sobre Daniela Romo…

Ficar distante do La Amora me dói, adoro escrever e publicar aqui, dá um prazer inigualável. Infelizmente estou com pouco tempo, o trabalho e os cursos estão me deixando sem fôlego – tenho até assistido menos filmes, o que é fora do comum.

Hoje eu reli algumas publicações do Indiscreet Talkin, o blog da Jéssica, que já mencionei aqui anteriormente. Em um de seus textos ela falava sobre sua “crush” em Christine McVie. Engraçado a maneira em que ela descreve seu comportamento, é exatamente daquele jeito que eu fico quando me encanto com alguém (normalmente atores, atrizes e cantores). Sabe aquela coisa de colecionar fotos, de assistir capítulos, procurar pela biografia, por novidades ou ouvir todas as músicas? É, mais ou menos isso.

daniela romo

Atualmente não há nada que ocupe a minha mente além de Daniela Romo, uma cantora/atriz mexicana. Outro dia uma página que curto no Facebook fez uma lista com personalidades (não sei qual era o intuito da lista porque só passei o olho), mas lá estava ela. De repente veio um flash, me lembrei de “Margarita”, uma das vilãs mexicanas que mais gosto. Como pude esquecê-la? Que ingrata. Eu assistia “Manancial” todos os dias, assim que chegava da escola e ficava fissurada com o personagem, que salvava a novela.

Daniela Romoo
Margarida, “Manancial”

Manancial (El Manantial) foi exibida no Brasil em 2002, contava a história de duas famílias (os Ramirez e os Valdez) que brigavam pela posse de uma região. Adela Noriega interpretava a personagem principal, Adriana (em espanhol, Alfonsina) e ela era apaixonada por Alexandre, membro da família inimiga. O conflito sobre a posse das terras praticamente se transformou em guerra, a situação ficou tão feia que Justo Ramirez (pai de Alexandre e marido de Margarita) chegou a estuprar Adriana e expulsá-la da região. Ela vai embora, mas promete voltar para se vingar.

Em Manancial Daniela Romo usava duas trancinhas, um dia – nos últimos capítulos da novela, ela soltou os cabelos. Fiquei paralisada, sério. Eram enormes! A cena é inesquecível, dessa me lembro até hoje (revi outro dia, pelo Youtube e me surpreendi, porque minha memória estava vivíssima). Margarida sempre usava tranças, nesse dia ela deixou os cabelos soltos. Ela estava separada de Justo e tinha confessado que durante toda a vida, amou outro homem. Justo (que não tinha um braço! Não me lembro porque), invade a casa, dopa Margarida e a estupra. Por fim, Margarida, que sempre maltratou Adriana, passa pela mesma situação e começa a se arrepender de suas maldades – persegue Justo e o mata.

Essa foi a única novela que assisti com a Daniela Romo, descobri há pouco que ela não fez muitas novelas porque também é cantora, aliás, foi eleita pela People como uma das 50 personalidades mais influentes do país.. Quando procurei por ela na internet me surpreendi com a notícia de que teve câncer de mama e que passou por um penoso tratamento quimioterápico. Segui a semana ouvindo suas músicas, vendo novelas e entrevistas. Me encantei por ela, não só por causa dos trabalhos artísticos, mas pela destreza comunicativa e pela inteligência emocional que apresentava nos vídeos.

daniela_romoEm uma entrevista que vi, Daniela construía uma metáfora onde comparava o câncer e a guerra (me lembrei da Susan Sontag). Romo dizia que desde que trouxe a doença a público, muitas pessoas não só ficavam com piedade, encarando-a como uma “morta-viva”, como também diziam que ela deveria usar uma peruca. Antes, ela agradeceu o carinho dos que a apoiaram. Então ela diz que as mulheres diagnosticadas com câncer não tem que se envergonhar, pelo contrário. Assim como os soldados que vão para a guerra e voltam com medalhas e com os braços tatuados, exibindo a glória da vitória, as mulheres estão no seu direito de se mostrarem carecas, de mostrarem ao mundo que estão lutando pela vida.

Pode parecer uma coisa boba, uma afirmação qualquer, mas não é. Há um estereótipo social muito forte que ronda as mulheres, e a aparência é um deles.  Foram revistas e revistas, programas, entrevistas, vídeos especiais, todos dedicados ao assunto. Que até hoje é discutido, na semana passada ela foi convidada a dar uma entrevista a CNN para comentar sobre a doença e sobre o tratamento. E todos os entrevistadores esbarram no mesmo assunto, no cabelo.

Daniela sempre teve um cabelo muito grande (vou colocar uma foto), é como se fosse uma marca dela, talvez seja por isso que ficaram tão impressionados ao vê-la careca. Romo revelou que sofreu ao cortar o cabelo, que era para ela algo “intocável”. Em entrevista ela explicou que o cabelo passou a ser mais importante para os fãs do que para ela, era uma marca e os fãs fantasiavam sobre isso, se tornou um fetiche. Outro detalhe engraçado é que ela fala palavrão pra caramba, tem boca suja e não tá nem aí. – Aliás, Daniela não se chama Daniela e sim: Teresa Premanes.

Daniela Romo e sua esposa,  Tina Galindo.
Daniela Romo e  Tina Galindo.

Em outra entrevista, no show da Cristina (uma espécie de Hebe mexicana) ela também falou muito bacana. A Cristina faz a abertura dizendo que aquele “era um programa de agradecimento” e pediu que Daniela falasse sobre algumas pessoas importantes pra ela. Então ela fala sobre seu pai, “cuja presença era uma ausência” Ela conta que seu pai nunca esteve presente em sua vida e que ela o encontrou apenas uma vez.

Ele disse que desejava vê-la feliz e que esperava que ela encontrasse um homem e que o pudesse fazer feliz. “Naquela época eu já entendia o sentido do que ela se apaixonar, o que era o amor e o que era a vida. Ele me ensinou uma das grandes maravilhas que aprendi no mundo que é o perdão. Eu não precisava perdoá-lo só porque ele não esteve comigo, mas me ensinou a valorizar e a entender o que o perdão significa. Perdoar é a coisa mais difícil que existe no mundo, ainda que pareça tão fácil.”

Daniela é uma militante, luta especialmente pelos direitos dos homossexuais. Há boatos, fortes boatos, de que ela está casada há muitos anos (acho que mais de trinta) com Tina Galindo, uma produtora teatral. Romo não confirmou nada e não fala abertamente sobre o assunto.

Olha o tamanho do cabelo. Daniela, no programa da Cristina, promovendo a novela Sortilégio, 2009
Olha o tamanho do cabelo. Daniela, no programa da Cristina, promovendo a novela Sortilégio, 2009

[Pausa: Eu sei que eu estou escrevendo muito nessa publicação, mas me deem um desconto porque tem muito tempo que não escrevo nada no Blog!!]

Apesar de ter interpretado muitas “mocinhas”, Romo ficou marcada por causa das vilãs. Em “Triunfo do amor”, 2010, ela encarnou Bernada Iturbe. A novela é uma regravação de ‘Cristal’ – que também deu origem a ‘O Privilégio de Amar’. A história é a mesma, em suma, mostra a luta de uma mãe em busca da filha perdida. Victoria Ruffo interpreta Maria, a mãe da “mocinha” e Romo é grande responsável pelo sumiço da garota. Cabe acrescentar que Ruffo e Romo são grandes amigas.

Em 2012 ela gravou “Para soñar”, ela não só comemorava o fim da batalha contra o câncer, como também completava 40 anos de carreira (ela começou a cantar e a atuar com onze anos!). No cd ela canta canções antigas, remixadas, que fizeram sucesso nos anos 80. A última novela feita por Daniela é “La Tempestad”, de 2013. Foi a primeira, desde o câncer. Na trama ela interpreta Mercedes, uma empresária que procura por sua filha desaparecida. (Aliás, suas músicas foram incluídas na trilha sonora.)

Doença como metáfora

“Doença como metáfora” foi escrito por Susan Sontag em 1978 e é uma obra que continua atual e relevante. Já no prefácio, Sontag cria uma metáfora onde afirma que todas as pessoas possuem dupla cidadania: uma no reino dos sãos e outra no reino dos doentes. “Apesar de preferirmos só usar o passaporte bom, mais cedo ou mais tarde, ficamos como cidadãos desse outro lugar”. Sua análise não é sobre a doença física em sí e sim sobre os estereótipos construídos sobre ela. A autora evidencia o câncer e a tuberculose, classificados como “duas doenças tolhidas pelos ornamentos da metáfora”. O livro, reconhecido como um clássico contemporâneo é também uma investigação sobre a política conservadora e sobre o potencial simbólico da discriminação.

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Susan Sontag por Annie Leibovitz, a autora foi diagnosticada com câncer no seio em 1977

(1) No século XIX, a tuberculose era considerada intratável, portanto receber esse diagnóstico era quase uma sentença de morte. Para Sontag, o câncer ocupou essa vaga de enfermidade implacável que entra sem pedir licença e invade secretamente o corpo do doente. A perplexidade sobre a doença é tão grande que é comum o pavor de quem a observa. Muitos doentes perceberam um distanciamento dos amigos e familiares que de forma inevitável, possuem a sensação de transgressão ou que a autora chama de violação de tabu. Os próprios nomes das doenças carregam consigo certo peso (há quem evite falar a palavra câncer, como muitos antigamente evitavam falar tuberculose).

Como os nomes já são rotulados pejorativamente, as pessoas diagnosticadas com a doença se sentem desmoralizadas e condenadas. É comum esconderem a doença que pode por em risco a vida amorosa ou mesmo o emprego. Já no primeiro capítulo, Sontag questiona a atitude de médicos que comunicam o diagnostico de câncer a família e não ao paciente: “a probabilidade de uma pessoa que sofreu um infarto coronário vir a morrer de outro infarto no intervalo de alguns anos é, no mínimo, a mesma de uma pessoa com câncer vir a morrer de câncer em breve. Mas ninguém pensa em esconder a verdade de um paciente cardíaco: nada existe de vergonhoso num ataque do coração. Mentem para os pacientes de câncer não só porque a enfermidade é (ou se supõe ser) uma sentença de morte, mas porque é considerado algo obsceno”.

(2) As metáforas sobre o câncer e sobre a tuberculose se entrecruzam e se distanciam ao longo da história. Sontag cita que Galeano chegou a comparar o câncer como um caranguejo: não porque é uma doença que rasteja e sim por causa da sua protuberância. Etimologicamente, a tuberculose foi vista como um inchaço, os médicos diziam que o tubérculo tinha um tumor – portanto, desde a antiguidade tardia até uma época bem recente, a tuberculose era tipologicamente um câncer. A autora explica que a tuberculose e o câncer só foram definitivamente separadas em 1882, quando se descobriu que a tuberculose era uma infecção bacteriana.

Muitas vezes, a tuberculose é vista como uma doença que atinge apenas um órgão: os pulmões. Ela também é vista como uma enfermidade de contrastes extremos: palidez branca e rubor vermelho. Por muito tempo acreditou-se que a tuberculose é capaz de gerar períodos de euforia e apetite sexual intenso (e que esse surto de vitalidade é apenas enganoso). Acreditava-se que o paciente com tuberculose poderia se curar se mudasse de ambiente. A tuberculose é uma doença da privação: das roupas escassas, de corpos escassos e quartos sem aquecimento. O tubérculo moribundo é alguém que se tornou mais belo e elevado. Em contrapartida, o câncer é entendido como uma doença que pode surgir em qualquer órgão, a palidez do paciente de câncer é imutável. Ele é visto como dessexualizador. Enquanto o moribundo tuberculoso é belo, o do câncer é atrofiado. O câncer é traiçoeiro e mais cedo ou mais tarde, será terminal. O câncer é uma doença da classe média, ligada à fartura, ao excesso. O tuberculoso possui estímulo de apetite, o paciente com câncer, não consegue comer.

Os aspectos citados acima são contrastes colhidos na mitologia popular. Sontag explica que muitos pacientes com tuberculose morreram sentindo muita dor, enquanto pessoas com câncer sentiram pouca ou nenhuma dor. A tuberculose não é apenas pulmonar. Ela também critica o que chama de “equação de Groddeck”: câncer=morte.  “O câncer é um tema raro e ainda escandaloso para a poesia, e parece inimaginável estetizar a doença”.

Susan Sontag faleceu em 28 de dezembro de 2004 aos 71 anos.  A autora sofreu com complicações de síndrome mielodisplásica, que evoluiram para leucemia mielóide aguda.
Susan Sontag faleceu em 28 de dezembro de 2004 aos 71 anos. A autora sofreu com complicações de síndrome mielodisplásica, que evoluiram para leucemia mielóide aguda.

(3) Para Sontag, a tuberculose e o câncer estão ligados a paixão. No entanto, enquanto a tuberculose foi vista como uma doença dos românticos e apaixonados, o câncer é efetivamente caracterizado por sua ausência (os pacientes são encarados como sexualmente reprimidos, incapazes de expressar ira). Muitos acreditam que ambas são uma sequela da frustração: o amor dos tuberculosos (mitologicamente encarados como pessoas explosivas ou sentimentais) são barrados enquanto o amor (e outros sentimentos) das pessoas com câncer são constantemente reprimidos (Sontag cita o caso de Norman Mailer que afirmou que se não tivesse assassinado a esposa, teria ficado com câncer). A resignação é a causa da enfermidade.

Ainda em referência às metáforas da tuberculose, Sontag afirma que era característica das vitimas natas e também era capaz de tornar sexy a pessoa doente. “Era tanto um modo de representar a sensualidade e fomentar as demandas da paixão como um modo de representar a repressão e divulgar as demandas da sublimação, e a doença suscitava tanto um torpor do espírito”.

(4) Sontag afirma que o tuberculoso já havia adquirido conotação romântica no século XVIII. A literatura veio para fortalecer essa ideia e apresentar o tuberculoso como alguém delicado e sensível. A doença passou a estar relacionada com uma pessoa com aspecto atrativo. Na época, era sofisticado parecer enfermo (magro e pálido). A moda entre os homens e mulheres era o vulnerável e o raquítico. A tuberculose estava ligada a noção de melancolia e elegância. Além disso, a junção entre morbidez, beleza e tristeza conotava criatividade. O mito da tuberculose tornou-se um clichê. Ao mesmo tempo, o tuberculoso era considerado um marginal e a doença passou a ser motivo de viagens (viajar ou isolar-se, até então, não eram vistas como forma de tratamento). Sontag afirma que os românticos inventavam a invalidez como pretexto para o ócio e par a isenção das obrigações burguesas afim de viver apenas para a arte. A tuberculose também era associada a loucura e só então os doentes passaram a serem enviados aos sanatórios. A autora revela algo muito interessante, ela diz que a metáfora da viagem psíquica é um prolongamento da ideia romântica: “Não por acaso a metáfora mais comum para uma experiência psicologica radical vista de maneira positiva – produzida por drogas ou por psicose – é a de uma viagem.”

(5) Ao contrário das grandes epidemias (como a peste bubônica, tifo e a cólera) a tuberculose era encarada como uma doença isolada, como uma doença do indivíduo: Ninguém pergunta “Por que eu?” quando contrai cólera ou tifo. Mas “Por que eu?” (com sentido de “isso não é justo”) é a pergunta que muitos se fazem quando sabem que estão com câncer”. Apesar da sua incidência, contrair tuberculose era algo misterioso ( o mistério que rondava a tuberculose, por exemplo, não ocorria com a sífilis. Apesar de terrível, sabia-se que a sífilis poderia ser contraída através do sexo) O julgamento não era só moral, mas também psicológico. Queimava-se as roupas do tuberculoso assim como queimavam de quem tinha cólera. Outro temor proveniente da tuberculose (e que de alguma forma, está presente no câncer) é de que ele esteja ligado a genética.

A mente de uma pessoa trai o corpo ou o corpo da pessoa trai os sentimentos. Sontag explica que no mundo antigo, as doenças eram vistas como ira divina. Hoje são formas de autojulgamento ou autotraição. Em situações extremas a doença é responsável por trazer a tona o que há de melhor e o que há de pior nas pessoas. Na antiguidade, a doença epidêmica era um castigo para a comunidade, hoje é um castigo para o indivíduo. [na literatura] “Para os personagens tratados de maneira menos sentimental, a doença é vista como uma oportunidade para finalmente agir bem”.

I710518(6)Para os gregos a doença poderia ser gratuita ou merecida, com o advento do cristianismo, moralizou-se a percepção sobre as doenças que passaram a serem vistas como punição (como um castigo justo e adequado). “No século XIV, a ideia de que a doença condiz com o caráter do paciente, assim como o castigo condiz com o pecador, foi substituída pela ideia de que ela expressa o caráter”. Sontag cita o médico Bichat que dizia que a saúde é o silêncio dos órgãos e a doença, sua revolta, portanto: a doença é a linguagem dramática do corpo. Nos séculos passados a doença foi vista como um sentimento exacerbado, a tuberculose foi logo ligada ao desejo, os primeiros românticos eram caracterizados como pessoas que desejam com mais intensidade do que as outras.

Para Sontag a ideia punitiva sobre as doenças contemporâneas (antes com a tuberculose, hoje com o câncer) ampliou-se. Antes a doença expressava o caráter, hoje o caráter causa a doença. Ela evidencia o absurdo e o perigo dessa percepção que coloca o ônus da doença no paciente (acreditava-se que a cura depende, sobretudo da capacidade de auto-estima do paciente, uma capacidade já debilitada). Tanto o mito que ronda o câncer quanto o que rondou a tuberculose sugerem que a pessoa é responsável por sua própria doença. Na visão de Sontag, o caso do câncer é pior já que o câncer é visto como sinônimo de fracasso.