e por um motivo muito especial, poderia facilmente ser incriminado.

A história se mistura em duas narrativas e a construção delas é como um quebra-cabeça. Os capítulos são nomeados por datas e horas diferentes e ainda há um diálogo epistolar de um fato que se passou antigamente (e que também envolve: peixes e taxidermia).

 

México, um país em dois olhares

mexicoAs obras de dois autores inspiraram a linha comparativa deste trabalho, eles tiveram a coragem de se aventurar a estudar o México, sua história e o comportamento dos mexicanos. Um deles foi Érico Veríssimo, que publicou o livro “México” em 1960. O outro foi Jorge G. Castañeda, autor de “Amanhã para sempre”, de 2013.

É curioso como a visão dos dois se assemelha em alguns quesitos e por vezes, se distanciam abruptamente em outros casos. Naturalmente há o distanciamento do tempo em que os livros foram escritos, mas leva-se também em consideração a linha narrativa. Enquanto o livro de Veríssimo é um romance com forte tom poético, o livro de Castañeda apresenta uma linguagem mais científica e um estudo sobre o conceito de identidade nacional. Jorge G. Castañeda é professor de uma das maiores universidades do México (a UNAM) e atuou como chefe das Relações Internacionais no governo do então presidente Vicente Fox. Em seu livro, ele confronta diversos clássicos, autores (como Octavio Paz) e questiona os estereótipos pelos quais os mexicanos ficaram conhecidos.

Érico Veríssimo foi um dos escritores brasileiros mais populares do século XX (e dentre suas obras famosas, cabe citar a trilogia de O tempo e o vento).  Ele realizou sua terceira viagem ao México em 1955, ao lado de sua esposa, Mafalda. Na época, dizia enfrentar um bloqueio criativo por causa da vida burocrática que levava nos EUA, ele ocupava um cargo na Organização dos Estados Americanos, em Washington.

A visão de Jorge G. Castañeda pode não ser muito agradável aos mexicanos já que ele indica grandes falhas na sociedade e, de maneira corajosa, se atreve a sugerir soluções. Apesar de uma linguagem complexa, o livro perpassa por assuntos certeiros e fundamentais sobre o país, como por exemplo: o narcotráfico e a violência.

Castañeda começa sua reflexão afirmando que os mexicanos são individualistas e o são de uma maneira diferenciada. No primeiro capítulo “Por que os mexicanos são ruins em bola e não gostam de arranha-céus”, ele explica que os mexicanos enxergam a casa própria não só como status, mas como garantia de individualidade – por isso, a pequena popularidade dos arranha-céus (ou prédios). De acordo com o autor, os mexicanos são individualistas inclusive no esporte, por isso são os melhores no Golfe  e não no futebol.  Eles evitam pegar ônibus e são individualistas até quando o assunto é democracia, sentem desconfiança em relação às ações coletivas.

 O perfil que o autor faz do mexicano é bem distante do lado romântico que Érico Veríssimo descreve. Por exemplo: Castañeda afirma que os mexicanos são avessos a qualquer tipo de confronto ou competição porque são fatalistas. Se vêem como perdedores e… já que vão perder, vale a pena lutar? O autor apresenta diversas análises e aponta algumas justificativas para esse comportamento, uma delas está na própria história do México, que foi extremamente cruel e violenta com os índios.

Para Veríssimo, o mexicano é um povo que foi traumatizado em seu nascimento e isso marcou o inconsciente coletivo do país, por isso vivem sempre angustiados “por uma sensação aflitiva de que algo de mau, algo de terrível está sempre por acontecer. O nascimento da nação mexicana foi difícil, dilacerante, sangrento, doloroso e o índio que sobreviveu à Conquista não se adaptou ao ambiente frio e hostil criado pelo invasor, ele desejou voltar ao ventre materno, isto é, a terra.”

Sobre os mexicanos e seus costumes, Castañeda explica que a população já não é tão católica como muitos pensam. Hoje, a maioria deles não vai à igreja nem vivem a religião, mesmo que se autodenominem como católicos praticantes. O escritor ainda explica que o país é extremamente marcado pelo racismo, pelo preconceito e pelas lutas de classes. Eles se dizem “mente aberta”, mas não são. Veríssimo vê a religião com outros olhos, ele possui um encantamento em relação a ternura que os mexicanos sentem pela Virgem de Guadalupe, e entende que toda essa identificação vem do fato de que a virgem, morena, teria aparecido para um índio (chamado Juan Diego na colina Tepeyac).

Em 1960, Veríssimo dizia o mesmo que Castañeda sobre as diferenciações raciais, porém em outras palavras. Para ele, o México era uma nação em que predominava o sangue índio. Ele dizia que cerca de 30% de seus habitantes eram racial e culturalmente índios enquanto a menor parte da população era formada de brancos ou de criollos, isto é, de filhos de pais e mães espanhóis, mas nascidos no México.

Os 10% que eram ou se consideram brancos viviam e pensavam mais ou menos como os brancos de qualquer outro país da América e, seus dramas e neuroses relacionavam-se não ao fato de serem mexicanos, mas sim de pertencerem a uma determinada classe social: “Assim, o que na minha opinião melhor representa o México, é o de sangue espanhol de índio, não só porque ele constitui a maioria da população, mas também e principalmente porque dá a nota tônica na vida do país”.

E a relação com os Estados Unidos também é tema para estudo nos dois livros. Veríssimo não deixa de citar a famosa frase de Porfírio Diaz que dizia: “Pobre Mexico, tan lejos de Dios y tan cerca de los Estados Unidos”.  Já Castañeda, utiliza a famosa frase em introdução ao assunto: “Nós não atravessamos a fronteira, a fronteira nos atravessou” Sobre essa relação, os dois autores concordam em um ponto: por parte dos mexicanos, há uma mistura de raiva e admiração.

Mesmo com linguagens tão diferentes, os dois autores se mostram carinhosos e respeitosos em relação ao país, eles não economizam palavras ao falar das cores, da arquitetura, dos pintores, da história e das músicas mexicanas. Muito se pode descobrir através da visão deles e é difícil não se envolver na leitura desses livros.

Minha vida sem banho

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Escolhi esse livro pelo título, fiquei extremamente curiosa com a descrição e sobre o desenvolvimento da história. Li o livro em menos de uma semana e definitivamente, fiz uma boa escolha: me emocionei e me diverti com a história. “Minha vida sem banho” foi escrito em 2014 pelo jornalista Bernardo Ajzenberg. Na trama, Célio é um homem que, de repente, não toma banho por conta do aquecedor quebrado. Porém, ao longo dos dias, ele vai repetindo a ação… ele simplesmente decide não tomar banho mais. A narrativa vai se misturando com outras vozes e histórias, pois além de Célio, há as correspondências de sua namorada (que acabou de realizar uma viagem) e a narrativa sobre a história dos pais de Célio (com um suspense delicioso).

Numa das resenhas que li por aí, diziam que a grande metáfora para a ausência dos banhos seria nossa mania destrutiva de sempre protelar algo que necessita ser feito. Eu encarei o lance mais como uma “acumulação” das marcas que a vida deixa, acho que o personagem estava mesmo era depressivo pela ausência da namorada, pela vida sem sentido e por causa da relação com os pais. E aí, as coisas que ele vivia (as dores, decepções) ficavam impregnadas em seu corpo como a sujeira fica quando não se toma banho. Viajei, né?

A história vai ficando cada vez mais legal no decorrer dos dias, quando ele começa a feder e a sentir coceiras em lugares impróprios. As pessoas fingem não perceber a ausência dos banhos, até que a situação fica insustentável. Outro detalhe que amei é que a trama é ambientada em São Paulo. Tem um ano que moro aqui e toda vez que ele citava um lugar eu ficava me perguntando se conhecia ou se já tinha visitado.